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O cabelo de Djaimilia conta histórias de viagens entre Lisboa e Luanda

Texto: MARIA JOÃO CAETANO

O livro de estreia de Djaimilia Pereira de Almeida, ‘Esse Cabelo’, oscila entre as memórias, a ficção e o ensaio para contar a história de uma menina que tenta domar a carapinha ao mesmo tempo que anda em busca da sua identidade.

“A minha mãe cortou-me o cabelo pela primeira vez aos seis meses. O cabelo, que segundo vários testemunhos e escassas fotografias era liso, renasceu crespo e seco. Não sei se isto resume a minha vida.” Mas é um bom princípio, há que reconhecê-lo. Para uma vida e para um livro. Romance inspirado em memórias. Livro de memórias mascarado de romance. Fica difícil dizer onde acaba a história de Djaimilia Pereira de Almeida, a autora, e começa a história de Mila, a protagonista do livro Esse Cabelo. Mas será isso realmente importante?

Djaimilia nasceu em Luanda, em 1982, numa família de portugueses e angolanos, com raças misturadas. “A família a quem devo este cabelo descreveu o caminho entre Portugal e Angola em navios e aviões, ao longo de quatro gerações, com um à-vontade de passageiro frequente”, conta ela no livro.

Aos três anos mudou-se para Portugal – chegou “particularmente despenteada” e “agarrada a um pacote de bolachas Maria” – para morar com os avós numa família branca onde ela era a única de cabelo encaracolado. Uma carapinha que ninguém sabia domar. A história desse cabelo – das várias idas a cabeleireiras em bairros distantes, das horas passadas a fazer trancinhas, dos produtos químicos aplicados, dos lenços usados para cobrir os caracóis, das tentativas de alisamento, daquela vez em que decidiu cortar o cabelo tão curtinho que mal se via só para se esquecer que ele ali estava – é também a história de Mila à procura de uma identidade.

E esta é a história que Djaimilia conta num estilo que oscila entre o livro de memórias e o ensaio. Melhor, sempre, nos momentos em que nos delicia com pormenores, seja dos sabores das viagens a Luanda ou do cheiros dos salões de cabeleireiro em Lisboa, das histórias do avô Castro Pinto ou da avó Lúcia, seja dos passeios no centro comercial do bairro, as fantasias de carnaval, as conversas com as vizinhas mais velhas, a novela Tieta na televisão, as aventuras da juventude, entre as raves no jardim Constantino e as tardes na praia de Carcavelos.

Enquanto Mila procura perceber quem é aquela menina mulata de cabelo crespo que cresceu entre Oeiras e Queluz e pouco conhece, afinal de contas, de Angola, para além das histórias da família, Djaimilia introduz no livro momentos de reflexão sobre o que é isto de ser portuguesa em Portugal mas de ainda assim sentir-se estrangeira, por causa do cabelo mas não só. O capítulo dedicado à fotografia de Elizabeth Eckford, tirada à entrada do Liceu Central de Little Rock, no Arkansas, EUA, em 1957, é sobre isso mesmo. Sobre a discriminação latente que Mila sente nas ruas. Sobre os olhares cúmplices que troca com outros cabelos crespos com que se cruza no café, como quem diz, eu sei o trabalho que tu tiveste hoje de manhã para pentear esses caracóis. Sobre esta condição de ser preto, assim mesmo com itálico, num sítio onde a maioria é branca.

A história deste cabelo é, também, a história da aceitação do cabelo. De Mila aceitar-se a si mesma, como é. De um dia, conseguir sair de casa com os caracóis em desalinho, e sem se importar com o que os outros vão dizer.
Quanto a Djaimilia, 33 anos, doutorada em Teoria da Literatura, a trabalhar na Fundação para a Ciência e Tecnologia, esperemos que depois deste primeiro livro tenha mais histórias para contar.

‘Esse Cabelo’
Djaimilia Pereira de Almeida
Editorial Teorema
160 páginas
14,90 euros

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1 Comment on O cabelo de Djaimilia conta histórias de viagens entre Lisboa e Luanda

  1. Nao e facil comentar tal e a alegria e felicidade que sinto por saber que a Djaimilia cresceu.

    Agradeco a Deus todos os Dias por me ter brindado com um presente muito especial que e a minha Djay como eu a trato.

    A vida ainda que cheia de momentos memos felizes sempre nos reserva surpresas muito agradaveis.

    Well done minha Djay.

    Deus e e sempre sera Fiel! I am very proud of you. Keep going.

    With love, your Helau!❤️

    Gostar

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