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35 anos depois, entre a Terra e o planeta Mongo

Texto: NUNO GALOPIM

Trinta e cinco anos depois, o filme “Flash Gordon” (com banda sonora dos Queen), é um delicioso marco camp na história do cinema de ficção científica e um episódio que ganhou peso de culto na história de um herói dos “comics”.

Max Von Sydow vestiu a pele de Ming no filme de 1980

Em 1980, quando devolveu o “velho” herói da primeira geração sci-fi nos serials, foi quase um desastre de bilheteira na época, ficando muito aquém de títulos como A Guerra das Estrelas, Encontros Imediatos de Terceiro Grau, Alien – O Oitavo Passageiro e até mesmo a primeira expressão no grande ecrã de Star Trek, que faziam da ficção científica o “sabor” do momento na passagem dos setentas para os oitentas. Com o tempo ganhou contudo um estatuto de culto, a história recordando-o hoje como uma das mais garridas entre as primeiras incursões do cinema pelo património dos comics (que hoje, mais de 30 anos depois, está mais do que nunca na ordem do dia).

Flash Gordon nasceu nos anos 30, criado por Alex Raymond um pouco na linha das tiras que entretanto tinham já feito de Buck Rogers um herói popular. Flash era um jogador de pólo, formado na universidade de Yale que, na companhia de Dale Arden e do Dr. Zarkov rumavam ao planeta Mongo, onde o seu governante, o imperador Ming, se divertia com a Terra, lançando sobre si uma tempestade de meteoritos… Coisa simples… Flash Gordon dá então por si num mundo dividido sob o jugo de um tirano impiedoso, cada comunidade puxando por si, desconhecedores das máximas do estilo “o povo unido” e afins… Num PREC despido de ideologia, mais feito de pancada, pistolas de raios, naves, homens falcão e outros seres e costumes bizarros, Flash Gordon lança as táticas, mobiliza as forças, encontra o ponto de rebuçado da unidade popular… Dá conta do recado e lá se vai o tirano por água abaixo… A personagem e os lugares por onde andou deram na verdade pano para mangas, alimentando tiras publicadas na imprensa durante décadas.

Em 1936, dois anos depois de nascido entre os lápis e tintas de Alex Raymond, Flash Gordon chegou pela primeira vez ao cinema num primeiro serial, que se prolongaria por 13 episódios e representaria uma das primeiras grandes produções bem sucedidas do cinema de ficção científica. Tanto que, pouco depois, geraria dois novos serials: Flash Gordon’s Trip To Mars (de 1938, com 15 episódios) e Flash Gordon Conquers The Universe (de 1940, em 12 episódios). O impacte destes serials motivararia, mais tarde, a criação de uma primeira série televisiva de acção real (com 39 episódios produzidos entre 1954 e 55) e uma segunda, de animação (de 32 episódios, criados entre 1979 e 1980).

É perante todo este legado e a consciência da solidez de um herói criado pela cultura popular dos anos 30 que soubera cruzar gerações que Dino de Laurentis avança com o projeto de um filme centrado na figura de Flash Gordon. O caldeirão de ingredientes era, de facto, impressionante, juntando um elenco onde encontrávamos nomes como os de Max Von Sydow (Ming), Topol (Dr. Zarkov), Timothy Dalton (o príncipe Barin) ou Ornella Mutti (princesa Aura), uma banda sonora essencialmente instrumental criada pelos Queen, um guarda roupa criado por Danilo Donati (que trabalhou com Fellini) e uma direção artística atenta à herança dos serials dos anos 30, juntando agora a exuberância da cor. A realizar estava Mike Hodges.

A história recebeu alguns novos temperos – Flash Gordon passou a ser um jogador de futebol – mas na essência retrata a ida do pequeno contingente a Mongo, o confronto com Ming e o jogo de resistência e oposição que se segue. Coisa linear, simples (a roçar por vezes o simplório), firme na exploração de um tom de fantasia e até alguma ingenuidade visual e narrativa herdada das memórias das produções dos nos 30, vincando por outro lado a novidade berrante da cor, num festim camp de exagero barroco planetário como poucas vezes a ficção científica vestiu. Nem mesmo na Barbarella de Vadim…

Mais de 30 anos depois, Flash Gordon é um guilty pleasure que virou coisa de culto (consciente do tom kitsch e camp que aqui mora). O inenarrável Ted (um dos piores filmes desta década em curso) sublinhou a carga deste sentido de culto chamando a cena o ator Sam J Jones que vestiu a pele de Flash Gordon (e a própria memória da personagem).

Nota adicional ainda para a música nesta adaptação ao grande ecrã de há 35 anos. Criada pelos Queen, a música de Flash Gordon foi a primeira das suas duas investidas maiores pelo cinema (a segunda chegando anos depois em Highlander, de Russel Mulcahy). A música é essencialmente instrumental (há apenas duas canções), grande parte das composições explorando o tom “futurista” dos novos sintetizadores, mantendo todavia o tom épico que sempre caracterizou a alma das canções do grupo. No fim, Flash Gordon é o mais atípico dos álbuns da obra dos Queen, a lógica camp que as imagens sugerem encontrando aqui perfeito complemento direto. O álbum foi recentemente reeditado com som remasterizado, juntando um segundo CD com maquetes, versões alternativas e gravações ao vivo.

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