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Um manifesto sobre a música ambiente

Texto: ANDRÉ LOPES Foto: FRANCISCO GONÇALVES SILVA

Uma figura sem paralelo na música atual esteve em Lisboa para uma atuação que não deixa margem para grandes dúvidas: William Basinski trabalha para a transcendência.

Diante de uma plateia de admiradores e curiosos que conseguiram preencher boa parte do espaço da sala do Musicbox, o artista subiu a palco começando por cumprimentar os presentes e fazer uma notificação quanto à necessidade de fazer um reset às suas ferramentas, de entre as quais se observavam bobines de leitura de fita e uma vistosa mesa de mistura. Momentos depois, a viagem começava.

Em conjunto com a projeção de imagens pouco definidas de superfícies aquáticas e reflexos, o som da música de William Basinski ocupou o espaço da sala de forma imersiva: Cascade e The Deluge (The Denouement) foram apresentadas sucessivamente, com o músico a fazer uma manipulação dos níveis de distorção, reverberação e demais nuances sonoras. O resultado desse manuseamento do som, como se de um elemento verdadeiramente maleável se tratasse, reflete a mestria e aptidão evidente de William Basinski para o trabalho com loops que são de facto pensados, construídos e editados de uma maneira cuidada, com o objetivo de tornar curtos fragmentos de som em demorados minutos de ambiências concretas.

Essas atmosferas sonoras, que jamais poderão ser expressas por palavras, vêem-se aqui garantidas pela coesão dos loops de fita e pela ressonância causada pelas frequências mais extremadas. Durante Cascade, tanto os agudos como os graves mais profundos encontraram nas paredes da sala lisboeta o veículo perfeito para soarem de forma realmente encorpada. As faixas, de cuja manipulação fomos testemunhas nesta noite, conseguiram gerar uma sensação de falso conforto pela maneira como os preciosismos destes loops são processados ao vivo, quase como um exercício de estimulação cerebral tanto para o músico como para quem escuta.

Para o final, e após um sentido agradecimento à plateia, foi ainda executado dlp 1.1. – uma das faixas mais marcantes de The Desintegration Loops (2002). Foi por esta altura deixado assente que tanto a ressonância como a manipulação de ecos têm uma influência decisiva na forma como a música de William Basinski é ouvida e sentida.

Foi assim uma noite que serviu de oportunidade para estar na presença de um artista cuja obra pode ser considerada como uma experiência de quase audiófila, quer pela forma como a dita “música ambiente” é aqui trabalhada, quer pela aptidão que se requer de quem ouve – uma escuta ativa que, quando feita com empenho, garante uma experiência sem igual.

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