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Os filmes do Queer Lisboa 19

Textos de: DIOGO SENO, LOURENÇO ROCHA e NUNO CARVALHO

Acompanhe aqui a apresentação dos filmes que fazem parte da edição deste ano do festival que decorre até dia 26 no Cinema São Jorge, em Lisboa.

"The Cult of JT LeRoy"

“The Cult of JR Leroy”, de Marjorie Sturm

Em 1999 JT LeRoy chocou o mundo literário: um miúdo de 19 anos publicava o romance Sarah em que se insinuavam referências autobiográficas a um mundo de prostituição infantil travestida. Catherine Texier, na crítica ao livro do New York Times, em 2000, premonitoriamente indagava-se em relação ao autor, “Interessa que só tenha 20 anos? Que tenha crescido na West Virginia rural e mais tarde nas ruas de São Francisco?” Em meio década tornou-se LeRoy numa sensação literária, recebendo o patrocínio de inúmeras vedetas não só do mundo das letras como da música, artes, espectáculo, cinema; sendo comparado, por alguns, a Andy Warhol. Em fins de 2005 o mundo ficava chocado outra vez com um exposé da revista New York que revelava que JT LeRoy era o pseudónimo de Laura Albert, uma artista de 40 anos. A pessoa que em público desempenhava o artista andrógino foi mais tarde exposta como sua ex-cunhada. Marjorie Sturm apresenta em The Cult of JT LeRoy, com amplo recurso a filmagens arquivísticas, o desenvolver do caso, sublinhando a manipulativa usurpação de confiança a que Albert sujeitou uma série de personagens influentes da indústria livreira (autores, editores e críticos), que a autora via como cancelas da publicação e tratou como peões. A exploração da psique de Albert é outra atenção, incluindo-se os depoimentos judiciais do seu psicólogo Terrence Owens, entrevistas ao seu ex-parceiro e à sua meio-irmã, assim como imagens da própria após o escândalo. Infelizmente não há espaço para uma exploração mais profunda do que significou, nesta instância, a apropriação de experiências marginalizadas, ou do impacto de uma imagem pública (construída) na apreciação crítica (como dizia Dennis Harvey na Variety, “a tardia catadupa de desconsiderações, “a sua escrita não estava ao nível”, da parte de ex-acólitos sugere que o seu julgamento crítico está agora tão distorcido pelo ressentimento como em tempos pela hipérbole mediática”). – L.R.

 

“Black Stone”, de Gyeong-tae Roh

É impossível assistir a Black Stone sem lembrar várias vezes aquela que parece ser a sua maior influência: Apichatpong Weerasethakul. Há não só planos que ecoam outros de Tropical Malady e Uncle Boonmee, mas também uma tensão entre passado ancestral, passado recente e o presente, para além de uma mistura entre o real e onírico.

Seguimos na primeira parte desta obra, duas histórias paralelas: a de Shon Sun, um jovem rapaz no seu serviço militar, onde vai ser discriminado por ser mestiço e estrangeiro, e a dos seus pais, trabalhadores numa fábrica de animais. Esta primeira parte, de um pessimismo devastador, não dará descanso a esta família, sujeita a constantes humilhações e à crueldade e indiferença por parte de todos aqueles que os rodeiam. Gyeong-Tae mostra a decomposição dos dois meios que filho e pais habitam: locais poluídos até às entranhas, nas condições materiais e nas relações humanas, onde não resta compaixão. Visual e narrativamente, o realizador acaba por ser por vezes simplista, mas consegue manter um nível de sobriedade que impede o descarrilamento.

Fugido do serviço militar, após assassinar um superior que o violou e através do qual foi infectado com HIV, Sun encontra a casa dos pais vazia e, após deambular perdido, vai à procura do pai fugido ao local de nascimento deste. A segunda parte vai trazer um plano memorável: na praia, Sun é o espectador de um mar infinito de negrume e poluição. Num local onde ainda persistem superstições e espiritualidade, personificados na avó de Sun, vamos testemunhar pedras que levitam, o tempo a congelar (outro plano memorável, com os presentes num funeral dispostos no espaço como modelos, adormecidos pelo deus do sono, em volta de um caixão aberto) e um milagre. Aquela que começa por ser uma segunda parte ainda mais negra, deixando antever que não haverá redenção para estas personagens e que a poluição se alastrou por todo o lado, desvia-se para o sonho, trazendo não só uma espécie de redenção, como uma liberdade visual e narrativa que contrabalança e contrasta com o realismo da primeira parte, num filme desequilibrado mas fascinante. – D.S.

 

“Beira Mar”, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Em alternativa à imagem de país das praias, do samba e da alegria esfuziante – talvez tão estereotipada como a de Portugal como terra de sol, boa comida e gente hospitaleira –, Beira-Mar, a primeira longa da dupla Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, dá-nos uma versão diferente do Brasil, neste caso invernosa, melancólica e contemplativa. O filme acompanha a tentativa de religação entre Martin (Mateus Almada) e Tomaz (Maurício Barcellos) ao longo de um fim de semana em que aquele visita a família do pai, numa pequena cidade costeira do extremo sul do Brasil, incumbido da tarefa de obter um documento relacionado com uma herança. Introspetivo e contido, Beira-Mar é um coming-of-age sobre dois adolescentes no limiar da idade adulta que tentam clarificar os seus sentimentos recíprocos e dar expressão a uma tensão sexual latente. Com excelentes e honestas interpretações dos atores protagonistas, este filme calmo e lânguido é uma boa amostra do lado mais independente e “invisível” do cinema queer brasileiro, revelando-nos um Brasil que é quase um negativo do país que estamos habituados a imaginar. – N.C.

“Beira-Mar” passa hoje (15h00) na Sala Manoel de Oliveira (Cinema São Jorge), integrado na secção competitiva de longas-metragens de ficção

 

“Tots els Camins de Déu”, de Gemma Ferraté

A ideia do filme de Ferraté é interessante: pegar na fuga de Judas após a traição de Jesus para reflectir sobre a culpa e a necessidade de perdão. Um filme curto, pouco além da média-metragem, absolutamente despojado, técnica e narrativamente. Câmara ao ombro, formato de imagem quadrado, travelling atrás de travelling, numa técnica supostamente adequada ao que se pretende explorar: a fuga e desorientação da personagem numa floresta, enquanto é esmagada pela culpa. A abordagem minimalista não funciona completamente, o filme perde-se, acabando a repetir ideias que nunca chegaram a descolar, assente em dois actores pouco convincentes. Também o seu despojamento técnico, e a sua entrega àquele espaço da floresta, que poderia resultar numa experiência imersiva, acabam, dado o nivelamento de todo o filme a essa simplicidade de meios e de linguagem, por ficar aquém do que uma tão interessante premissa prometia. Nem sempre menos significa mais. Ficam algumas hipnóticas imagens, como o plano inicial.- D.S.

 

“Nova Dubai”, de Gustavo Vinagre

O que pode um corpo? No caso de Nova Dubai, média-metragem de Gustavo Vinagre, pode ser arma de combate. Realizador-actor, protagonista do filme, Gustavo confunde as expectativas do espectador, ao misturar documentário e ficção (ou vice-versa). Ele e os seus amigos deambulam por uma cidade do interior, em reconstrução para acomodar o sonho do novo Brasil desenvolvido. Compõem um gang que, com o seu corpo e a sua vulnerabilidade, vão desmontar estereótipos hetero e homossexuais, e resistir ao movimento de homogeneização de comportamentos e estilos de vida e à solidão que o desenvolvimento económico, e as novas formas de comunicação, trazem. Denunciam também o facto de este desenvolvimento ser justo, ao aproximarem-se das figuras marginalizadas desse sonho de betão e arranha-céus, dos quais ficam de fora muitos, inclusive aqueles que materialmente lhe deram vida (um homem das obras divaga sobre a impossibilidade de habitar qualquer das casas que construiu, tendo de se contentar em sobreviver).

O facto de Gustavo ser o protagonista das várias cenas de sexo explícito levanta algumas questões sobre a auto-exposição do criador, e sobre a sua real necessidade artística. O filme parece cair no narcisismo por vezes, com essa exposição a ir longe de mais. O final “chocante” é gratuito e desnecessário. No entanto, a coragem da empreitada, a forma como entretece os seus temas (alguns só aflorados…), a sua tentativa de um gesto de resistência, não são de ignorar. – D.S.

 

“Alex & Ali”, de Malachi Leopold

O americano Malachi Leopold conta-nos em Alex & Ali um romance de uma década que o tio Alex viveu no Irão quando aí participou como professor numa missão dos Peace Corps nos anos 70; antes da revolução que depôs o xá apoiado pela diplomacia americana e instituiu o regime fundamentalista dos dias de hoje. Com a revolução Alex é forçado a abandonar o país e o namorado muçulmano Ali. O amor é imune ao jogo das nações. Será? Em 2012 os amantes reencontram-se em Istambul, após uma separação de 35 anos pontilhada de cartas, emails e chamadas telefónicas. Como é que uma meia-vida, em culturas tão diferentes, diverge as duas personalidades? Será que o seu amor foi afinal tão forte para trespassar as condicionantes no tempo? Um documento forte, apesar de pontualmente tapado por uma ideologia ocidental. – L.R.

 

“Vivant!”, de Vincent Boujon

Vivant! é um documentário de Vincent Boujon que segue durante uma semana cinco homens infetados com o vírus do VIH. Querendo experimentar a adrenalina de um salto de pára-quedas, frequentam aulas de preparação e tentam passar nos testes de segurança que o paciente instrutor coloca. O salto torna-se análogo da experiência de receber a temível sentença e vencer o medo na sequelada vida. Concorrendo, assistimos a diálogos em que os indivíduos seropositivos nos aparecem como antes de mais humanos, ao invés de temerosos párias, discutindo o contágio e o desenrolar posterior da vida de cada um. Os maiores trunfos do filme serão o de trazer à nossa presença, próxima, os estigmatizados indivíduos e o de colocar na boca da sala o tópico tabu. Um filme eminentemente didático.- L.R.

 

“7 Kinds of Wrath”, de Christos Voupouras

Em 7 Kinds of Wrath, o realizador grego Christos Voupouras prossegue a exploração da relação entre os seus conterrâneos e o Outro na sua forma contemporânea, maioritariamente composta por migrantes e refugiados. O filme retrata um arqueólogo de meia-idade desiludido com o amor após o fim de um longo relacionamento que se envolve com um jovem imigrante árabe. Cético em relação aos sentimentos “altruístas” de Hussam (Nikos Gelia, que há um ano vimos em Xenia), Petros (Maximos Moumouris) desconfia das suas solenes proclamações de amor, mas vai transigindo até lhe pedir que participe na economia doméstica. Paralelamente, um rol de personagens cruza os caminhos de Petros no seu dia-a-dia. Filmado a preto-e-branco, 7 Kinds of Wrath é um retrato da demanda de amor de um homem que deixou de acreditar no amor romântico. Além do mais, é ainda uma observação realista das fronteiras culturais e sociais existentes no relacionamento entre pessoas de estatuto e educação diversos.- N.C.

 

 

“La Visita”, de Mauricio López Fernandez

Ainda o ecrã a negro, ouve-se um tiro. O filme vai instalar-se numa casa de campo no Chile, senhorial, de onde nunca vai sair. É lá que chega Elena, uma mulher transexual, para estar presente no funeral do pai. Mauricio López optou por uma realização assente em silêncios, olhares e ausências. É uma estratégia para pintar subtilmente não só o choque que a chegada de Elena provoca mas também os preconceitos paralisantes e a falta de comunicação daquele meio. A casa vai ganhar vida, através de um trabalho interessante do som, e as suas dinâmicas cuidadosamente expostas. A alternância dos pontos de vista e a tentativa do retrato dos estados psicológicos das personagens não serão totalmente conseguidos, mas os resultados são de qualquer das maneiras apreciáveis. A viagem de aceitação de Elena e a sua nobreza face à hostilidade muda com que é recebida é particularmente conseguida, facto a que não será estranho a escolha de uma mulher transexual para dar vida à personagem. A sua calma e força de espírito a lidar com o machismo inerente àquele meio (os frequentes “permissos” que a personagem pede, sobretudo em presença dos senhores da casa), a ausência das figuras masculinas (mas a forma como elas pairam no que as mulheres dizem e fazem), o menino (o único filho dos senhores que aparece com destaque no filme) que testemunha estes silêncios e dinâmicas, vão compor o retrato da díficil integração de Elena naquele meio de estruturas de classe rígidas e papéis de género estanques. Interessante também é a personagem da mãe de Elena e o seu conflito interior, ao enfrentar, ao mesmo tempo, a perda do marido e o regresso do seu filho, agora mulher, numa viagem de aceitação comovente. – D.S.

“Oriented”, de Jake Witzenfeld

Um ponto alto da selecção de documentários do Queer Lisboa deste ano será a primeira longa do judeu britânico Jake Witzenfeld, Oriented, que aparece numa embalagem de bom gosto musical e fotográfico (uma outra fantástica estreia de um realizador britânico, Lilting, passa também hoje às 17h15). Focando-se no novelo identitário de três jovens gays, que são de etnia árabes, de passaporte israelitas, e, dois deles, convictos palestinianos, o filme consegue evitar a receada malha do pinkwashing (a narrativa em que o judeu aparece como salvador de uma população lgbt oprimida pela sociedade retrógrada árabe). De facto, se por exemplo o fácil Out in the Dark (programado numa anterior edição do Queer Lisboa) caía em alguma estereotipação, a nuance real e interseccional de Oriented consegue erguê-lo num campo carregado de enfadonhos e extremados debates. O filme aparece ainda num momento particularmente oportuno visto o clima antagónico que espoletou com o confronto de 2014 entre o estado de Israel e o Hamas em Gaza, que já levou a que novas e progressivas vozes, como a do palestiniano Sayed Kashua, autor de Dancing Arabs, abandonassem Israel. O interesse dos protagonistas, que o realizador descobriu num vídeo viral lidando com o género na comunidade árabe, e também o inteligente trabalho de Witzenfeld, que se formou em estudos do médio oriente antes de se dedicar ao cinema, garantem uma abordagem fresca, sem deixar de apontar o dedo ao bloqueio e ocupação israelitas a Gaza e na Cisjordânia, e também ao racismo de certas patilhas da sua sociedade, como factores que impossibilitam o progresso próspero e próprio de uma sociedade livre (particularmente tocante as reflexões optimistas dos amigos num concerto em Amã na Jordânia, um país árabe e progressivo). – L.R.

“Amor Eterno”, Marçal Forés

Começamos com um grupo de adolescentes, numa cena documental, a discutir sobre amor à primeira vista, ou a possibilidade de um amor duradouro. Um certo desencanto, mas também algum idealismo. Forés, qual enfant terrible, diz logo de seguida ao que vem, ao começar a ficção com um mergulho num bosque assombrado, desiludindo aqueles que esperariam um olhar delicodoce sobre a paixão adolescente e sublinhando logo a ironia (e crueldade) do título do filme. Entramos num bosque de uma cidade espanhola, local de engates e cruising, e desde o início se instala a perturbante sensação de voyeurismo. O filme, com pouco mais de uma hora, vai criar uma atmosfera insólita, onde as personagens adolescentes se escondem e agem de forma sinistra, onde todas as cenas (sobretudo aquelas no parque) e a música palpitante e o trabalho de fotografia – ambientes desfocados e mal iluminados – acentuam o perigo de olhar e desejar. Forés metaforiza a intensidade das primeiras paixões, cria um conto de fadas negríssimo e não censurado, sexo sórdido e canibalismo incluídos, para num provocante plano final colocar uma banda de pop veranil a cantar para o transeunte incauto que mergulhou demasiado no bosque negro. – D.S.

 

 

“Me Quedo Contigo”, Artémio Narro

Natália, espanhola, chega ao México, para encontrar o seu namorado realizador. Encontra em vez dele o seu grupo de amigos. É pintada desde o início como a estrangeira, estranha à falsa hospitalidade e à-vontade com que é recebida. Curiosamente, o realizador repetirá uma cena de recusa (de pequeno-almoço), que envolve a personagem: se a início é Natalia que recusa a simpatia do amigo do noivo, ignorando-o e à sua enxurrada de palavras, logo a seguir é ela mesma a ignorada pela amiga rica daquele. Se as imagens são leves (leves de mais, numa linguagem de televisão e videoclip), a trama é corrosivamente sarcástica: estas meninas mimadas vão dinamitar os clichés do “olhar” masculino. Mas o filme não vai poupar uma única das personagens, todas elas fúteis e mimadas. Banham-se na piscina e brincam enquanto o som sobreposto é o de uma selva. As suas conversas ridículas são por vezes inaudíveis, diminuídas pelos sons circundantes. Vão raptar um cowboy e submetê-lo a uma tortura. Isto tudo entre um “acção!” e um “corta!” gritados pelo realizador, espectador das caricaturas grotescas que criou e deixou à solta (é Artémio o nome do criado a que uma das amigas por várias vezes se refere). – D.S.

 

 

“Misfits”, de Jannik Splidsboel

Jannik Splidsboel leva-nos até Tulsa, no Oklahoma. Conhecida como a fivela do “bible belt” (uma região particularmente religiosa no sudeste e sul-centro dos EUA), a cidade de 400,000 habitantes tem 2000 igrejas e 1 centro para a juventude lgbt. Misfits, de forma simples e directa, acompanha um punhado de adolescentes, banais, que pela sua orientação sexual ou identidade de género são ostracizados por uma sociedade particularmente retrógrada. Um pastor exorta, num sermão, “a América é grande porque ama deus,” levando-nos a questionar que religiões são estas que esquecem o propósito de ajudar o homem a encontrar-se no mundo, transformando-se em manuais de ódio à diferença e presunção própria. Esta presunção alia-se a um conservadorismo social e resulta em D., 16 anos e emancipado de uma família abusadora, procurando emprego para poder um dia continuar a estudar. Por outro lado, no ambiente paroquial do centro de jovens, renasce uma nova (antiga) forma de comunidade, humana e fraternal, uma segunda família para o grupo de “indesejáveis”. – L.R.

 

“Lilting”, de Hong Khaou

Na sua primeira longa-metragem, Hong Khaou, realizador de origem cambojana radicado no Reino Unido, aborda os temas da perda e da incomunicabilidade. Lilting conta a história da relação que se estabelece entre Junn (Cheng Pei-Pei), uma mulher idosa sino-cambojana que vive um luto pela morte do filho, e Richard (Ben Whishaw), o homem que o amou e que contrata uma tradutora para partilhar com ela uma dor comum. Sozinha no país para onde se mudou para dar ao filho uma vida melhor, Junn passa os dias numa casa de repouso, tendo apenas como “companhia” as memórias de Kai (Andrew Leung). Ressentida com Richard por este ter monopolizado a atenção do filho, e sem compreender a razão da intensidade da sua dor (por julgar tratar-se apenas do colega de apartamento de Kai), Junn vai tomando consciência, apesar da barreira linguística e cultural, da comunhão de sentimentos que a une ao homem que com ela tem em comum o amor pelo seu filho. As interpretações sensíveis de Whishaw e de Cheng Pei-Pei (O Tigre e o Dragão) são o ponto forte deste drama que literaliza aquilo que, simbolicamente, por vezes se insinua como fantasma na cabeça de algumas mães com filhos homossexuais: o facto de estarem programadas culturalmente para ver nessa condição uma espécie de “morte” ou “perda” de um filho. – N.C.

 

 

“Welcome to this House”, de Barbara Hammer

Welcome To This House de Barbara Hammer é um documentário em paradoxal tensão com o seu objecto, a poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979). A partir de uma abordagem que tange o alcoviteiro impossibilita uma reflexão da tímida expressão de Bishop. Numa carta de 21 de Março de 1972, ao poeta e perpétuo correspondente Robert Lowell, Bishop (por o amar, dizia) recriminava-lhe fortemente a inclusão e distorção de cartas da sua ex-mulher no livro The Dolphin, citando Thomas Hardy: “O que deve ser certamente protestado, em casos em que não há autorização, é a mistura de facto e ficção em proporção desconhecida. Aí jazeria infinita trapaça. (…) O poder de por esse canal acreditar mentiras sobre pessoas defuntas, misturando-se algumas verdades, é um horror a contemplar.” Bishop deplorava o “confessional.” “Estou farta de poemas sobre mães e pais e a vida sexual e afins dos estudantes,” na mesma carta. Não obstante o filme prefere, à sua obra, os sórdidos testemunhos de quem a conheceu, ou especulou sobre o que de sáfico rolou com cada uma das suas amigas – “Louise was the kind of woman who was happy to get in bed and Bishop was the kind of woman who needed someone in her bed, and they were living and travelling together”. A sua expressão é sufocada no meio do burburinho. Os poemas, que conteriam mais de verdade, aqui quase sempre remendados (em excerto ou com vários versos intermédios omissos). Lowell é largamente desdenhado, e mesmo caluniado, por Kathleen Spivak inventando que o poeta desprezava a poesia de Bishop. Apesar do tom superficial, é necessário ao espectador algum conhecimento prévio sobre a autora, visto que o foco na sua teia de relações é algo arbitrário – a mentora Marianne Moore aparece apenas para se desmentir uma relação íntima, sendo então comparada com “uma tia-avó.” Fulguram a secção sobre a sua casa em Ouro Preto, uma rendição do sensual Vague Poem (recortado) e ainda testemunhos de Carmen Oliveira, autora de um livro sobre a paixão de Bishop com Lota de Macedo Soares, e dos irmãos Linda Nemer e José Alberto Nemer, seus amigos em vida. – Lourenço Rocha

 

“Limbo”, Anna Sofie Hartmann

Largamente formalista, a obra balança entre um registo documental e a ficção, uma ficção esparsa. A cidade onde se situa a acção é uma pequena cidade dinamarquesa. Hartmann alterna entre o despontar desta paixão adolescente e longas cenas documentais da vida industrial da cidade, particularmente de uma fábrica de açúcar. O contraste entre a paisagem humana e a industrial é feito de forma equilibrada pela realizadora, com um controlo impressionante para uma primeira obra. Quando encontramos as personagens num parque urbano a discutir, enquadradas no meio da vegetação, ao longe, para logo a seguir, com um corte, sermos confrontados com as suas caras num grande plano, o efeito é plenamente conseguido.

O trabalho de som, o tratamento do espaço, os enquadramentos (por vezes descentrados), o fora de campo, distraem constantemente a atenção da história que o filme está, quase sussurrando, a contar, fazendo adivinhar um mundo maior fora do representado. Várias cenas de diálogo entre os estudantes e colegas de Sofia, discussões sobre género ou a definição de arte, servem para enquadrar de forma oblíqua a personagem, mas demonstram sobretudo a capacidade de observação da realizadora, por várias vezes disponível a dar voz aqueles adolescentes num meio desenvolvido mas de pequenos horizontes, a escutar e a registar de forma minuciosa os ritmos daquela pequena cidade.- D.S.

 

“A Escondidas”, de Mikel Rueda

Numa altura em que está na ordem do dia o problema das migrações, A Escondidas, do espanhol Mikel Rueda, dá-nos dessa realidade um retrato diferente daquele que aparece nos jornais ou nas reportagens televisivas. Quando Rafa (Germán Alcarazu) se cruza com Ibrahim (Adil Koukouh) numa discoteca, num momento em que escapa à pressão do grupo de amigos para beijar uma rapariga, esse primeiro encontro é o início de uma história de amor. Uma história que é vivida sem tempo para partilhar grandes momentos, uma vez que Ibrahim, um imigrante marroquino, enfrenta uma iminente ameaça de deportação. E também porque, marginais dentro dos seus grupos, têm de agir “às escondidas”, ocultando os seus sentimentos. Primeira longa-metragem de Mikel Rueda (havia já correalizado outra), A Escondidas é uma narrativa não linear (construída como um anagrama, com avanços e recuos temporais) que conta a história de um primeiro amor que vive essencialmente de olhares fugidios, gestos subtis, pequenas conversas e desejos inconsumados. De resto, as tonalidades frias da fotografia inspiram um sentimento de solidão, que corresponde à solidão partilhada entre dois rapazes que estão à margem dos seus respetivos contextos sociais. Rueda aposta sobretudo num olhar erotizante e delicado, sem nunca tornar o amor entre Rafa e Ibrahim demasiado gráfico e indiscreto. Daí que A Escondidas seja também um filme sobre as dificuldades de expressão e de “encenação” do amor gay na adolescência. – Nuno Carvalho

 

“Praia do Futuro”, de Karim Ainouz

À semelhança do ano passado, a décima nona edição do Queer Lisboa abriu com uma obra brasileira. Mas se a nota de abertura anterior foi de candura e esperança (Hoje Não Quero Voltar Sozinho), a deste ano foi de melancolia. Praia do Futuro, estreado o ano passado na Berlinale, a quinta longa-metragem de Karim Ainouz, é um conto de “fuga”, um “desejo de aventura”. Fazem parte da narrativa elementos reconhecíveis de outras obras queer, mas a mestria formal de Ainouz, bem como os seus actores, elevam o filme a alturas que apenas a espaços outras obras alcançavam.

A elegância “literária” da sua estrutura tripartida poderia funcionar contra o filme, mas o comando narrativo impede isso de acontecer. A primeira parte desenrola-se no Brasil, na praia que dá nome ao filme, e nas paisagens circundantes. E começa tudo, como vai acabar, de forma inesperada. Dois homens percorrem as dunas de mota, mergulham no mar, e um afoga-se. Donato (Wagner Moura) salva um deles, Konrad (Clemens Schick) e com ele se envolve sexualmente, ainda decorrem as buscas do primeiro. É a primeira elipse abrupta. Não recuperamos deste choque, pelo que o resto do filme se vê em sobressalto (e mais elipses, algumas ainda maiores, se seguirão).
A fisicalidade desta primeira parte vai definir em furtivos olhares, com a interacção de Donato com o seu pequeno irmão e os seus colegas, com a presença de alguns elementos e com o que fica por dizer, estas personagens – é a âncora narrativa.

A presença do mar revolto é a impressão maior desta primeira parte, diversas cenas decorrem dentro ou à beira dele. O sentido de desorientação, o lugar fora do tempo, o constante movimento (e a mestria técnica destas cenas é de nota), ajudam a definir o tom físico do filme.

Já as praias filmadas em planos longínquos, alternadas com as cenas aquáticas, as panorâmicas nas praias e da arquitectura urbana e industrial, contribuem para a forte sensação de lugar que perpassa todo o filme, de formas diferentes em cada capítulo. A fotografia de Ali Olcay Gozkaya, brilhante também no trabalho da cor, é deslumbrante.

A segunda parte (outra enorme elipse), encontra Donato e o seu namorado alemão em Berlim. Longe da praia, longa da família, desempregado, este começa a duvidar da sua continuação na cidade. Assistimos ao consolidar desta relação que surgiu a quilómetros de distância, agora na paisagem cinzenta e urbana da cidade alemã. Em cenas parcas de diálogo mas abundantes em olhares cúmplices, muito fica por dizer, tal como em todo o filme. A entrega dos actores (óptimos ambos) à câmara, ao olhar de Ainouz, a proximidade deste com estes corpos, criam uma segunda parte emocionante e que deixa marca, por causa dessa entrega. A música também é aqui usada de forma perspicaz para definir estas personagens e a sua relação, sobretudo em duas cenas, uma em que eles cantam para o espectador e outra em que dançam, se libertam, numa discoteca, dúvidas dissipadas.

A terceira parte, o maior salto narrativo do filme (vários anos), vai confrontar Donato com as suas escolhas e a sua fuga. Torna-o o fantasma alemão ao reencontrar-se com a família que abandonou, na figura do irmão que o adorava. Terceiro grande actor de Praia do Futuro, Jesuíta Barbosa, a compor um trio de personagens, levando o filme para o território que pretendia realmente explorar: o da coragem e o das escolhas que moldam os nossos percursos. Embora não se definam em termos claros, os temas do filme ganham corpo devido à emoção subterrânea que perpassa os três capítulos. A abordagem formalista do filme poderia resultar num mero exercício de estilo, mas essa corrente de emoção, a entrega dos actores, a utilização das elipses e dos silêncios, a mestria técnica e visual do filme (são vários os planos memoráveis), fazem de Praia do Futuro um belíssimo filme sobre a constante viagem que empreendemos. E é na estrada, de mota, que estas personagens, e este filme, num plano assombrado e assombroso, nos deixam. – Diogo Seno

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