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Uma crónica escrita de coração cheio

Texto: HELENA BENTO

Mais do que um guia turístico, “Histórias de Nova Iorque”, editado este ano pela Tinta-da-China, é uma crónica sobre a cidade dos mil rostos. Quando José Saramago a leu, considerou-a “deslumbrante”, e disse que poucas leituras lhe tinham dado tanto prazer nos últimos anos.

Jornalista do El País desde 1980, Enric González chegou a Nova Iorque em 2000 para trabalhar como correspondente do diário espanhol. Com 41 anos, González cobrira já alguns dos maiores acontecimentos do séc. XX, como a Guerra do Golfo, o genocídio do Ruanda e os ensaios nucleares no Atol de Mururoa, na Polinésia Francesa. Durante os três anos em que viveu na cidade norte-americana escreveu várias peças jornalísticas. E também um livro, Historias de Nueva York, publicado em Espanha em 2006, e editado este ano em Portugal pela Tinta-da-China.

Mais do que um guia turístico, apesar de abundarem as sugestões de sítios para comer o famoso steak (que nos EUA adquire a condição de “jóia máxima, de non plus ultra da comida”), entre eles o mítico Sparks, apresentado aqui como o restaurante preferido do Woody Allen, e o inigualável, abençoados pelos deuses, Peter Luger, em Brooklyn, Histórias de Nova Iorque é uma crónica sobre a cidade dos mil rostos escrita de coração cheio. Da cidade a que se deve ir “quando a alma goza de boa saúde” e evitar “nos dias em que a esperança escasseia”, pois é “potencialmente fatal”.

Enric González mergulha no passado de Nova Iorque com a atitude de quem “chegou tarde” e tem “ideias confusas sobre o progresso” (diz que preferia ter visto pela primeira vez os molhes do Hudson em 1960, do convés de um transatlântico, desambarcando depois numa cidade com taxistas de gravata e onde não se almoçava sem antes emborcar três martínis) mas não quer cair no cinismo. Mantendo-se fiel a esse espírito, descobre histórias e historietas, peripécias trágicas e delirantes e outros episódios que fazem parte da história de cidade. São essas imagens do passado que nos traz, ao mesmo tempo que observa e retrata o presente, com grande inteligência, rigor e uma noção apurada de ritmo, a que acresce um sentido de humor raro, muitas vezes melancólico, mas sem nunca cair na agrura, no queixume, e ainda menos no desespero.

González conta-nos que em 1929, Walter Chrysler, magnata dos automóveis, mandou construir em segredo, no interior do seu arranha-céus, um remate de aço inoxidável em forma de lança, porque não conseguia aguentar a frustração de saber que outro edifício, neste caso a sede do Banco de Manhattan, ainda em construção, iria ser mais alto do que o seu. Venceu a guerra, mas dois anos depois acabaria destronado por outro célebre magnata dos automóveis, John Raskob, fundador da General Motors, depois de este ter apresentado aos nova-iorquinos embasbacados um brutamontes ainda mais alto do que o seu.

Rudolph Giuliani, republicano, racista, reacionário e responsável pela construção de vários campos de concentração para haitianos, cuja família chegara a Nova Iorque vinda da Toscana, na Itália, em finais do séc. XX, foi o procurador e presidente da Câmara que salvou Nova Iorque por duas vezes, uma delas com uma política de tolerância que enviava para a prisão todas as pessoas que fizessem um graffiti, fumassem um charro ou urinassem no metro.

Carlo Gambino, chefe da família Gambino, uma das cinco famílias da Máfia de Nova Iorque, foi um célebre mafioso que nos seus tempos de ouro chegou a controlar a construção e o funcionamento do aeroporto John Fitzgerald Kennedy, e gabava-se de conseguir roubar um carregamento de relógios de luxo na alfândega do JFK sem que ninguém tivesse coragem de o denunciar. A sua família dominava a distribuição de roupas, recolha de lixos, o setor da construção e a atividade de extorsão de quase toda a cidade, com uma catrefada de ligações perigosas ao poder. Já Peter Gotti, irmão de “Don” Gotti, outro célebre mafioso, foi condenado em 1999 depois de ter sido acusado de cobrar dois dólares de comissão por cada vidro instalado ou trocado em qualquer janela dos prédios nos bairros sociais de Nova Iorque.

Judith Francis, 35 anos, foi uma das sobreviventes da queda das Torres Gémeas. No dia 11 de setembro de 2001, às 8h45, ao entrar no escritório onde trabalhava, na torre sul do World Trade Center, viu um avião embater contra a outra torre. Apesar de a voz no altifalante pedir para que todos se mantivessem calmos e permanecessem no local onde se encontravam, Judith saiu do escritório e arrastou consigo uma secretária que vinha a descer as escadas muito devagar porque não queria tirar os sapatos. Dizia que ia conhecer Deus naquele dia, e que tinha de estar bem vestida. Quando estavam quase a chegar à rua, depois de descerem 85 andares em 15 minutos, perceberam que um segundo avião acabara de embater contra a torre onde se encontravam.

Julio Anguita, jornalista espanhol que Enric González conhecera através de um amigo comum, foi morto por um míssil a 7 de abril de 2003, às portas de Bagdad. E Ricardo Ortega, outro correspondente espanhol, que González conheceu nos primeiros dias na cidade, tornando-se depois os dois grandes amigos, morreu durante um conflito no Haiti, para onde tinha ido por conta própria, seguindo o seu instinto, como sempre fizera. Morreu, diz González, porque se refugiou com outras pessoas numa loja e foi o primeiro a sair para ver se já não havia perigo. Morreu, porque ao contrário dos outros, “era incapaz de voltar ao hotel quando começavam os tiros”.

São estas algumas das histórias que Enric González nos conta no seu livro. Algumas trágicas, outras delirantes. Em 2013, González deixou Nova Iorque. Voltaria três anos depois, em 2016, para visitar o seu antigo bairro e beber três cervejas. Uma por Julio Anguita, outra por Ricardo Ortega, e uma terceira por Juan Carlos, outro amigo jornalista que se suicidara com um tiro na cabeça.

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