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Patti Smith: “Não se pode entrar num estúdio e dizer: vou fazer algo importante”

Texto: NUNO GALOPIM

Antes de voltar a pisar um palco lisboeta, Patti Smith fala da sua relação com a cidade, a poesia (de Fernando Pessoa ou a sua), recorda a criação de “Horses” e desvenda um pouco o que será o seu novo livro, a publicar em outubro.

Patti Smith regressa a Lisboa para apresentar hoje à noite no Coliseu dos Recreios, e na íntegra, o álbum Horses, que cumpre, em 2015, 40 anos de vida. Além de evocar as memórias deste disco, das canções à fotografia que vemos na capa (e que se fez um ícone), fala-nos da sua relação com Lisboa e da sua admiração por Fernando Pessoa, da poesia e de como foi esta que a levou à música e ainda dos livros que nos últimos tempos começou a escrever.

É sabido que tem uma relação muito particular com a cidade de Lisboa. Como surgiu?
Sempre tive uma visão romântica de Lisboa. Num livro que escrevi e que ainda não está publicado há um capítulo que se intitula Lisbon Antiqua, que era a música preferida do meu pai. Era um instrumental… É uma bela canção que o meu pai estava sempre a ouvir. E por isso senti sempre uma curiosidade sobre Lisboa… É uma das mais antigas cidades do mundo. E isso transporta uma certa carga mística que surge numa cidade que é também moderna e muito independente. Mas tem toda essa história. E sempre sonhara visitá-la. Estive poucas vezes em Lisboa, e sempre para trabalhar. Por isso ainda não fiz a minha experiência definitiva na cidade. Quando fizemos a digressão centrada no Horses não íamos fazer mais do que uns 16 concertos e estava a escolher onde os poderia fazer. Queria ir a Lisboa mas acabei a fazer o festival no Porto e julgava que não teria uma hipótese de regressar. Entretanto a digressão terminou, saímos da estrada, e regressamos agora para apenas dois concertos. E um deles é em Lisboa. Mal tive a oportunidade decidi regressar. E vou ficar mais uns dias para poder ver a arquitetura e conhecer melhor a cidade. A primeira vez que estive em Lisboa fiz umas caminhadas à noite. É uma bela cidade à noite. Fui a lugares onde pessoas mais velhas cantavam fado. E cantei umas canções. Foi uma bela experiência, ali, a meio da noite, a ouvir as suas vozes. Mesmo sem saber a língua podemos sentir a trajetória emocional da história que cantam. Foi um momento de aprendizagem. Foi como seguir uma narrativa apenas pelas emoções, sem palavras.

A sua admiração pela poesia de Fernando Pessoa – que uma noite leu em Lisboa, no Pavilhão Carlos Lopes, há já alguns anos – acrescentou uma carga a esta relação com a cidade?
Sempre li Pessoa. Descobri-o quando era muito nova e estava entusiasmada em ver a sua cidade e os lugares onde escreveu e andou. Naturalmente aumentou o meu interesse pela cidade. Na minha geração todos líamos Pessoa. Falei sobre Pessoa com o Allen Ginsberg, o William Burroughs, o Tom Verlaine. Foi importante lê-lo.

Toda esta relação com a poesia de resto é central na sua obra. Antes mesmo da música…
Sim, comecei por fazer poesia. E foi assim que comecei a apresentar-me. O Horses é na verdade algo que nasceu da poesia. Tudo começou em leituras de poesia. E comecei a adorná-las com ritmos, com guitarras elétricas, com piano… De uma forma muito orgânica evoluí da escrita de poesia para a performance com poemas, fundindo-os com rock’n’roll.

O trabalho com a música mudou a forma de escrever?
Quando escrevia poesia não a apresentava em performances. Só escrevia. E fiz alguns livros antes de fazer primeiras performances, em 1971. Era uma menina com energia, criada num clima rock’n’roll. E essa era uma música importante na definição da nossa voz cultural. Por isso tinha demasiada energia para estar apenas ali parada a ler poemas. E comecei a juntar ritmos ou acordes sob os poemas para acelerar as coisas. A música inspirava-me e fazia improvisações de poesia. Quando escrevo canções o processo é diferente daquele que sigo quando faço poemas. Escrever um poema é uma experiência muito pura e a nossa primeira responsabilidade tem a ver com o próprio poema em si mesmo, com a forma, com os deuses da poesia… Ninguém está a pensar para onde vai o poema, pelo que temos de o deixar crescer no seu próprio mundo. Quando se escreve uma canção, se há um músico a compor, há desde logo uma responsabilidade para com a música. Há responsabilidade com os músicos que a vão tocar, com as pessoas que a vão escutar. Porque não se escrevem canções que não sejam para ninguém. Escrevem-se canções para cantar e partilhar com outras pessoas. Os poemas, por seu lado, podem ser uma arte mais egocêntrica. Podemos passar anos a escrever poesia sem mostrar nada a ninguém. A poesia é delicada e brutal. As canções têm mais denominadores comuns e são uma coisa mais generosa, porque nascem para ser partilhadas. Não quero dizer que as pessoas não partilhem a sua poesia. Mas a sua motivação para escrever é menos altruística. Ao escrever as responsabilidades com a sua estética são muito elevadas. Escrever canções é algo para comunicar. Uma canção não tem de ser uma grande obra de arte para poder comunicar com as pessoas. Pode ser amada porque o cantor tocou em algo que expressa qualquer coisa que diz a toda a gente. Escrevemos uma canção e as pessoas podem dizer: ah, é isso mesmo o que sinto. A poesia é mais difícil. E menos fácil de compreender por vezes. Por isso penso em ambas como formas completamente diferentes. Podem cruzar-se, encontrar-se… Mas no seu estado puro são diferentes.

O lugar, o tempo e as pessoas à volta são importantes para quem escreve? Ou seja, Horses seria um disco diferente sem Nova Iorque e as pessoas que ali estavam na altura?
Não sei bem… Eu escrevi “Jesus died for somebody’s sins but not mine” quando tinha 20 anos. Veio de experiências de juventude e de rebelião contra a religião organizada. Não tinha nada a ver com Nova Iorque. Em Nova Iorque o que senti depois foi liberdade para me poder expressar. Mas esse foi um pensamento que veio de anos a contemplar a religião organizada. Tenho um grande respeito pela figura de Jesus Cristo. Mas aquele verso não é sobre Jesus Cristo. É sobre como somos ensinados a olhar para ele através da religião organizada. Prefiro olhar para ele como um revolucionário, com uma ideologia baseada no amor e na fraternidade. Tenho uma visão diferente de Cristo e dos seus ensinamentos. Muito de Horses veio de poesia e de leituras que tinha feito muito antes. Tem as suas raízes nova-iorquinas. E o que o fez possível foi o facto de a cidade ser muito livre e pobre em inícios dos anos 70. Era uma cidade que lutava, com muitos jovens a tentar expressar-se e a desenvolver uma voz cultural. Mas não o vejo como um disco de Nova Iorque. Vejo-o mais como um disco que surgiu numa tentativa de expandir e defender o nosso mundo cultural. E não sou nova-iorquina. Venho de uma área rural no sul de New Jersey. Não fui criada na cidade. Tudo aquilo veio dos meus estudos…

O que influenciou mais o disco?
O William Burroughs, por exemplo… Conheci-o em Nova Iorque e foi uma grande influência naquele disco. O Johnny em Land é uma personagem muito burroughsiana. O disco tem assim a ver com os livros que estava a ler, as minhas influências na época. O Break It Up foi escrito em memória do Jim Morrisson e o Elegie na do Jimi Hendrix. Escrevi o Birdland como resposta a um livro de Peter Reich [filho de Wilhelm Reich]. Tinha as minhas influências eram mais literárias do que vindas da cidade. Mas a criação de uma banda de rock’n’roll foi muito uma experiência nova-iorquina

E muito daquela época… Era uma cidade menos cara…
Sim, exatamente. Era uma cidade mais barata. A minha banda hoje não tem um sítio para ensaiar em Nova Iorque. Mas quando éramos novos havia umas águas-furtadas, sem casa de banho nem aquecimento, mas que nos dava um espaço para fazer música. Isso deixou de existir. Tínhamos a possibilidade de crescer, de nos expandirmos como banda.

Tinham empregos?
Sim, claro. Eu trabalhava numa livraria. Não havia cartões de crédito. Se tivéssemos fome tínhamos de ganhar dinheiro para poder comer. Era preciso ter um emprego. O Lenny Kaye trabalhava numa loja de discos antigos. Todos na banda tinham um emprego. O baterista trabalhava num lugar que vendia amplificadores e gira-discos. Tivemos empregos até 1976, quando partimos em digressão e tivemos de os abandonar para ser uma banda de estrada. Mas acho que é importante haver aquele sentido de que se trabalhou para ter o que se tem.

Quando se apercebeu do papel icónico que o álbum depois adquiriu?
Não pensamos nisso sequer. As pessoas podem dizê-lo e posso ficar agradecida ou surpreendida. É maravilhoso, mesmo. Mas não podemos pensar nisso assim nós mesmos. Não podemos andar aí a dizer: fizemos um disco icónico. Temos de fazer o nosso trabalho e esperar que tenha ressonância. Que seja bom. Mas não podemos prever isso. Fazemos o melhor que podemos. Tenho um grande orgulho no disco e no facto de ter vencido todo este tempo. Mas são coisas que não sabemos quando as fazemos. É o tempo que o diz depois.

A fotografia da capa tem também um peso marcante na história deste disco…
Foi a primeira vez que o Robert [Mapplethorpe] mostrou algo publicamente. Era uma imagem importante para ambos.

Foi ele quem pensou uma imagem que se adequasse à música e a si?
Foi mesmo muito mais simples… Eu precisava de uma capa para o disco e ele ia tirar a fotografia. E eu usei o que usava… Foi mesmo simples. Nem eu nem ele somos pessoas analíticas. Não projetámos fazer uma imagem que fosse andrógina ou algo assim… Ele queria fazer uma foto que tivesse magia. Foi simplesmente uma boa fotografia. Ele tirou apenas doze fotografias. E à oitava ele disse “já a tenho”. Respondi: mesmo, como sabes? Ele limitou-se a confirmar que sim, que já a tinha. Não foi uma questão de reflexão. Ele sabia contudo o tipo de luz que queria. O que estávamos a tentar projetar? Eu sabia quem eu era. E queria mostrar isso. E ele tirou a fotografia. Não havia uma grande agenda. Estávamos apenas a fazer o nosso trabalho. Tal e qual como quando fiz o álbum. Tinha uma missão. Queria fazer um álbum que fosse essa homenagem à nossa voz cultural. Que homenageasse as pessoas que a tinham ajudado a construir, algumas delas já desaparecidas. E criar espaço para a geração seguinte. Estava consciente de que queria fazer algo que fosse importante. Mas era apenas uma esperança. Não se pode entrar num estúdio e dizer: vou fazer algo importante. Tentamos apenas procurar fazer o melhor. Quando somos novos, ou pelo menos eu quando era nova, não era analítica. Era uma trabalhadora.

Foi importante para si começar a guardar essas memórias em livros?
Não esperava escrever o Just Kids. Eu e o Robert éramos da mesma idade e não esperava que ele morresse novo. Não esperava ter de escrever este livro. O Robert não queria morrer, queria continuar a viver. Queria que o seu trabalho sobrevivesse, queria ser lembrado. E um dia antes de morrer pediu-me para escrever este livro. Foi difícil… Não apenas era um processo doloroso como eu nunca tinha escrito um livro assim. Tinha a responsabilidade de o escrever porque ele mo tinha pedido para fazer. Não o teria escrito se ele não o tivesse pedido. Eu escrevo poesia. Escrevo ficção. Crio histórias. Não esperava regressar às nossas vidas de então e escrever tudo isto. Mas agora que o fiz aquele livro abriu portas para outras possibilidades e colocou-me nesses caminhos.

O novo M Train, que sai em outubro, vai ser um livro diferente?
É um livro diferente. É escrito no presente, falando da vida de hoje, mas recuando a memórias de outros períodos. Rumo aos anos 80, ao meu falecido marido. À nossa vida no Michigan. É um livro muito diferente. Mas é uma memória… Uma memória que estabelece pontes com o presente.

Havia um espaço para memórias no documentário Dream of Life: a sala com objetos. Foi outra maneira de aceder a estas mesmas memórias.
O Steven Sebring é um artista visual e essa foi a sua maneira de contar uma história. Uma maneira de contar coisas sobre mim de uma forma visual. O M Train fala da minha vida naquela casa. Na casa que vemos no filme. De certa maneira, o M Train pode ser em parte um complemento a Dream of Life.

(Entrevista reproduzida por cortesia da revista ‘Time Out”)

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