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O eterno fim de verão de Lana del Rey

Texto: ANDRÉ LOPES

A artista americana que, em 2011, chamou para si as atenções tanto da crítica como do grande público, chega, com o terceiro álbum de originais, a uma fase de consolidação plena do som que deseja assumir como seu.

Um contrato como uma editora major e um qualquer espírito de virar da década totalizam parte da combinação de peças-chave que contribuíram para o interesse generalizado e para a popularidade repentina que emergiram em redor da figura de Lana Del Rey. Graças ao single Videogames (2011) e ao longa-duração Born to Die (2012), a artista conseguiu um espaço muito próprio no contexto da música popular contemporânea, a partir de técnicas de escrita próximas de um minimalismo rítmico, sendo disso exemplo Blue Jeans ou Born to Die – uma faixa pop que em pleno séc. XXI recorre a um arranjo de cordas de sumptuosidade invulgar. Após o sucesso dessas canções, houve espaço (e permissão?) para explorar: Paradise (EP de 2012 lançado como complemento a Born To Die) e Ultraviolence (2014) refletem, ao mesmo tempo que aprofundam, a preferência de Lana Del Rey por soluções típicas da dreampop, passíveis de integrar num conjunto sonoro povoado por sintetizadores e cordas que garantam ambiências dramáticas.

Honeymoon surge após o flirt com o “softgrunge” do álbum anterior – e se nele era evidente um gosto repentino pela guitarra elétrica como principal instrumento das canções, quer em termos de condução, quer no domínio das texturas, essa parece ter sido de facto uma afinidade temporária. Mas há muito que persiste: a forma como Lana del Rey e o produtor Rick Nowels escrevem as canções deste novo álbum recorre a maneirismos que já escutámos anteriormente. E o modo como a voz de Lana se coloca no centro das canções – que estabelecem diálogos ora com a orquestra (na faixa título) ora com ritmos trap bem domesticados (High by the Beach) – é um motivo sem dúvida recorrente no repertório da artista, mas felizmente, essa não é uma insistência vã.

De inspiração declaradamente californiana, este é um disco que continua a jornada de autodescoberta de Lana del Rey, que aqui mostra saber utilizar da melhor forma, os trunfos que aprendeu a dominar ao longo de uma carreira feita de canções que insistem numa movimentação contracorrente, por oposição à forma como a maioria dos singles pop que fazem sucesso atualmente se deixam consumir por camadas incessantes da eletrónica mais vincada e agressiva. Como um oásis, Honeymoon é persistentemente apaziguado, sendo a percussão trabalhada sempre de modo a não perturbar um sentido rítmico já característico e que em muito se relacionará com o próprio estado de espírito que o álbum cultiva. Salvatore conta finalmente com a bateria a garantir a robustez a uma das melhores melodias de refrães que Lana já assinou, enquanto God Knows I Tried recorda a guitarra como possibilidade provisória para a construção de canções que atraem para si mesmas o rótulo vago de “cinematográficas”, para o bem e para o mal.

Com uma duração que ultrapassa a marca dos 60 minutos, é particularmente notável a forma como as faixas de Honeymoon apresentam uma coesão evidente, e que dela tiram o melhor partido: Music to Watch Boys to e High by the Beach cativam especialmente ao estarem enquadradas numa primeira metade do alinhamento onde a melancolia surge desde cedo. Após o interlúdio que divide o álbum em duas partes, The Blackest Day e Swan Song são as canções que tornam inegável a aptidão de Lana del Rey para imaginar refrães que se tornam memoráveis pela facilidade com que são maleadas as ideias de dramatismo e emoção.

A partir de versos que retomam a imagética do sonho americano e do eterno verão da costa oeste, Honeymoon sintetiza aquilo que Hollywood nos ensinou a romantizar face ao término da estação quente: um sentimento de saudade, tão melancólico quanto entediado – uma dança em câmara lenta que encontra aqui o correspondente sonoro ideal.

Lana del Rey
“Honeymoon”
Universal Music
4 / 5

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