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A voz de uma geração venceu o tempo

Texto: NUNO GALOPIM

Em noite de celebração festiva, onde não faltaram as evocações a Fernando Pessoa, Lou Reed, Jim Morrison ou Jimi Hendrix, Patti Smith trouxe ao Coliseu as canções de “Horses” que, 40 anos depois, respiram vida e sentido.

Dei por mim a imaginar como seria se pudéssemos recuar 40 anos no tempo e saltar para o outro lado do oceano… A imaginar como terão soado a coisa do aqui e do agora aquelas canções que hoje sabemos que fazem o alinhamento de um dos mais icónicos (e influentes) discos de toda a história da cultura do século XX e que, em 1975, representava o primeiro corpo gravado a nascer no formato de álbum depois de um berço, plateia pela frente, no pequeno mas então vivo CBGB, em pleno East Village, numa altura em que aquela zona de Manhattan era barata e tudo menos chique. É certo que passaram quatro décadas. E a noite fazia-se numa das mais importantes salas da capital de um outro país. Mas a verdade de Horses emergia ali, à nossa frente, vibrante e fiel a si mesma, fazendo-nos sentir uma vez mais como fora da poesia, das palavras, que toda aquela música afinal nascera. A música que sonhava ser voz de uma geração viu o sonho cumprido. Venceu o tempo. A noite que ontem muitos vivemos no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, confirmou-o.

O concerto anunciava Horses e assim se cumpriu. De fio a pavio, instrumental e vocalmente irrepreensível, intenso porque ainda pungente e com poucas interrupções, a mais evidente evocando que foi no formato de LP em vinil que esta música se materizou há 40 anos. Terminada a sequência que representava o Lado A, Patti Smith bebeu um gole de água portuguesa, com limão biológico português e gengibre biológico português… “Virou” o disco para o outro lado. E continuou.

Depois de Horses Patti Smith sai do palco por uns instantes e deixa a banda ao som de um medley evocando os Velvet Underground, todavia uns valentes furos abaixo quer dos originais quer do resto da noite. De regresso fez mais viva a voz interventiva que mesmo assim tinha já surgido nos momentos do álbum de 1975 em que homenageava Jim Morrisson (Break It Up) e Jimi Hendrix (Elegie), aqui celebrando a memória de muitos dos que já nos deixaram, de Janis Joplin, Brian Jones ou Keith Moon a Kurt Cobain, Amy Winehouse ou Lou Reed, sem esquecer Fred Sonic Smith, que recordou ainda no inevitável Because The Night que, a par com People Have The Power completou o efeito greatest hits do final do alinhamento.

Houve ainda tempo para escutar Pissing in The River ou Beneath The Southern Cross, juntamente com exortações à busca de liberdade, à afirmação das forças históricas e culturais da cidade de Lisboa, sem esquecer o relato da visita, nessa tarde, à Casa Fernando Pessoa, onde viu os livros que o poeta tinha, imaginando que, se pudesse ter vivido, os de Allen Ginsberg ali estariam também. A sua faceta de sacerdotisa que nos canta em Gloria que Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não os seus, falou mais alto que a música na segunda parte e fez da plateia um encontro de fiéis.

Voz de uma geração, Patti Smith fechou da noite com uma intensa e elétrica revisitação de My Generation, dos Who, canção que incluiu no lado B do single Gloria, em 1975. Como nas naves do Dune de Frank Herbert, cruzámos ali o tempo e o espaço. A especiaria (“spice” no origial) chamou-se Patti.

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