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Um “golpe” a 400 metros do chão (e sem rede)

Texto: NUNO GALOPIM

Na semana em que vai chegar aos cinemas o novo “The Walk” de Robert Zemeckis, vale a pena recordar o documentário “Homem no Arame” que recorda essa mesma aventura clandestina entre as Torres Gémeas, em 1974.

Passavam pouco das sete da manhã daquele 7 de Abril de 1974 quando aos que cruzavam passos rápidos pelas ruas da cidade um outro se juntava, em gestos mais lentos, mas sobre um arame e a 400 metros do solo. Philippe Petit, jovem equilibrista francês, tinha então 24 anos e desafiava os limites do equilíbrio, da altitude, dos ventos, numa aventura de mais de 40 minutos entre as duas Torres Gémeas, cuja construção estava ainda inacabada. Por oito vezes andou de uma para a outra torre, sem cabo de segurança, nas mãos levando uma vara de oito metros de comprimento como contrapeso e nas pernas umas valentes calças de boca de sino. Em risco, mas na moda!

Desafiante, chegou mesmo a sentar-se sobre o cabo que minutos antes estendera entre as duas torres e acenou aos que, lá em baixo, olhavam para o inesperado. Nos telhados, junto a ambos os extremos do cabo, as forças de segurança tentavam agir, mas não havia quem se aventurasse onde o chão acabava e o vazio começava. E sempre que Philippe se aproximava de quem o pudesse agarrar, logo fugia na direção oposta. E assim foi até que, por vontade sua, colocou ponto final à proeza clandestina (nunca fora autorizada) e que, sem queixa posteriormente levantada, foi aventura que ficou por ali, ganhando rapidamente o direito a continuar o seu dia a dia, cumprindo apenas a obrigação de fazer uma atuação gratuita, mas mais seguram no Central Park. Anos mais tarde ganharia mesmo um passe de acesso gratuito ao Observation Deck, instalado (e aberto ao público) no último andar de uma das duas torres.

A história começara contudo anos antes daquela manhã que desafiou as leis da gravidade. Philippe estudara afincadamente os edifícios em construção, encontrando modos de subir sem ser detetado pela segurança da obra. O cabo que usou, lançado de uma para a outra torre com a ajuda de um arco e uma flecha, já o tinha para ali levado e escondido antes. Naquela manhã, quando deram pela sua presença, já ele caminhava entre os dois edifícios.
Depois da proeza fez ainda outras performances, uma delas na Estátua da Liberdade. E nos anos seguintes assinou parcerias artísticas com, entre outros, Werner Herzog, Milos Forman, Twyla Tharp, Marcel Marceau, Annie Leibovitz, Paul Auster e Sting.

O 11 de setembro de 2001 despertou entre a imprensa mundial várias memórias dos dois edifícios destruídos nessa manhã que assombrou a alvorada deste milénio. Entre elas as daquele feito de Philippe Petit que, agora, se prepara para regressar ao grande ecrã em The Walk, de Robert Zemeckis, com Joseph Gordon Lewitt a vestir a pele do funâmbulo que fez história naquela travessia arriscada em 1974 e diretamente baseado no livro To Reach The Clouds, do próprio protagonista desse feito.

Falo em “regressar” porque, antes desta ficção, esta aventura entre as Torres Gémeas foi já abordada pelo cinema em 2008 em Homem no Arame (Man on Wire no original), documentário de James Marsh no qual o próprio Philippe Petit, então com 58 anos, ajudou a contar aquilo a que ele mesmo deu o nome de código “o golpe” e que, em alguma imprensa, foi retratado como “o crime artístico do século”. Entrevistas e recriações ajudam a recriar uma história que, esta semana, poderemos reencontrar sob o ponto de vista da recriação ficcional. Não para comparar os certos e os errados. Mas não faz mal a ninguém, mesmo perante uma ficção, conhecer a realidade que retrata.

“Homem no Arama”, de James Marsh, foi editado em DVD em Portugal pela Castello Lopes

2 Comments on Um “golpe” a 400 metros do chão (e sem rede)

  1. Vi este documentário e achei fantástico…

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  1. O desafio de caminhar entre as torres que já lá não estão – Máquina de Escrever

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