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O realizador que quis falar mais alto do que os Arcade Fire

Texto: NUNO GALOPIM

Apesar das belíssimas imagens filmadas e do trabalho de som, o filme “The Reflektor Tapes” é uma viagem sem destino na qual a voz caótica do realizador se sobrepõe à música e aos espaços onde nasceu e é tocada.

Não se apresentava como um filme concerto. Nem como um making of do álbum… Teria o universo de Reflektor, o mais recente álbum dos Arcade Fire por contexto e os espaços de criação e apresentação das canções sob a lente da câmara. Mas o problema maior de The Reflektor Tapes é que, no fim, este é mais um ensaio autoral de um realizador que propriamente um filme sobre os Arcade Fire. Eles são o objeto, de facto, e o disco e os lugares a sua matéria prima sonora e visual. Mas na hora de pensar a montagem o que falou mais alto foi a voz do realizador. Que não nos deixa na verdade ir atrás nem da história do disco, nem da digressão, nem mesmo do palco ou até das canções. Não. The Reflektor Tapes é uma trip algo aleatória pelo universo de Reflektor. E a experiência de ver o filme em sala é ainda mais frustrante porque fica claro que o realizador, mesmo assombrado por uma lógica de montagem que só ele mesmo deverá entender, filma na verdade muitíssimo bem e chamou à sua volta não apenas uma boa direção de fotografia como uma equipa de som que é tecnicamente surpreendente. No fim acaba por fazer um filme mais inconsequente do que propriamente mau. Mas que desilude.

Convém começar por dizer que vejo Reflektor como o melhor momento da obra dos Arcade Firee até aqui, sentindo-se na colaboração do James Murphy (ex-LCD Soundsystem) um fulgor que revitalizou e levou a ainda melhores caminhos a música do coletivo canadiano. Destes, e basta vê-los em palco, conhecemos o clima de festim com que vivem cada concerto. Se a isto juntarmos a genética haitiana que corre na família de Regine Chassagne – justificando assim a assimilação de ecos da sua cultura nas imagens e sons do disco e explicando a visita para uma atuação que ali fazem em tempo de Carnaval – estão reunidas rezões mais do que suficientes para entre estes condimentos fazer nascer um grande filme sobre esta etapa na vida do grupo.

Kahlil Joseph, que até aqui tivera experiência em curtas-metragens, não procurou a solução do filme-concerto (que estas atuações claramente pediam). Nem pareceu muito interessado em construir uma lógica narrativa que acompanhasse o texto no contexto. Pelo contrário, usa uma amálgama de imagens, com várias janelas de projeção, ora a cores ora a preto e branco, ora mais simples ora mais elaboradas, ora em palco ora em ensaio, na rua ou camarim, criando um percurso sem ordem aparente que, ao fim de alguns minutos, tem mais sabor a caos do que a retrato do que quer que seja. Ocasionalmente junta daquelas frases grandiosas de músicos em modo místico-gasoso que na verdade não dizem nada. Em cenas de ensaio mal nos deixa entender e ouvir o que se passa. E quando finalmente começamos a ouvir uma música, corta-a e segue para outro lugar.

Vale a pena alguém oferecer ao realizador uma cópia de um Stop Making Sense de Jonathan Demme ou de um Dream of Life, de Steven Sebring, para que note como a expressão de uma identidade autoral do realizador pode abraçar, respetivamente, um filme-concerto e um documentário sem que seja afogado o objeto que pretende retratar. Porque no fim, ao vermos The Reflektor Tapes, saboreamos no ecrã mais da trip (com boa música e boas imagens) de Kahlil Joseph que do disco e dos concertos dos Arcade Fire que certamente estariam mais na órbita de quem se sentou na sala de cinema. Nada contra filmes-trip em volta de música. Basta lembrar Oddsac, de Danny Perez… Mas a matéria prima aqui é outra. E a música e o universo estético complementar dos Arcade Fire não é bem coisa no mesmo patamar dos Animal Collective.

PS. Em complemento foi lançada uma versão DeLuxe de Reflextor com temas extra. Valem apenas o acústico Crucified Again (que ouvimos no filme) e uma versão de Flashbulb Eyes com a colaboração do veterano Linton Kwesi Johnson. De resto, e confirmando aquela regra que mostra que, na hora de escolher, o músico sabe o que deve ficar de fora do alinhamento do álbum, nada aqui acrescenta mais a Reflektor.

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