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A vivência de Carly Rae Jepsen após o êxito viral

Texto: ANDRÉ LOPES

Editada em 2011 e continuando a trepar por todas as tabelas de singles durante o ano seguinte, “Call Me Maybe” foi a canção que deu a Carly Rae Jepsen popularidade em grande escala. Que possibilidades podem existir após um sucesso tão acidental quanto precoce?

Call me Maybe integra o alinhamento do EP Curiosity (2011) e de Kiss (2012) – o primeiro álbum de Carly Rae Jepsen  – mas nenhum dos dois se conseguiu destacar de forma duradoura no panorama da música pop deste início de século, algo que poderá ser explicado pelo modo como, num contexto globalizado e que prima pela difusão instantânea de informação, se torna necessária mais do que uma apenas canção viciante para conferir durabilidade a uma personalidade artística. Três anos depois da pop dançável presente em Kiss, o espírito adolescente veio a amadurecer e o objetivo de alcançar o sucesso por via de singles de melodias apelativas tornou-se mais amplo: Carly Rae Jepsen procura agora mérito junto de quem considera o “álbum” como corpo ideal para a expressão criativa de um músico, sendo nesse campo que E•MO•TION se propõe a atuar.

Assim sendo, e para refletir e entender a música pop contemporânea que não se envergonha de ser mainstream, importa considerar aquilo que marcou esse panorama sonoro nos últimos tempos. Em 2014, por exemplo, a saliência inigualável de 1989 – álbum exemplificativo da nova postura de Taylor Swift, que ao abandonar a influência direta da música country, apresentou então um conjunto de canções que recordam as sonoridades típicas da pop dos anos 80, rica em sintetizadores e ritmos desafiantes. Esse foi um disco concebido de acordo com uma metodologia que cruzou os talentos de nomes associados aos sucessos de Fun., Madonna, Gwen Steffani, Britney Spears… Enfim, produtores e autores de canções que demonstraram já por várias vezes saber como estruturar uma canção pop de modo a que esta se torne atrativa para um público vasto. Da mesma forma, Carly Rae Jepsen reuniu uma equipa numerosa (contam-se mais de 20 produtores nos créditos do disco) com a pretensão de conseguir um objeto artístico valioso pela sua totalidade e não pelo mérito de singles acidentais.

Por entre a lista de coautores de E•MO•TION, encontramos nomes um tanto invulgares para um contexto deste tipo: Rostam Batmanglij (dos Vampire Weekend), Dev Hynes (Blood Orange) ou Peter Svensson (dos The Cardigans). O resultado é, apesar da variedade de autores e produtores, surpreendentemente coeso. Aqui, denota-se uma relocalização da pop explorada anteriormente por Carly Rae Jepsen, rumo a ideias rítmicas e sugestões melódicas mais aventureiras. Apesar da coesão, há faixas que se conseguem destacar, seja devido aos refrães fáceis de reter (I Really Like You ou Making the Most of the Night) ou pela formam como repensam e propõem novos esquemas passíveis de integrar a pop atual: Warm Blood será eventualmente a faixa mais audaciosa do alinhamento, com recurso a um sintetizador proficiente o suficiente na exploração de melodias que não precisam de subir em oitavas para se mostrarem eficientes. Já em All That, a percussão e as teclas são pensadas de uma forma quase kitsch que fazem recordar alguns das proezas menos ritmados de Prince.

A forma como a melodia do saxofone surge processada pelo efeito de eco e alguma reverberação em Run Away with Me, logo a marcar o início do alinhamento, é desde logo evidência sobre a forma como um disco pop que se queira interessante pode advir de nomes menos frequentes, mas com ideias valiosas por explorar. Falta contudo a Carly Rae Jepsen encontrar um sentido de personalidade criativa que torne estas faixas rapidamente distintas face à maioria do que se escuta atualmente. Importa que estas canções, quase talhadas à medida, encontrem na sua intérprete vocal, elementos únicos que comprovem que estas só poderiam ser cantadas por si. Por agora, essas estão componentes que ainda estão ausentes.

Carly Rae Jepsen
“E•MO•TION”
Interscope – Universal
3/5

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