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As 10 melhores séries clássicas de ficção científica

Seleção e texto: NUNO GALOPIM

Concluimos a publicação de uma lista das dez melhores séries de ficção científicas criadas antes da viragem do milénio. E hoje recuamos a 1975 com a série original de “Espaço 1999”.

Diferentes das produções mais recentes, muitas delas dominadas por efeitos gerados digitalmente e pensadas sob outras lógicas narrativas, a ficção científica pensada para o pequeno ecrã antes da viragem do milénio viveu relacionamentos mais próximos com as visões de escritores do género e herdou entusiasmos lançados por fenómenos nas salas de cinema. Muitas vezes as audiências não eram impressionantes, em muitos casos os fenómenos de culto tendo emergido mais tarde, até mesmo quando os episódios começaram a surgir em horários votados a repetições. Não se conta todavia a história da ficção científica no século XX sem a contribuição que algumas séries deram ao género. E são dez dessas séries que vamos aqui evocar. Todas elas produzidas e estreadas antes das datas míticas lançadas quer pelo 2001 de Kubrick ou aquele 13 de setembro de 1999 no qual, como mostrava a série criada por Gerry Anderson, a Lua era projetada para fora da órbita da Terra. Entremos, assim, nos domínios clássicos da ficção científica televisiva.

“Espaço 1999” (1975)
Criada por Gerry Anderson

Depois de ter criado uma sucessão de séries de aventuras – usando bonecos e modelos – ao longo de toda a década de 60, Gerry Anderson dava novos passos na ficção científica de imagem real em UFO, que a ITV apresentou entre 1970 e 71. Seria contudo o passo seguinte que, apesar dos momentos já assinados em Thunderbirds ou Captain Scarlet, inscreveria o seu nome entre os maiores da história sci-fi contada no pequeno ecrã. Num projeto que envolveu várias frentes de financiamento – no Reino Unido e Itália – e tendo desde cedo a vontade de atuar no mercado dos EUA (daí a presença dos atores norte-americanos Martin Landau e Barbara Bain como protagonistas), apresentou em Espaço 1999 (Space 1999 no original) uma das mais interessantes entre as muitas criações que o universo da ficção-científica nos deu antes do ano histórico em que os feitos de Star Wars e Encontros Imediatos de Terceiro Grau transportavam definitivamente estes domínios a plateias bem mais vastas.

A ação centra-se numa base lunar que tem por um lado uma missão científica de investigação e, por outro, a gestão dos lixos nucleares que são enviados da Terra e depositados em zonas da face escura da Lua. É de um problema com o armazenamento destes depósitos que eclode uma reação em cadeia que catapulta a Lua para fora da órbita terrestre e, a bordo, a base Alpha… Estava assim encontrado um modelo alternativo de veículo que conduzisse o homem rumo a outros lugares, ora encontrando povo diferentes ora reflexos e ecos da própria humanidade, revelando a primeira época frequentes momentos de reflexão e diálogo mais próximos de modelos da literatura sci-fi do que de enredos de ação. Gerry Anderson usou da melhor forma a sua veterania no domínio do trabalho com modelos para criar uma base e naves de design e desempenho cativante. O design e o guarda roupa ajudaram a criar uma imagem (de marca). E um naipe de personagens com espaço para se afirmarem entre as narrativas apresentadas ajudou a criar um corpo sólido que sustentaram duas épocas de produção que, entre nós, causou um fenómeno de popularidade ímpar entre um género até ali sem representação nos pequenos ecrãs nacionais e que, depois desta experiência, teve continuidade numa série de outras exibições, entre elas as de séries como Star Trek, A Nave Orion, Blake’s 7, As Aventuras de Buck Rogers no Século XV ou Galactica, entre algumas outras mais.

As duas épocas são consideravelmente distintas entre si, na segunda notando-se um apertar do cinto no departamento de art direction – há novos cenários, entre eles uma missão de comando mais de dieta –, novas opções no guarda-roupa, uma nova banda sonora sem o travo space disco da original, episódios com mais vitaminas de ação e relações entre personagens mais estereotipadas e, como valor maior, o aparecimento de Maya, uma alienígena com capacidades mutantes que se junta ao núcleo central de personagens. Mas tal como a primeira série havia desencorajado os executivos, também a segunda acabou com um ponto final, este contudo definitivo. O culto ficou e as repetições alicerçaram um relacionamento continuado com os episódios (entre nós foi nestas repetições que, além da caderneta de cromos, aquelas imagens ganharam cor). Está neste em curso um projeto para a produção de um spin off, sobre o qual não tem contudo surgido muita informação.

 

“Star Trek” (1966)
Criada por Gene Roddenberry

Quem imaginaria que, mais de 50 anos depois de uma reunião de apresentação de um projeto para uma série de ficção científica à produtora que tinha a estrela de sit coms Lucille Ball como uma das fundadoras, esse universo de histórias passadas no futuro, para algures no século XXIII, se teria transformado no caso de maior sucesso (e mais vasta descendência) alguma vez gerado por uma produção nesta área? Com alguma experiência de escrita televisiva, Gene Roddenberry tinha já criado argumentos para episódios com o velho Oeste como cenário. É contudo sob a influência de alguns autores de literatura sci-fi e uma clara admiração pelos feitos visuais de O Planeta Proibído, que apresenta em 1964 à Desilu Productions uma ideia para uma série que colocaria uma grande nave em missões na galáxia. O parto de Star Trek – que entre nós estrearia em finais dos anos 70 como O Caminho das Estrelas – não foi fácil. O episódio piloto foi criticado por ser muito cerebral. A figura do alienígena Spock assustou os executivos. E por pouco as fragilidades financeiras da produtora não deram o dito por não dito. Mas a 8 de setembro de 1966 a Enterprise voava rumo a um lugar onde o homem nunca antes tinha ido.

Gene Roddenberry imaginou um futuro com uma ordem política diferente, definindo uma “federação” que transcende o espaço físico e cultural da Terra, para incluir outros povos, nomeadamente os vulcanianos (que se manifestam sobretudo através da figura do oficial de ciência Spock, interpretado por Leonard Nimoy). Além de definir toda uma tecnologia e mitologia (com expressões como velocidade warp e phasers), uma narrativa histórica que colmata o período entre o nosso tempo e o presente da ação e todo um conjunto de mundos e povos a visitar que assim alimentam as necessidades de plot a cada episódio, a série procurou desenhar um corpo de personagens – Kirk, Spock, Uhura, Sulu, Scotty, McCoy, Checkov – sobre as quais foi possível explorar outros temas e características.

Por incrível que pareça, a série original Star Trek não gerou um fenómeno de popularidade na altura. Pelo contrário, as audiências começaram a resvalar e houve inclusivamente uma ordem para fechar a loja após três épocas de produção. As repetições em horários menos nobres cativaram contudo novas atenções, gerando primeiro uma série animada entre 1973 e 74 e, no final da década, o projeto de uma nova série de ação real que acabaria, todavia, por gerar a chegada deste universo ao cinema, gerando uma série de seis filmes com este mesmo elenco.

 

“Os Ficheiros Secretos” (1993)
Criada por Chris Carter

Em inícios dos anos 90, ou seja, antes do surto de ideias que geraram o aparecimento de uma multidão de novas séries de ficção científica a caminho da viragem do milénio, assumindo então o pequeno ecrã uma dianteira, no volume de produção, face aos espaços do cinema, houve um caso que se destacou num tempo em que, além do universo Star Trek, poucos fenómenos pareciam dar novo alento a este espaço. The X-Files revelava contudo, e apesar da contemporaneidade da produção, uma série de heranças clássicas da ficção televisiva, aliando as dinâmicas do thriller e das histórias policiais a um universo sci-fi onde o paranormal, o desconhecido e o alienígena podiam estar ao virar da esquina. E “The truth is out there”, a frase que se lia no genérico, prometia jogar com as crenças de cada um.

Criada por Chris Carter, e com uma banda sonora (que fez furor em disco) com o tema do genérico assinado por Mark Snow, a série assentou a sua identidade no jogo de afinidades e diferenças do par protagonista. Ele, Mulder (David Duchovny), um crente na existência deste tipo de fenómenos e certo mesmo da visita de extra-terrestres a este nosso mundo. Ela, Scully (Gillian Anderson), uma cética de todos estes domínios que a ciência nem sempre explica (e que por isso não podem ser mais do que hipótese). A proximidade entre estes dois agentes do FBI, o respeito mútuo e o encarar de ameaças comuns alicerçaram a solidez da dupla que, desde logo, deixava clara uma expressão contrária das tradicionais expressões de género.

Entre ecos de séries históricas como Twilight Zone, Alfred Hitchcock Apresenta, The Outer Limits ou Tales From The Darkside, a série que entre nós passou como Os Ficheiros Secretos gerou um tamanho caso de popularidade que justificou a sua produção durante nove épocas. O impacte da série motivou a sua extensão ao cinema, tendo o primeiro filme The X-Files (1998), de Rob Bowman, estreado ainda com a série em produção. Realizado por Chris Carter, um segundo filme, The X-Files: I Want To Believe, surgira dez anos depois. Nenhum deles igualou contudo o fenómeno gerado no pequeno ecrã. Uma nova minissérie baseada neste universo tem estreia marcada para janeiro de 2016.

 

“Twilight Zone” (1959)
Criada por Rod Sterling

Os serials dos anos 30 e 40 (e entre eles estavam os que ajudaram a mitificar a figura de Flash Gordon) e a multidão de filmes de orçamento baixo (ou muito baixo) que estavam a transportar para os ecrãs do cinema o entusiasmo por histórias de ficção científica que a idade de ouro das pulp magazines dera a ler a jovens leitores desde há alguns anos, acabaram por ter expressão televisiva nos anos 50. Há primeiras experiências marcantes na área do fantástico em séries como Out There (na qual colaborara Robert A. Heinlein) ou Science Fiction Theatre. Mas caberia a uma ideia de Rod Sterling, um nome já rodado na escrita e produção para televisão, a criação de uma série que cruzou públicos e gerou um fenómeno mais alargado e múltiplas descendências, sendo hoje reconhecida como uma peça fulcral na história da ficção científica.

Com o título Twilight Zone, esta série feita de pequenos filmes com arcos narrativos que se esgotavam em episódios de 30 minutos (salvo raras exceções) chegou pela primeira vez aos pequenos ecrãs em outubro de 1959 e desde logo conquistou não apenas audiências como aclamação crítica. Rod Sterling soubera montar não apenas uma sólida equipa para lançar a série (chamando Bernard Herrmann, por exemplo, para a composição logo na primeira época) e cedo entendeu que ter um leque de bons argumentistas era fulcral para o seu sucesso. E entre eles surgiu, por exemplo, o nome de Ray Bradbury. Twilight Zone foi também uma importante escola (e montra) para atores nesta área, tendo pelos elencos passado, entre outros, os nomes de William Shatner, Leonard Nimoy ou George Takei, que alguns anos depois fariam parte da tripulação da Enterprise em Star Trek.

Twilight Zone esteve em produção numa primeira etapa durante cinco anos, tendo a quarta época ensaiado um alargamento da duração de cada episódio a 51 minutos (seria retomada a lógica original no ano seguinte). O impacte da série e as suas múltiplas descendências motivaram várias novas vidas para este mesmo universo, de novas séries produzidas em duas novas etapas (uma entre 1985 e 1989, outra de 2002 a 2003), pelo caminho tendo surgido uma adaptação ao cinema que procurou recuperar o espírito original juntando vários eposódios num filme só, chamando o trabalho de realizadores como Steven Spielberg, Joe Dante, John Landis e George Miller.

 

“Raumpatrouille Orion” (1966)
Criada por W.G. Larsen e Rolf Honold

Com um clássico maior como Metropolis, de Fritz Lang (que anos depois juntaria à sua filmografia o também marcante Frau In Mond) como poderia a Alemanha ficar de fora da história da ficção científica televisiva? Naturalmente não ficou. E na segunda metade dos anos 60, ao mesmo tempo que, na Califórnia, o produtor Gene Roddenberry imaginava o universo de ficção de Star Trek, num estúdio alemão eram criados os sete episódios de uma série que não só teve impacte na época como gerou depois um importante fenómeno de culto. Com o título original Raumpatrouille Orion, internacionalmente apresentada como Space Patrol e exibida entre nós como A Nave Orion, é na verdade um dos mais interessantes exemplos de um pensar das imagens em favor de narrativas de ficção-científica, procurando criar um mundo do futuro no qual a humanidade, que não está já politicamente dividida por países, conquistou novos lugares para viver e usa parte dos tempos livres para se dedicar à dança (de coreografias bem invulgares).

A série (de apenas sete episódios) projeta-nos rumo a um futuro no qual a superfície da Terra deixou de ser o único habitat para o homem, que agora tem colónias noutros mundos e tem bases estacionadas no fundo dos oceanos. É de resto numa dessas bases subaquáticas que está estacionada a sede de um organismo que zela pela segurança interplanetária e que tem na nave Orion a mais rápida e eficaz patrulha ao serviço da defesa de toda a humanidade contra a ameaça de um povo alienígena (os Frogs). Mais do que as narrativas são os trabalhos de cenografia de design futurista (pensado com mais ideias do que orçamento), de construção de figurinos (aqueles cortes de cabelo!) e de direção de fotografia (com um belo preto e branco) que justificam em primeiro lugar um reencontro com esta série que está hoje disponível em DVD.

É impossível não referir depois a música. Cruzando visões de futuro (a contagem decrescente quase antecipa o som da voz robótica dos Kraftwerk que estava ainda longe de nascer) com uma ideia de música de dança ecuménica, por cruzar tantas referencias culturais, fez da banda sonora registada pela Peter Thomas Sound Orchester outro dos espaços de culto aqui nascidos. Naturalmente há em todos os episódios um momento de coreografia no grande lounge subaquático (com peixinhos à volta), para o qual a composição tinha de pensar peças diferentes das que acompanhariam as restantes cenas de aventura e ação no espaço. Talvez este culto não seja tão nítido fora da Alemanha como o é por aqueles lados. Mas a verdade é que chegou a gerar a edição de quase 150 livros inspirados neste universo. E isso já é qualquer coisa, não?

 

“Thunderbirds” (1965)
Criada por Sylvia e Gary Anderson

Ao longo da década de 60, primeiro ainda a preto e branco, lá para o fim já a cores, o (então) casal de produtores Sylvia e Gary Anderson levaram ao pequeno ecrã uma sucessão de séries de aventuras – algumas em terreno sci-fi – usando bonecos como personagens, desenvolvendo um método de animação a que chamaram supermarionation (e que tinha algumas afinidades para com as técnicas do norte-americano Ray Harryhausen, se bem que seguindo caminhos de design claramente distintos). A técnica deu primeiros sinais em Four Feather Falls (1960), alcançou um patamar de desenvoltura visual em Fireball XL5 (1962) e desenvolveu belas narrativas, simples e ligeiras, mas bem condimentadas, entre Stingray (1964) e Captain Scarlet and The Mysterons (1967), alcançando o seu momento maior naquela que ficaria como a mais marcante produção do género, os Thunderbirds, que viveram por duas épocas (e um total de 32 episódios) entre 1965 e 66.

Talvez sob o efeito de algumas soluções lançadas pela recente chegada das histórias de James Bond ao cinema, nomeadamente a criação de engenhocas futuristas (e eficazes) e a criação de refúgios distantes em ilhas – os Thunderbirds transportavam-nos no tempo para meados do século XXI, acompanhando as missões de uma equipa de socorro internacional chefiada por um filantropo e levadas a cabo pelos seus cinco filhos (com nomes inspirados pelos astronautas do projeto Mercury da Nasa). A equipa, juntamente com o engenheiro Brains, um criado malaio e a sua filha, habitavam uma remota ilha paradisíaca algures no Pacífico, na qual guardavam os seus veículos de transporte, os verdadeiros heróis de ação da série.

A banda sonora de Barry Gray – que foi editada em disco – e a sequência do genérico, com a voz em off a fazer a sua contagem decrescente, tiveram o seu impacte na cultura popular (os Beastie Boys, por exemplo, usariam samples desta voz em espetáculos). A falta de resultados nos EUA terá sido um dos motivos para o cancelamento da série após duas épocas, apresentando o casal Anderson uma nova proposta em Captain Scarlet. Os Thunderbirds tinham já entretanto chegado ao cinema, num primeiro filme estreado em 1966. Haveria mais, inclusivamente uma (fraca) aventura em imagem real realizada em 2004 por Jonathan Frakes. Gerry Anderson manteve-se ligado às técnicas de supermarionation até finais de 60 (retomando-as pontualmente mais tarde como, por exemplo, quando fez o teledisco de Calling Elvis para os Dire Straits). Nos anos 70 a sua atenção centrou-se na produção de televisiva de imagem real, entre elas UFO e Espaço 1999 ou o telefime O Dia Depois do Amanhã.

 

“Star Trek: The Next Generation” (1987)
Criada por Gene Roddenberry

As audiências eram de facto baixas e o impacte dos episódios relativamente discreto quando, em 1969, e ao cabo de três épocas de produção, a vida original da Enterprise e sua tripulação por regiões da galáxia onde o homem nunca antes tinha ido, recebeu ordem para encostar à garagem (space dock seria aqui o mais adequado…). Esse não seria contudo um ponto final definitivo. Nos anos 70 surgiria (por pouco tempo) uma série animada Star Trek usando as vozes dos atores originais, ao mesmo tempo que, repetidos em novos horários, os episódios começavam a gerar um fenómeno de culto ao ponto de, a dada altura, ser ponderada a criação de uma nova série. Foi desenvolvida como Star Trek: Phase II, teria os mesmos atores mais algumas figuras novas… Mas é aí que a coisa dá o salto para o cinema e, em vez do pequeno, Star Trek surge no grande ecrã. É assim, em 1979, com o veterano Robert Wise na realização. E resulta. E resulta tão bem que logo surge uma sequela, depois outra e mais outra. A ideia de regressar à televisão, mesmo sem abdicar do cinema, volta a ganhar forma. Por várias razões (há quem invoque os salários milionários que os atores da série original poderiam pedir), a opção aponta para a criação de uma nova realidade partilhando o mesmo universo e sua mitologia. Novas personagens e atores entram em cena. E abrem-se assim as portas para uma… nova geração.

Gene Roddenberry, o criador da série original, acedeu em regressar. E assim ajudou a criar uma nova ideia, projetada aproximadamente um século depois da ação dos episódios e filmes com a “geração clássica”. Com o título Star Trek: The Next Generation, a nova série tem estreia em finais de setembro de 1987, revelando desde logo um tratamento visual mais moderno e sofisticado e, como cenário central, uma Enterprise de outra “geração”, de linhas com novo design, mas familiaridade para com a nave original. O ator Patrick Stewart foi chamado para vestir a pele do novo comandante (Jean-Luc Picard), uma figura de personalidade bem diferente da de Kirk, mais intelectual, mais diplomata. E com ele surge uma tripulação de características mais inclusivas, juntando mesmo um klingon (outrora inimigos maiores da Federação). Os contactos com a tripulação da série original fazem-se em episódios e no filme de transição Star Trek: Generations através de cameos ou pequenos papéis dos atores da série dos anos 60, que assim retomam aqui, por instantes, as personagens de McCoy, Scotty, Spock e Kirk.

Em produção durante sete épocas (de 1987 a 1994), gerando depois quatro incursões pelo grande ecrã, Star Trek: The Next Generation alargou o universo criado por Roddenberry não apenas a novas realidades no tempo mas a novos temas, pontos de vista a soluções narrativas, ensaiando alguns episódios modelos de cliff hanger ou mesmo de telefilme. A criação na nave de um holodeck (um espaço para realidade vitual) alargou igualmente as histórias a outros caminhos a explorar. As audiências responderam, os prémios chegaram e o franchise Star Trek viveu um tempo de crescimento e multiplicação, gerando depois novos spin offs televisivos em Star Trek: Deep Space Nine, Star Trek: Voyager e Star Trek: Enterprise. A isto podemos juntar livros (de romances a manuais técnicos), comics, merchandising, jogos… Um universo inteiro, portanto.

 

“The Invaders” (1967)
Criada por Larry Cohen

O vasto filão de filmes de ficção de científica de muita tensão e pouco orçamento que surgiram nos EUA sobretudo durante a década de 50 teve uma das suas mais diretas consequências no espaço da ficção televisiva na série que, entre 1967 e 68 Larry Cohen concebeu para exibição na ABC. Na verdade havia uma missão quase impossível a levar a bom porto: criar uma nova série capaz de assegurar a sucessão do bom momento gerado por O Fugitivo, cuja produção estava a caminho de um ponto final. Em tempo de entusiasmo geral pelo programa espacial – com a missão Apollo, da NASA, já com a ida à Lua na linha do horizonte – Larry Cohen, que tinha já assinado argumentos para várias séries, entre elas O Fugitivo, apresenta uma história de invasores alienígenas perante um mundo incapaz de se aperceber da ameaça latente.

A série tinha como protagonista a figura de um arquiteto (interpretado pelo ator Roy Thinnes) que toma consciência da invasão em curso. Veste então como missão uma luta pela salvação da humanidade, caminhando de terra em terra, tentando alertar as populações do perigo que correm, aqui e ali conseguindo despertar a atenção de figuras que, pontualmente, reconhecem que o seu alarme é real. De aparência humana – na verdade trata-se de um disfarce – os alienígenas usam discos voadores claramente desenhados na linha “canónica” mais habitual em relatos de avistamento de ovnis. E nunca chegamos a saber, afinal, de onde chegam. Apenas que habitavam um mundo moribundo numa outra galáxia e, agora, procuram nova casa na Terra, herdando aqui uma das linhas narrativas em muita da ficção-científica criada com Marte como ponto de partida para outras invasões desde os tempos de A Guerra dos Mundos de H.G. Wells.

Com uma linguagem visual muito característica da época, The Invaders é uma série de ficção científica que partilha códigos de construção narrativa com o thriller e, ocasionalmente, situações e mesmo imagens que antecipam um interesse pelos domínios do terror nos quais caminharia depois parte da carreira posterior de Larry Cohen. Com uma obra que passa por mais outras criações televisivas, o criador de The Invaders desenvolveu depois uma carreira no cinema tendo trabalhado como argumentista e também realizador. A série, que podemos entender entre as referências que mais tarde nos conduziriam a The X-Files, e mais evidentemente ainda V-Batalha Final, teve descendência direta numa série de novelizações em livro, comics e uma minissérie (já nos anos 90). Um possível filme foi já por diversas vezes mencionado, mas um projeto de produção em redor deste universo ainda não se materializou nesse sentido.

 

“Dr. Who” (1963)
Criada por Sidney Newman, C.E. Webber e D. Wilson

A ficção científica britânica criada para a televisão entre as décadas de 60 e 80 procurava muitas vezes caminhos distintos das narrativas de ação mais direta das produções made in USA, procurando valorizar a caracterização de personagens e escrita de diálogos, talvez como forma de ultrapassar contingências orçamentais menos aventureiras. Inscreveram-se assim nessa história títulos clássicos como Tomorrow’s People (produzida entre 1973 e 1979 e exibida entre nós como Gente do Amanhã) ou Blake’s 7 (1978-1981). Há contudo uma experiência maior que as precede e não só definiu caminhos como gerou um fenómeno (sobretudo doméstico) que faz com que, ainda hoje, e apesar de alguns hiatos, solavancos e, naturalmente (e tal como sucedeu com James Bond) mudanças de elenco, ainda esteja em atividade. Trata-se de Dr. Who e é uma história que soma já mais de meio século de vida.

O protagonista de Dr. Who é um alienígena de aspeto humanóide que viaja pelo espaço e pelo tempo usando uma nave que, dominada por engenhocas de design futurista no interior, se revela exteriormente na forma de uma cabine azul – algo semelhante às vermelhas com telefones – que em tempos eram frequentemente usadas pela polícia e que ainda hoje encontramos em diversas localidades no Reino Unido. Ao longo de anos as viagens do Dr. Who levaram-no a agir em vários lugares e épocas, procurando através do seu sentido de justiça e grande conhecimento auxiliar aqueles que pedem socorro, enfrentando por vezes povos menos diplomáticos entre eles os daleks, hoje reconhecidos como os mais célebres ícones pop criados por este universo.

Na sua estreia televisiva, que contou com o ator William Hartnell na pele do DR. Who (papel que cumpriu até 1966), a série revelou através da música criada para o genérico por Ron Grainer – e interpretada por Delia Derbyshire – uma das primeiras composições electrónicas escritas e gravadas para a televisão. A música sobreviveu às diversas gerações de “doctors” e chegou mesmo a gerar um single de sucesso tremendo em 1988 quando os elementos dos KLF editaram, sob o nome de The Timelords, o tema Doctorin’ The Tardis, que integrava a música original num contexto contemporâneo, juntando ainda outros temperos da cultura pop/rock. Apesar da interrupção de produção entre 1989 e 2005, o universo Dr. Who na verdade nunca esteve desativado e gerou spin-offs televisivos, assim como uma multidão de livros. Neste momento a série já conta com mais de 800 episódios realizados. É obra.

10. “Galactica” (1978)
Criada por Glen. A Larson

De título original Battlestar Galactica, esta série criada por Glen A. Larson nasceu de uma ideia na qual o seu autor pensava já desde os anos 60, imaginando um universo repleto de metáforas e referências religiosas. O impacte de Star Wars nos cinema em 1977 deu finalmente luz verde para que a produção avançasse e, a 17 de setembro de 1978 o primeiro episódio (produzido pela Universal) chegava aos ecrãs da ABC. Ali se revelava a história da fuga pela vida dos sobreviventes das 12 colónias humanas oriundas do mundo original de Kobol. Atacadas pelos Cylons (um povo cibernético), que contaram com a ajuda de um traidor humano no processo, as colónias foram dizimadas, cabendo aos poucos que não pereceram no ataque uma tentativa de fuga usando as naves disponíveis. A Galactica, uma grande nave militar, e aparentemente a única que terá resistido ao ataque, assume a condução e defesa da frota, tentando resistir sob constantes tentativas de perseguição e novos ataques dos cylons. No horizonte dos humanos que agora viajam pelo espaço há um desejo: o de encontrar a mítica 13.ª colónia que se diz ter rumado ao mais distante planeta Terra…

Com Lorne Greene (o “velho” Bonanza) como Adama – o líder da frota – e um elenco no qual se destacaram as figuras de Richard Hatch (Apollo) e Dirk Benedict (Starbuck), Galactica levou o conceito de space opera a uma conjunto de 24 episódios, doseando momentos de contacto e visita a novos mundos com novos instantes de perseguição e batalha, frequentemente exibindo sequências de luta entre as naves viper (humanas) e os caças cylon. A série apresentava entre a construção da sua mitologia não apenas as bases dos sistemas religioso e político das colónias humanas, como revelava as suas próprias unidades de tempo (o centon é ali o minuto) ou espaço (o metron é ali o metro). Do trabalho de criação da banda sonora destaca-se a fanfarra de tom militarista – sublinhando o ambiente que domina a ação – que Stu Phillips criou e que teve edição em disco em gravação pela Los Angeles Philharmonic Orchestra.

Galatica não teve vida fácil no ano em que estreou. Sofreu ações legais por plágio por parte da 20th Century Fox (que se resolveria mais tarde), caindo as audiências na reta final da exibição dos 24 episódios, o que levou ao seu cancelamento. Um ano depois Glen A Larson foi chamado a criar uma nova série baseada neste universo, jogando como motivo de interesse o encontro da frota com a Terra. O baixo orçamento disponível (que não garantiu a presença de grande parte do elenco original e não autorizou gastos maiores na cenografia) fez de Galactica 1980 um caso ainda mais controverso, cabendo ao culto que nasceria depois a preservação da sua memória. Depois de várias tentativas de reativação Battlestar Galactica conheceria nova vida, com outro sucesso e mesmo reconhecimento crítico nos herdeiros que gerou já depois do milénio, da série em jeito de reboot que repetiu o título da original e esteve em produção entre 2003 e 2009 ou a prequela Caprica de 2010. Um olhar completo sobre este universo deverá passar ainda pela vasta produção de romances e comics centrados nas personagens e mitologia da série.

PS. Juntem aqui as vossas listas, na zona de comentários.

1 Comment on As 10 melhores séries clássicas de ficção científica

  1. Em alternativa, deixo uma lista das melhores séries sci-fi (fi-ci?) estreadas antes de 1999-09-13. É menos “historicamente correcta”, mas talvez mais acessível ao público moderno (e faz uma quase-batota descarada, escolhendo séries que continuaram até ao século actual):

    1- “Cowboy Bebop” (1998)
    Originalmente pensado para vender brinquedos (mais propriamente naves espaciais), as instruções que o realizador deste anime recebeu foram: «desde que tenha naves, faça o que quiser». Mas quando viram que daí resultou um western existencialista “noir” com temas como o tédio e a solidão (e uma peculiar e conseguida banda-sonora jazz) desistiram da ideia dos brinquedos.

    2- “A Quinta Dimensão” [“Twilight Zone”]

    3- “Ginga Eiyuu Densetsu” (em inglês: “Legend of the Galactic Heroes”)
    Anime que retrata um conflito entre duas potências espaciais – um “Guerra e Paz” de animação sci-fi, mostrando o que o conflito bélico pode fazer a povos e a indivíduos. Para quem não se importe de alguma intriga política e muitas personagens.

    4- “Futurama” (1999)
    Delirante comédia em animação criada por Matt Groening e estreada uma década depois dos Simpsons, que coloca um entregador de pizas do século XX a acordar de um sono criogénico um milénio mais tarde.

    5- “Neon Genesis Evangelion” (1995)
    Anime pós-apocalíptico que é um dos exemplos maiores do género “mecha”, em que indivíduos pilotam robôs gigantes. Os seus defensores consideram que a sua força maior é o subtexto. Os detractores dizem que essa riqueza de significados é apenas aparente. A série caminha nesse difícil conflito.

    6- “Os Ficheiros Secretos” [“The X-Files] (1993)

    7- “Red Dwarf” (1988)
    Sitcom britânica de culto que retrata a convivência do último ser humano vivo com os seus improváveis companheiros de nave espacial que incluem, por exemplo, um ser felino descendente da sua gata.

    8- “Doctor Who” (1963)

    9- “Farscape” (1999)
    Geeks, uni-vos sob a bandeira da tripulação da nave bio-mecânica Moya, em fuga da raça guerreira dos Peacekeepers, autoridades militares que talvez não o devessem ser. Se querem ver como se dá a Jim Henson Companhy com a criação de raças extraterrestres, não precisam de procurar mais.

    10- “Space Kobura” [em inglês: “Space Cobra”] (1982)
    E se amanhã acordasse e se lembrasse de que é, na realidade, o supostamente falecido pirata espacial Cobra? Pois claro que iria recuperar a sua nave e embarcar em aventuras espaciais, de preferência sob o formato anime.

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