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Svetlana Alexievich: “Uma história de emoções, uma história da alma”

Texto: HELENA BENTO

A escritora bielorrussa venceu o Prémio Nobel da Literatura pela sua “obra polifónica”, descrita como um “monumento ao sofrimento e à coragem da nossa época”.

Svetlana Alexievich, escritora bielorrussa, é a vencedora do Prémio Nobel da Literatura de 2015, anunciou esta quinta-feira a Academia Sueca. Foi destacada a sua “obra polifónica”, descrita como “um monumento ao sofrimento e à coragem da nossa época”.

Nascida em 1948 na cidade de Ivano-Frankovsk, na Ucrânia, Svetlana Alexievich acompanhou de perto as dificuldades e agruras da vida soviética antes e depois da desagregação da URSS, dando-lhe eco nos seus livros. Filha de pai bielorrusso e mãe ucraniana, os três partiram para o país onde o pai nascera depois de este ter sido desmobilizado do exército. Concluído ali o curso de jornalismo, Svetlana Alexievich começou a colaborar com jornais locais.

Apesar de ter escrito contos e ensaios, Svetlana destacou-se sobretudo na área do jornalismo, como autora de reportagens. Tal como Ales Adamovich (1927-1994), escritor bielorrusso por quem revelou ter sido influenciada, Svetlana explorou um género que Adamovich designou por “romance coletivo”, “romance-oratório”, “romance épico” ou, dito de outra forma, romance que tem como fio narrativo as pessoas “enquanto falam consigo mesmas”.

Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca, referiu-se a Svetlana como uma escritora “extraordinária”. Disse que a sua obra, apesar de abordar temas e acontecimentos históricos fulcrais, como o foram o desastre nuclear de Chernobyl e a invasão soviética do Afeganistão, “não é uma história dos acontecimentos”, mas uma “história sobre pessoas de quem pouco sabemos”, “uma história de emoções e da alma”.

Em War’s Unwomanly Face (na tradução inglesa), seu primeiro livro e talvez o mais bem-sucedido em termos comerciais, com vendas na ordem dos dois milhões de exemplares, Svetlana recorre a entrevistas que fez a centenas de mulheres que participaram na Segunda Guerra Mundial. O livro é o primeiro da série Voices of Utopia, que descreve a experiência do regime soviético e pós-soviético a partir das perspetiva das pessoas, como quase nenhum outro escritor fizera até à época, deu também a entender Sara Danius.

A mesma abordagem – reescrever a história de determinados acontecimentos a partir do olhar das pessoas que os testemunharam, apresentando uma narrativa distinta das mais solenes e oficiais – terá Svetlana nas suas obras seguintes, nomeadamente em Voices from Chernobyl: The Oral History of a Nuclear Disaster (a edição portuguesa está prevista para 2016, data em que se assinalam os 30 anos do desastre nuclear), o mais conhecido dos seus livros nos Estados Unidos que reúne centenas de entrevistas a vítimas de Chernobyl, desde a mulher que a recebe com o marido entre os braços, sem nunca se aperceber de que ele já não é mais do que pele e osso (“ele já não é um ser humano, é um reator nuclear”, dizem-lhe as enfermeiras), aos soldados que estiveram no local a ajudar as vítimas.

Zinky Boyz, publicado em 1992, é outro exemplo, tendo Svetlana Alexievich ouvido muitos daqueles que participaram na invasão soviética do Afeganistão, soldados, médicos, viúvas e outras mulheres, dando-lhes finalmente um nome e uma voz.

“Não pergunto às pessoas sobre o socialismo, pergunto-lhes sobre o amor, o ciúme, a infância e a velhice”, escreve Svetlana na introdução a Vremia sekond hend (que será publicado no Reino Unido em 2016, com o título Second-hand Time). “A música, as danças, os penteados. A panóplia de detalhes, tão diferentes entre si, de uma vida que desapareceu. É esta a única forma de enquadrar a catástrofe na vida mundana e tentar contar uma história”, escreve, lendo-se mais à frente: “A história só quer saber dos factos. As emoções estão excluídas do seu campo de interesses; não é adequado admiti-las. Já eu, olho para o mundo enquanto escritora, não enquanto historiadora. As pessoas fascinam-me”.

Em Portugal, Svetlana tem publicado o livro O Fim do Homem Soviético – Um Tempo de Desencanto (Porto Editora), que lhe valeu o Prémio Médicis Ensaio, em 2013, e foi considerado o Melhor Livro do Ano pela revista Lire. A escritora bielorrusa aborda aqui o tema da identidade russa, ferida e aniquilada, vincada pelo desejo dos russos de voltar aos tempos de grandeza e fazer do país a grande potência que foi no passado, fazendo eco nas suas palavras das palavras dos outros, os que viram ou ouviram ou sentiram na pele.

“Despedimo-nos dos tempos soviéticos. Dessa nossa vida. Tentarei escutar honestamente todos os participantes do drama socialista. (…) Todos nós, gentes do socialismo, somos parecidos com as outras pessoas e diferentes delas – temos o nosso dicionário, a nossa compreensão do bem e do mal, dos heróis e dos mártires. Temos uma relação especial com a morte”, escreve a autora na introdução do livro, intitulada Notas de uma cúmplice.

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