Últimas notícias

O período refratário de Peaches

Texto: ANDRÉ LOPES

Apesar da escassez de novidades, a forma como a linguagem é apresentada e a própria performance vocal de Peaches no novo “Rub” continuam a ser desafiantes na medida certa.

São poucos os textos que examinam a obra de Peaches sem recorrer a um vocabulário num campo lexical que inclua termos como “provocação”, “irreverência” ou “controvérsia”. E se é verdade que as canções e discos da artista canadiana são muitas vezes centrados em temáticas libidinosas, deixando-se conduzir pelos impulsos mais primários do id humano, importará não esquecer que também por aqui existe som e que este não é moldado nem escolhido arbitrariamente. A estreia com The Teaches of Peaches (2000) serve como um guia de instruções para o electroclash, ao ser um disco que condensa os principais elementos do subgénero que surgira no final dos anos 90 e que, goste-se ou não, terá de ser considerado como uma das vertentes da música pop eletrónica que mais facilmente integra noções feministas e que às mesmas confere uma aplicação prática, mais do que visível, audível. Face à popularidade das canções pop que por esses tempos faziam uso exaustivo da guitarra elétrica, o electroclash fundiu noções que tanto o techhouse com heranças electro já ensaiadas na década de 80, indo portanto contra à narrativa da guitarra enquanto “instrumento a sério”. Ao mesmo tempo nomes como Le Tigre ou Chicks on Speed tornaram-se projetos que, tal como Peaches, exemplificaram as modalidades segundo as quais a música eletrónica poderia seguir por uma rota punk de do it yourself, levada a cabo por mulheres orgulhosas da desconstrução da identidade de género patente nas suas letras.

No caso de Peaches, o diálogo que as suas canções tentam manter com o público tende a abordar a sexualidade humana de acordo com uma perspetiva feminina plenamente empoderada, e que é a certa altura colocada numa situação de paralelismo com o contexto político americano que se fez sentir durante a década passada. Impeach My Bush (2006) soube abrir horizontes temáticos em prol de uma ótica mais alargada e inclusiva, que desaguou numa introvertida exploração de fragilidades em I Feel Cream (2009). Rub surge agora dando continuidade a uma discografia outrora aventurosa, mas que entretanto alcançou uma patamar de estabilidade que pouco se coaduna com a visceralidade dos ímpetos criativos que sempre dominaram a musicalidade de Peaches.

Close Up, Rub e Dick in the Air abrem o disco com um dinamismo sonoro que encontra paralelo na forma como as baixas frequências e restantes componentes graves foram trabalhadas já em Take You On do álbum anterior. Pickles é um dos pontos de maior realce do alinhamento de Rub, que conta com uma marcha eletropop que tem como maior vantagem o modo vincado com que o andamento se faz ouvir. Já Free Drink Ticket é um exercício pontual de um recurso estilístico frequente na música dos The Knife ou Planningtorock: a alteração de voz de Peaches que a coloca num registo bem mais grave que o seu timbre natural, atribui-lhe automaticamente uma posição de narrador sem género definido, algo que serve o propósito da sexualidade subvertida, tão patente nos ideais da autora destas canções.

Contudo, não surgirão grandes dúvidas em relação ao facto de Rub ser o álbum do repertório de Peaches em que a vontade de inovar e encontrar novas dinâmicas se faz sentir de forma mais reduzida. Por outro lado, a coesão e coerência que se escutam do início ao final do disco talvez sejam pistas para uma conclusão segundo a qual talvez Peaches se sinta finalmente – e de facto – confortável com a personagem que desde o início construiu para si própria e que agora, mais do que uma máscara, serve de elemento de expressão que se assume como elemento biográfico.

Apesar da escassez de novidades, a forma como a linguagem é apresentada e a própria performance vocal de Peaches continuam a ser desafiantes na medida certa. Se foram excessivos os anos em que nos cruzámos os mais variados discos de hip hop onde o trabalho em termos de linguajar será tudo menos subtil, eventualmente o choque que muito expressam perante a escrita de Peaches, que aborda a sexualidade de um modo refrescante ao situar-se fora de enquadramentos misóginos, será um facto que dirá mais sobre o público que a artista enfrenta, do que sobre a sua integridade artística.

Peaches
“Rub”
I u she music/kartel
3/5

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: