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Bach to the future…

Texto: NUNO GALOPIM

Com os Air em pousio, há tempo para experimentar. E se Jean Benoît Dunckel teve a sua estreia, a solo, em 2006, agora é a vez de ouvirmos o que nos mostra Nicolas Godin, em nome próprio.

Em tempos estudava arquitetura, mas desde cedo teve em Jean Benoît (que por sua vez estudava matemática) um parceiro para fazer da música o centro das suas atenções. Chegaram a integrar o coletivo Orange, onde miltaram nomes como os de Alex Gopher ou Etienne de Crécy. Mas foi com os Air que deram a conhecer os mais seguros e visíveis dos seus primeiros sintomas. E, com Moon Safari, em 1998, juntavam-se aos Daft Punk, ao velho parceiro Etienne de Crécy e a outros mais para chamar atenções a um “toque” que emergia então de solo francês… Passaram-se 17 anos desde que Sexy Boy os colocou no mapa, revelando até que havia uma história anterior dos próprios Air a (re)descobrir. Seguiram-se álbuns, uns melhores, outros nem por isso tão entusiasmantes assim. E desde 2012, o ano em que apresentaram uma banda sonora alternativa para o histórico Le Voyage Dans La Lune, de Georges Méilès, não apresentaram nada de novo salvo um álbum com tiragem limitada a mil exemplares em vinil a que chamaram Music For Museum, com a música que tinham criado para uma encomenda do Palais des Beaux Arts de Lille. Com (aparentemente) tempo livre pela frente, Nicolas partiu de ecos da música de Bach e criou um álbum que, com tranquila candura, assinala uma agradável estreia a solo.

Entre instrumentais ou canções – ora cantadas ora faladas em alemão ora em italiano ou em português, mas com sotaque brasileiro – Contrepoint apresenta, nuns contidos 34 minutos, uma sucessão de quadros que partem da música de Bach e da busca de uma afirmação de identidade tão bem vincada nas interpretações do pianista Glenn Gould, um álbum a solo que representa a mais fresca brisa de ideias que chega dos dois elementos dos Air desde os dias em que apresentaram Talkie Walkie, em 2004.

Não se trata de um álbum de versões ou de variações sobre peças de Bach. Estamos por isso num terreno distante do que Wendy Carlos em tempo ensaiou em Switched on Bach (de 1968, um dos primeiros exemplos de pontes possíveis entre a música clássica, as electrónicas e a nova emergente cultura pop) ou até o projeto Lambarena em Bach to Africa (onde se cruzavam instrumentos e arranjos de geografia africana com obras do compositor maior do barroco alemão). Nicolas Godin procura em Bach uma inspiração e em Glenn Golud uma motivação. E as composições fluem depois em vários sentidos, dos terrenos de uma pop suave a que estamos habituados no seu trabalho nos Air a ensaios em território jazzy, como se escuta em Bach Off… Já em Elfe Man, que fecha o alinhamento, pisca o olho ao cinema, numa composição que parece evocar o clima da música mais dreamy que Danny Elfman deu aos filmes de Tim Burton em finais dos oitentas e inícios dos noventas.

Conciso, eclético e acima de tudo surpreendente, Contrepoint é um interessante diálogo entre épocas, vincando sobretudo a busca de uma afirmação de personalidade do músico. E não é suposto que a coisa assim seja quando envolve ideia de criação artística?

Nicolas Godin
“Contrepoint”
Because/Warner Music
4 / 5

PS. Não gosto muito de fazer títulos em outras línguas. Mas este era irresistível.

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