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Enfim, Kimiavi!

Texto: JOSÉ RAPOSO

Traço característico de toda a filmografia do realizador iraniano Parviz Kimiavi, “The Mongols”, de 1973, revela um acentuado pendor para a experimentação com as várias formas e “escolas” do cinema.

A (re)descoberta da obra do realizador iraniano Parviz Kimiavi, figura fundamental no contexto da modernidade cinematográfica no Irão, vem mais uma vez recordar a importância de pensar a histórias(s) do cinema numa dimensão verdadeiramente global. Kimiavi, que chega a viver nos finais dos anos 1950 em Paris, onde frequenta o antigo IDHEC (Institut des hautes études cinématographiques), foi dos primeiros realizadores iranianos a ter um percurso internacional com alguma visibilidade. Após o regresso ao seu país natal, em finais dos anos 1960, podemos encontrar uma obra que, para além deixar antever um percurso artístico recetivo a tendências europeias e influências de realizadores como Jean-Luc Godard ou Antonioni, manifesta desde logo uma atenção particular aos processos económicos que então conduziam o Irão ao “confronto” com a vida moderna: P for Pelican (1972), The Mongols (1973), The Garden of Stones (1976), OK Mister (1979), alguns dos seus filmes mais importantes, são também por isso momentos emblemáticos de uma cultura visual sensível aos movimentos da História. The Mongols, que conta com o próprio Kimiavi no papel de protagonista é talvez a sua obra-prima.

Traço característico de toda a sua filmografia, The Mongols revela um acentuado pendor para a experimentação com as várias formas e “escolas” do cinema. Esses diferentes modos de olhar para a imagem em movimento, que vão do documental ou fatual a uma mise-en-scène mais elaborada e formalmente auto-reflexiva, trazem para primeiro plano a força visionária dos seus filmes. Uma das estratégias recorrentes será a adopção de uma postura paródica e satírica, distanciando o filme de uma “experiência” formalmente austera – há em Kimiavi uma alegria imensa em fazer cinema, em oferecer imagens ao mundo.

A ação decorre num deserto aberto e luminoso – uma presença marcante no seu cinema, e que nos é mostrado numa intensidade dramática verdadeiramente transcendente. Kimiavi representa o papel de um produtor da estação nacional de televisão, que ser]a encarregue de instalar um novo posto transmissor na região remota de Zahedan. A sua mulher (Fahimeh Rastegar), às voltas com a escrita de uma tese de doutoramento centrada na invasão mongol, da então Pérsia, no século XIII, não vê com bons olhos essa temporária, mas sempre incógnita separação. Esta é a premissa do filme, ainda que não seja exatamente o desenvolvimento narrativo o principal interesse de Kimiavi. O paralelo traçado entre a invasão mongol e a invasão cultural da televisão, começa a desenhar-se quando Kimiavi, realizador e protagonista, transpõe as fronteiras entre imaginação e realidade. Surgem aí os primeiros momentos de um grande vigor cinematográfico. Kimiavi, o protagonista, antes de partir rumo a Zahedan trabalha num programa dedicado à história do cinema. As invenções técnicas que irão estar na origem do cinematografo dos Lumière, como a cronofotografia ou o praxinoscópio, tornam-se em dispositivos que definem os contornos do pensamento e das fantasias de Kimiavi, que é como quem diz, da História: a invasão mongol é encenada justamente a partir das possibilidades artísticas fundadas naquele progresso técnico, num gesto que cruza o seu espaço mental com o da sua mulher. A sequência em que os mongóis rompem o espaço fílmico, levantando consigo a poeira das dunas e do tempo com a força de uma tempestade de areia, é mesmo um dos momentos mais memoráveis de todo o cinema de Kimiavi. A chegada da televisão, nessa e noutras ocasiões, faz-se ouvir através de um intrincado trabalho de desenho de som, de texturas eletrónicas e futuristas, acabando por estabelecer a visão de uma televisão enquanto tecnologia imparável, disruptiva.

O espaço do deserto é, assim, a dimensão de sonho e fantasia, onde a própria história do cinema se revela como uma aparição. Uma das imagens mais icónicas do filme, onde os invasores se encontram frente a uma estrutura, uma espécie de portão com direito a uma campainha …JLG, é também uma das mais enigmáticas. O grupo atravessa para o outro lado, para o lado do cinema moderno, mas a história continua por escrever.
Numa entrevista de 1976 ao jornal francês Cinéma 75, Kimiavi profere uma declaração que, de forma algo inesperada e surpreendente, nos parece falar sobre os dias de hoje “Os personagens nos meus filmes são verdadeiros, mas acolhem e seguem os seus sonhos. Pretendo seguir este caminho, esperando deste modo poder abandonar o território da reportagem”.

As retrospetivas recentes não podem deixar de ser motivo de entusiasmo cinéfilo – a passagem pelo Festival Internacional de Cinema em Edimburgo, pelo Museu de Arte Moderna em Paris, e Beirut Art Center, em 2014; ou pela Tate Modern em Londres, no passado mês de Junho – em alguns dos casos com a presença do próprio Kimiavi em conversas paralelas à programação -, são sinais prometedores do reconhecimento e de um novo ciclo de descoberta de uma obra que tarda em ter edição comercial em DVD.

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