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Leia aqui o prólogo de “Vozes de Chernobyl”, de Svetlana Alexievich

A Elsinore, chancela literária do Grupo 20l20 Editora é, a partir de hoje, a editora em Portugal da obra de Svetlana Alexievich, autora bielorussa recentemente distinguida com Prémio Nobel de Literatura de 2015. Para além de Vozes de Chernobyl, que chegará às livrarias em janeiro de 2016, a Elsinore vai publicar nos próximos três anos os livros War’s Unwomanly Face, Last Witnesses: The Book of Unchildlike Stories e Zinky Boys: Soviet Voices from the Afghanistan War.

A editora disponibilizou hoje, para pré-publicação, o prólogo de Vozes de Chernobyl, numa tradução de Hugo Pinto Santos:

 

Uma Voz Humana Solitária

Somos ar‚ não somos terra…
M. Mamardashvili

Não sei do que hei de falar: da morte ou do amor? Ou serão eles a mesma coisa? De qual deles devo falar?
Éramos recém-casados. Ainda andávamos de mãos dadas, mesmo que fosse para ir apenas à loja. Eu dizia-lhe: «Amo-te.» Mas nessa altura não sabia quanto. Não fazia ideia… Vivíamos no dormitório do quartel de bombeiros onde ele trabalhava. No segundo andar. Havia outros três jovens casais, partilhávamos todos a cozinha. No primeiro andar, guardavam-se os camiões. Os camiões vermelhos de combate ao fogo. Era esse o seu trabalho. Eu sabia sempre o que se passava: onde e como ele estava.
Certa noite, ouvi um barulho. Olhei pela janela lá para fora. Ele viu-me. «Fecha a janela e vai-te deitar. Há um incêndio no reator. Eu já volto.»
Não vi a explosão propriamente dita. Só as chamas. Estava tudo iluminado. Todo o céu. Uma chama alta. E fumo. O calor era horrível. E ele sem voltar.
O fumo vinha do piche queimado, que tinha coberto o telhado. Mais tarde, ele disse que era como andar em cima de alcatrão. Eles tentaram controlar as chamas. Deram pontapés na grafite em chamas… Não tinham o equipamento de lona. Foram só como estavam, em mangas de camisa. Ninguém lhes disse. Tinham sido chamados para um incêndio, era só.
Quatro horas. Cinco. Seis. Às seis horas, tínhamos de ir a casa dos pais dele. Plantar batatas. São quarenta quilómetros de Pripyat a Sperizhye‚ onde vivem os pais dele. Semear‚ colher: ele adorava fazer isso. A mãe dele sempre me disse que eles não queriam que ele se mudasse para a cidade, até lhe tinham construído uma casa nova. Ele foi recrutado pelo Exército. Cumpriu serviço no corpo de bombeiros, em Moscovo, e quando saiu, queria ser bombeiro. E nada mais! [Silêncio.]
Às vezes é como se ouvisse a voz dele. Vivo. Nem as fotografias têm o mesmo efeito em mim que aquela voz. Mas ele nunca me chama… nem em sonhos. Sou eu quem o chama.
Sete horas. Às sete disseram-me que ele estava no hospital. Corri até lá‚ mas a polícia já tinha rodeado o local, e não deixavam ninguém passar. Só ambulâncias. Os polícias gritavam: As ambulâncias são radioativas, afastem-se! Eu não era a única pessoa que ali estava; todas as mulheres cujos maridos estavam, naquela noite, nos reatores tinham vindo. Comecei a procurar uma amiga, que era médica naquele hospital. Agarrei-a pela bata, quando ela saiu da ambulância. «Leva-me lá para dentro!» «Não posso. Ele está mal. Estão todos.» Deixei-me estar junto a ela. «Só para o ver!» «Está bem», disse ela. «Anda comigo. Só quinze ou vinte minutos.»
Vi-o. Estava inchado e todo intumescido. Mal se conseguia ver-lhe os olhos.
«Ele precisa de leite. Muito leite», disse a minha amiga. «Cada um deles devia beber, pelo menos três litros.» «Mas ele não gosta de leite.» «Agora, vai beber.» Muitos dos médicos e das enfermeiras naquele hospital‚ e especialmente as auxiliares‚ viriam a ficar doentes e a morrer. Mas nessa altura nós não sabíamos disso.
Às dez da manhã‚ Shishenok, o operador de câmara, morreu. Foi ele o primeiro. No primeiro dia. Ficámos a saber que outro foi deixado debaixo do entulho: Valera Khodemchuk. Nunca conseguiram chegar até ele. Enterraram-no debaixo do betão. E, nessa altura, não sabíamos que eles eram apenas os primeiros. «Vasya», disse eu, «o que é que eu hei de fazer?» «Sai daqui! Vai! Tens o nosso filho.» Mas como posso eu deixá-lo? Ele diz-me: «Vai! Vai-te embora! Salva o bebé.» «Primeiro tenho de te trazer o leite, depois decido o que fazer.»
A minha amiga Tanya Kibenok entra a correr: o marido dela está no mesmo quarto. O pai está com ela. Ele tem carro. Entramos e seguimos até à aldeia mais próxima para ir buscar leite. Fica a cerca de três quilómetros da cidade. Compramos umas quantas garrafas de três litros, seis, por isso é o suficiente para todos. Mas eles começaram a vomitar por causa do leite. Estavam sempre a desmaiar, e foram entubados. Os médicos estavam sempre a dizer-lhes que eles tinham sido contaminados com gás. Ninguém falou de radiação. E a cidade foi imediatamente inundada com veículos militares, e todas as estradas foram encerradas. Os elétricos deixaram de circular, e os comboios também. Andavam a lavar as ruas com um pó branco qualquer. Perguntava-me como iria para a aldeia no dia seguinte, para comprar mais leite fresco. Ninguém falava da radiação. Só o pessoal militar usava máscaras no rosto. As pessoas na cidade traziam pão das lojas, os sacos abertos com os pães lá dentro. As pessoas comiam queques em cima de pratos.
Não consegui entrar no hospital nessa noite. Havia um mar de gente. Fiquei debaixo da janela dele, ele veio e gritou-me qualquer coisa. Eu estava tão desesperada! Alguém na multidão o ouviu: eles iam ser levados para Moscovo nessa noite. Todas as mulheres se juntaram em grupo. Decidimos que iríamos todas com eles. Deixem-nos ir com os nossos maridos! Vocês não têm o direito! Demos murros e arranhões. Os soldados — já havia soldados — empurraram-nos para trás. Depois, o médico veio cá fora e disse que sim, que iam viajar de avião para Moscovo, mas que nós tínhamos de trazer as roupas deles. As roupas que eles tinham na estação tinham ficado queimadas. Os autocarros já tinham deixado de circular, e nós corremos pela cidade. Voltámos a correr com os sacos deles, mas o avião já tinha partido. Enganaram-nos. Para que lá não estivéssemos, aos gritos e a chorar.
É de noite. De um lado da rua, há autocarros, centenas de autocarros — já estão a preparar a cidade para ser evacuada —, e do outro, centenas de camiões dos bombeiros. Vieram de toda a parte. E toda a rua se cobria de uma espuma branca. Caminhamos sobre ela, a soltar pragas e a chorar. Pela rádio, dizem-nos que podem evacuar a cidade por três ou cinco dias, que levemos as nossas roupas quentes, vamos ficar a viver na floresta. Em tendas. As pessoas até ficaram contentes: uma excursão de campismo! Vamos celebrar o Primeiro de Maio assim, um intervalo da rotina. As pessoas preparam os utensílios para churrasco. Levaram consigo as violas, os rádios. Só as mulheres cujos maridos tinham estado no reator choravam.
Não me lembro da viagem até à aldeia dos meus pais. É como se eu tivesse acordado e visto a minha mãe. «Mamã. O Vasya está em Moscovo. Mandaram-no para lá num avião especial!» Mas acabámos de plantar o jardim. [Uma semana depois, a aldeia foi evacuada.] Quem diria? Quem diria, nessa altura? Mais tarde, nesse dia, comecei a vomitar. Estava grávida de seis meses. Sentia-me péssima. Nessa noite, sonhei que ele me chamava enquanto dormia: «Lyusya! Lyusenka!» Mas, depois de ele morrer, nunca mais me chamou em sonhos. Nem uma única vez. [Começa a chorar.] Levantei-me de manhã a pensar que tinha de ir para Moscovo. Sozinha. A minha mãe chora: «Aonde é que tu vais, assim como estás?» Por isso, levei o meu pai comigo. Ele foi ao banco e levantou todo o dinheiro que tinham.
Não me lembro da viagem. A viagem pura e simplesmente não me ficou na memória. Em Moscovo, perguntámos ao primeiro polícia que encontrámos onde tinham posto os bombeiros de Chernobyl, e ele disse-nos. Ficámos surpreendidos, também, que toda a gente nos assustasse ao dizer que era ultrassecreto. «No Hospital número 6. Na paragem de Shchukinskaya.»
Era um hospital especial, vocacionado para radiologia, e não se podia entrar sem uma autorização. Dei algum dinheiro à mulher que estava à porta, e ela disse: «Faça favor.» Depois, tive de pedir a outra pessoa, tive de implorar. Finalmente, estou sentada no gabinete da chefe do serviço de radiologia, Angelina Vasilyevna Guskova. Mas eu ainda não sabia disso, como ela se chamava, não me lembrava de nada. Só sabia que tinha de o ver. Perguntou de imediato: «Tem filhos?»
Que lhe havia eu de dizer? Já consigo perceber que tenho de esconder que estou grávida. Não me deixam vê-lo! Ainda bem que sou magra, não dá mesmo para perceber nada.
«Sim», digo.
«Quantos?»
Penso: Tenho de lhe dizer que dois. Se for só um, ela não me deixa entrar.
«Um rapaz e uma rapariga.»
«Então não precisa de ter mais. Muito bem, oiça: o sistema nervoso central dele está completamente comprometido, o crânio está completamente comprometido.»
OK, penso, portanto, ele vai ficar um pouco agitado.
«E oiça: se você começar a chorar, expulso-a logo daqui. Nada de abraços, nem beijos. Nem sequer se chegue a ele. Tem meia-hora.»
Mas eu já sabia que não me ia embora. Se me for embora, nesse caso é com ele. Jurei a mim mesma! Entro, e eles estão sentados na cama, a jogar às cartas e a rir-se.
«Vasya!», chamam por ele.
Ele volta-se:
«Ora bem, agora acabou-se! Até aqui ela me encontra!»
Está com um ar engraçado, com um pijama de tamanho 48, quando ele veste 52. As mangas são curtas de mais, as calças também. Mas já não tem a cara inchada. Deram-lhes um líquido qualquer.
«Onde é que te tinhas metido?», pergunto.
Ele quer abraçar-me.
A médica não o deixa. «Sente-se, sente-se», diz-lhe. «Nada de abraços aqui.»
Fizemos disto uma piada, não sei como. E depois aparece toda a gente, e dos outros quartos também, toda a gente de Pripyat. Vinham vinte e oito pessoas no avião. O que é que se passa? Como estão as coisas na cidade? Digo-lhes que começaram a evacuar toda a gente, toda a cidade vai ser limpa durante três ou cinco dias. Nenhum deles diz nada, e então uma das mulheres — havia duas mulheres —, que estava de serviço na fábrica no dia do acidente, começa a chorar.
«Oh, meu Deus! Os meus filhos estão lá. O que é que vai ser deles?»
Eu queria estar sozinha com ele, nem que fosse por um minuto. O pessoal apercebeu-se disso, e cada um deles pensou numa desculpa e foram todos para o corredor. Então, abracei-o e beijei-o. Ele afastou-se.
«Não te sentes perto de mim. Pega uma cadeira.»
«Isso é um disparate», disse eu, afastando a cadeira. «Viste a explosão? Viste o que aconteceu? Vocês foram os primeiros a chegar lá.»
«Provavelmente, foi sabotagem. Alguém fez aquilo. O pessoal pensa todo que foi isso.»
Era o que as pessoas diziam, nessa altura. Era isso que pensavam.
No dia seguinte, estavam sozinhos, cada um no seu quarto. Ficaram proibidos de ir até ao corredor e de falar uns com os outros. Batiam na parede com os nós dos dedos. Traço-ponto, traço-ponto. Os médicos explicaram que o corpo de cada pessoa reage de forma diferente à radiação, e uma pessoa consegue lidar com certas coisas, e outra, não. Até mediram a radiação das paredes dos lugares em que eles estavam. À direita, à esquerda e no andar de baixo. Retiraram todas as pessoas doentes do andar de baixo e do andar de cima. Não ficou lá mais ninguém.
Durante três dias, fiquei com amigos em Moscovo. Estavam sempre a dizer: Leva a panela, leva o prato, leva aquilo de que precisares. Fiz sopa de peru para seis. Para seis dos nossos rapazes. Bombeiros. Do mesmo turno. Estavam todos de serviço nessa noite: Bashuk, Kibenok, Titenok, Pravik, Tischura. Fui a uma loja e comprei-lhes pasta dos dentes, escovas e sabonete. Eles não tinham nada disso no hospital. Comprei-lhes umas toalhas pequenas. Ao olhar para trás, fico surpreendida com os meus amigos: eles tinham medo, claro. Como podiam não ter? Já corriam rumores, mas mesmo assim eles não paravam de dizer: Leva o que quiseres. Leva! Como é que ele está? Como é que estão todos eles? Eles vão sobreviver? Sobreviver. [Fica em silêncio.] Encontrei muitas pessoas boas, nessa altura, não me lembro de todas. Lembro-me de uma velha senhora da limpeza, que me ensinou: «Há doenças que não podem ser curadas. Tem de se ficar parado a vê-las.»
De manhã cedo, vou ao mercado e depois sigo para casa dos meus amigos, onde faço a sopa. Tenho de ralar e passar tudo. Alguém me disse: «Traz-me sumo de maçã.» Por isso, apareço lá com seis embalagens de meio litro, sempre para seis! Corro para o hospital, depois sento-me lá até ao fim da tarde. Nessa altura, regresso, atravessando a cidade. Quanto tempo mais teria eu aguentado aquilo? Três dias depois, disseram-me que eu podia ficar no dormitório do pessoal médico, que fica no terreno do hospital. Meu Deus, que maravilha!
«Mas não há cozinha. Como é que eu vou cozinhar?»
«Não precisa de cozinhar. Eles não conseguem digerir a comida.»
Ele começou a mudar: a cada dia, deparava-me com uma pessoa diferente. As queimaduras começaram a vir à superfície. Na boca, na língua, nas bochechas; ao princípio, eram lesões muito pequenas, mas depois cresceram. Caíam em camadas — como uma película branca… da cor da cara dele… do corpo… azul… vermelho… cinzento-acastanhado. E é tudo meu! É impossível descrever! É impossível escrevê-lo! E até esquecê-lo. A única coisa que me salvou foi que tudo aconteceu tão depressa, que não houve tempo para pensar, não houve tempo para chorar.
Eu amava-o! Nem fazia ideia de quanto! Tínhamo-nos casado há pouco tempo. Caminhávamos pela rua abaixo: ele agarrava-me as mãos e fazia-me rodopiar à sua volta. E beijava-me, beijava-me. As pessoas passavam por nós e sorriam.
Era um hospital para pessoas gravemente contaminadas com radiação. Catorze dias. Dentro de catorze dias, uma pessoa morre.
No primeiro dia em que fiquei no dormitório, mediram-me com um dosímetro. A roupa, a mala, a carteira, os sapatos: estava tudo «quente». E tiraram-me tudo aqui mesmo. Até a roupa interior. Só me deixaram ficar com o dinheiro. Em troca, deram-me um roupão de hospital (tamanho 56) e uns chinelos de tamanho 43. Disseram-me que talvez me devolvessem a roupa, ou que talvez não o fizessem, uma vez que poderia não ser possível «lavá-la», naquele momento. Era assim que eu estava, quando vim visitá-lo. Assustei-o. «Ó mulher, o que é que se passa contigo?» Mas ainda lhe podia fazer uma sopa. Fervi a água num frasco de vidro, depois atirei para lá pedaços de frango: pedaços pequeninos, pequeninos. Depois alguém me deu a sua panela, acho que foi a senhora da limpeza, ou o segurança. Mais alguém me deu uma tábua para cortar, para picar a salsa. Não podia ir ao mercado com o meu roupão do hospital. As pessoas traziam-me os vegetais. Mas era tudo inútil. Ele nem sequer conseguia beber nada. Nem um ovo cru ele conseguia engolir. Mas eu queria arranjar qualquer coisa saborosa! Como se isso importasse. Corri para os correios. «Meninas», disse-lhes, «preciso de telefonar imediatamente para os meus pais, em Ivano-Frankovsk! O meu marido está a morrer.» Elas perceberam logo de onde eu era e quem era o meu marido, e fizeram a ligação por mim. O meu pai, a minha irmã e o meu irmão viajaram de avião, nesse mesmo dia, para Moscovo. Trouxeram-me as minhas coisas. E dinheiro. Estávamos a 9 de maio. Ele dizia-me sempre: «Não fazes ideia como Moscovo está bonita! Especialmente no Dia da Vitória, quando lançam os foguetes. Quero que tu os vejas.»
Estou sentada com ele no quarto, e ele abre os olhos. «É de dia ou de noite?»
«São nove da noite.»
«Abre a janela! Vão lançar os foguetes!»
Abri a janela. Estamos no oitavo andar, e toda a cidade está diante de nós! Houve uma grinalda de fogo a explodir no ar.
«Olha para aquilo!», disse eu.
«Eu disse que te ia mostrar Moscovo. E disse que te ia sempre dar flores nos feriados…»
Olho por cima, e ele tira três cravos de baixo da almofada. Deu dinheiro à enfermeira, e ela comprou-os.
Corro para ele e beijo-o.
«Meu amor! Meu mais que tudo!»
Ele começa a resmungar.
«O que é que os médicos te disseram? Nada de abraços comigo. E nada de beijos!»
Não me deixavam abraçá-lo. Mas eu… eu levantei-o e fi-lo sentar-se. Fiz-lhe a cama. Pus-lhe o termómetro. Tirei a arrastadeira do chão e voltei a pousá-la lá. Fiquei toda a noite acordada com ele.
Ainda bem que foi no corredor, e não no quarto, que a cabeça me começou a andar à roda. Agarrei-me ao peitoril da janela. Um médico passava por ali, segurou-me nos braços. E de repente, a pergunta: «Está grávida?»
«Não, não!» Tinha tanto medo que alguém nos ouvisse.
«Não me minta», suspirou ele.
No dia seguinte, sou chamada ao gabinete do diretor médico.
«Porque é que me mentiu?», perguntou-me.
«Não havia outra forma. Se lhe tivesse dito, mandava-me para casa. Foi uma mentira piedosa!»
«O que é que foi fazer?»
«Mas eu estava com ele…»
Toda a vida ficarei grata a Angelina Vasilyevna Guskova. Toda a vida! Houve outras esposas que vieram, mas não foram autorizadas a entrar. As mães delas estiveram comigo. A mãe da Volodya Pravik estava sempre a suplicar a Deus: «Leva-me antes a mim.» Um professor americano, o Dr. Gale — foi ele que fez a operação à medula óssea —, tentou reconfortar-me. «Há uma leve esperança», disse ele, «não muita, mas um pouco. Um organismo tão rijo, um tipo tão forte!» Chamaram todos os parentes dele. Duas das irmãs vieram da Bielorrússia, o irmão, de Leninegrado, onde ele estava no Exército. A mais nova, Natasha, que tinha catorze anos, estava muito assustada e chorava muito. Mas a medula óssea dela era a mais adequada. [Silêncio.] Agora posso falar disto. Antes, não podia. Não falei disto durante anos. [Silêncio.]
Quando descobriu que andavam a extrair medula óssea da irmãzinha dele, recusou- se terminantemente a prosseguir. «Preferia morrer. Ela é tão pequena. Não lhe toquem.» A irmã mais velha, Lyuda, tinha vinte e oito anos, e era, ela própria, enfermeira, sabia em que é que se estava a meter. «Desde que ele sobreviva», disse ela. Eu assisti à operação. Estavam deitados um ao lado do outro nas marquesas. Havia uma grande janela que dava para a sala de operações. Demorou duas horas. Quando acabaram, Lyuda estava pior do que ele, tinha dezoito pontos no peito, foi muito difícil para ela recuperar dos efeitos da anestesia. Agora é doente, é uma inválida. Ela era uma rapariga forte e bonita. Nunca se casou. Então eu andava a correr de quarto em quarto, do quarto dele para o dela. Ele já não estava num quarto normal, estava numa biocâmara especial, por trás de uma cortina transparente. Ninguém lá podia entrar.
Têm lá instrumentos para lhe poderem dar injeções ou pôr o cateter, sem atravessar a cortina. As cortinas estão unidas por velcro, e aprendi a usá-las. Mas eu afasto-as e vou lá dentro ter com ele. Havia uma cadeira pequena junto à cama dele. Ele ficou tão mal, que eu não o podia deixar nem por um segundo que fosse, agora. Chamava constantemente por mim: «Lyusya, onde é que estás? Lyusya!» Chamava e chamava. As outras biocâmaras, onde estavam os nossos rapazes, estavam ao cuidado de soldados, porque as auxiliares de serviço se recusavam e exigiam roupa de proteção. Os soldados é que transportavam os tanques sanitários. Limpavam o chão, mudavam as camas. Faziam tudo. Onde arranjavam eles aqueles soldados? Não perguntávamos. Mas ele… ele… todos os dias o ouvia: «Morreu. O Tischura morreu. O Titenok morreu. Morreu.» Era como uma marreta na minha cabeça.
Ele defecava vinte a cinco a trinta vezes ao dia. Com sangue e muco. A pele dos braços e das pernas começava a estalar. Ficou coberto de bolhas. Quando virava a cabeça, havia uma mecha de cabelo na almofada. Eu tentava brincar: «Até dá jeito, não precisas de pente.» Em breve, cortaram-lhes o cabelo todo. A ele, fui eu própria que o fiz. Queria ser eu a fazer tudo por ele. Se tivesse sido fisicamente possível, tinha ficado com ele vinte e quatro horas por dia. Não podia desperdiçar um único minuto. [Longo silêncio.] Veio o meu irmão e assustou-se. «Não te deixo entrar ali!» Mas o meu pai disse-lhe: «Achas que consegues impedi-la? Ela até ia pela janela! Ela vai pela escada de incêndio!»
Volto para o hospital, e está uma laranja na mesa de cabeceira. Uma grande laranja, de um tom rosa. Ele sorri: «Recebi uma prenda. Leva-a.» Entretanto, a enfermeira faz gestos através da película, a dizer que eu não posso comer a laranja. Esteve perto dele durante algum tempo, portanto, não só não se deve comê-la, como nem se deve tocá-la. «Vá lá, come-a», disse ele. «Tu gostas de laranjas.» Pego na laranja. Entretanto, ele fecha os olhos e adormece. Estavam sempre a dar-lhe injeções para o pôr a dormir. A enfermeira olha para mim horrorizada. E eu? Eu estou preparada para fazer seja o que for para que ele não pense na morte. E no facto de a morte dele ser horrível, de eu ter medo dele. Há um fragmento de conversa, estou a recordar-me. Alguém diz: «Tem de perceber que este já não é o seu marido, já não é uma pessoa amada, mas um objeto radioativo com uma elevada concentração de contaminação. Você não é suicida. Controle-se.» E sinto-me como alguém que tivesse perdido o juízo: «Mas eu amo-o! Amo-o!» Ele está a dormir, e eu sussurro: «Amo-te!» A andar pelo pátio do hospital: «Amo-te.» A transportar o tabuleiro de limpeza: «Amo-te.» Lembrava-me de como vivíamos em casa. Ele só adormecia depois de me pegar na mão. Era um hábito dele: segurar-me na mão enquanto dormia. Toda a noite. Por isso, no hospital eu pego-lhe na mão e não a largo.
Uma noite, está tudo em silêncio. Estamos sozinhos. Ele olhou para mim, com muito cuidado e, de repente, disse:
«Quero tanto ver o nosso filho. Como é que ele está?»
«Que nome lhe vamos dar?»
«Tu é que decides isso.»
«Porquê eu, se nós somos dois?»
«Nesse caso, se for rapaz, devia ser Vasya, e se for rapariga, Natasha.»
Não fazia ideia de como o amava! A ele… só a ele. Era como se eu fosse cega! Nem conseguia sentir o leve bater debaixo do meu coração. Embora estivesse de seis meses. Pensava que o meu pequenino estava dentro de mim, que estava protegido.
Nenhum dos médicos sabia que, à noite, eu ficava com ele na biocâmara. As enfermeiras deixavam-me entrar. Ao princípio também insistiam comigo: «Você é jovem. Porque é que está a fazer isto? Ele já não é uma pessoa, é um reator nuclear. Vocês vão mas é arder os dois.» Eu parecia um cãozinho, a correr atrás delas. Punha-me horas à porta, a suplicar e implorar. E então elas diziam: «Está bem! Rais’ parta! Você não é normal!» De manhã, mesmo antes das oito, quando os médicos iniciavam as suas rondas, elas ali estavam, do outro lado da película: «Corra!» Então eu ia para o dormitório por uma hora. Depois, das nove da manhã às nove da noite, tenho autorização para entrar. Tinha as pernas azuis e inchadas, do joelho para baixo, tal era o meu cansaço.
Enquanto eu estava com ele, não o faziam, mas quando eu saía, tiravam-lhe fotografias. Sem roupa. Nu. Um lençol fininho por cima dele. Mudava aquele lençolzinho todos os dias, e todos os dias ao fim da tarde ele estava coberto de sangue. Pego nele, e fico com pedaços da sua pele na mão, colam-se-me às mãos. Peço-lhe: «Amor, ajuda-me. Apoia-te no braço, no cotovelo, tanto quanto possas, eu aliso-te a roupa da cama, tiro-te os nós e as dobras.» O mais pequeno nó era já uma ferida para ele. Cortava as minhas unhas rentes até fazer sangue, para não o cortar por acidente. Nenhuma das enfermeiras se conseguia chegar a ele; se precisassem de alguma coisa, chamavam-me.
E tiravam-lhe fotografias. Com fins científicos, diziam. Eu tinha-as empurrado dali para fora! Tinha gritado! E tinha-lhes batido! Como é que se atreviam? Ele é só meu — é o meu amor. Se ao menos eu tivesse conseguido mantê-las fora dali.
Estou a sair do quarto para o corredor. E caminho para o sofá, porque não as vejo. Digo à enfermeira que está de serviço: «Ele está a morrer.» E ela diz-me: «O que é que você esperava? Ele apanhou mil e seiscentos roentgenes. Quatrocentos já é uma dose letal. Você está sentada junto a um reator nuclear.» Ele é só meu… é o meu amor. Quando eles morreram todos, fez-se um remont no hospital. Rasparam as paredes e arrancaram o parquê.
E depois — uma última coisa. Lembro-me disto por flashes, tudo quebrado.

*
* *

Estou sentada na minha cadeirinha ao lado dele, e é de noite. Às oito horas, digo: «Vasenka, vou sair para dar uma voltinha.» Ele abre e fecha os olhos, deixa-me ir. Vou apenas até ao dormitório, subo ao meu quarto, deito-me no chão — não me conseguia deitar na cama, tinha demasiadas dores em todo o corpo —, quando a senhora da limpeza já me bate à porta. «Vá! Corra para ele! Ele está a chamar por si como um louco!» Nessa manhã, Tanya Kibenok suplicava: «Anda comigo ao cemitério, não consigo ir sozinha.» Iam enterrar Vitya Kibenok e Volodya Pravik. Eram amigos do meu Vasya. As nossas famílias eram amigas. Há uma fotografia de todos nós no edifício um dia antes da explosão. Os nossos maridos estão tão elegantes! E felizes! Foi o último dia dessa vida. Éramos todos tão felizes!
Voltei do cemitério e fui de imediato ao posto da enfermeira. «Como é que ele está?» «Morreu há quinze minutos.» O quê? Estive ali toda a noite. Estive fora três horas! Subo até à janela e começo a gritar: «Porquê? Porquê?» Olhei para o céu e berrei. Todo o edifício me conseguia ouvir. Tinham medo de subir para vir ter comigo. Depois recobrei ânimo: vou vê-lo mais uma vez! Mais uma vez! Desço as escadas a correr. Ainda estava na sua biocâmara, ainda não o tinham tirado de lá. As suas últimas palavras foram: «Lyusya! Lyusenka!» «Ela só saiu por um bocadinho, vem já», disse-lhe a enfermeira. Ele suspirou e ficou em silêncio. Nunca mais o deixei depois disso. Acompanhei-o até ao local da sepultura. Embora me lembre, não da sepultura, mas do saco de plástico. Aquele saco.
Na morgue, disseram-me: «Quer ver como é que o vestimos?» Quero! Vestiram-no com roupa formal, com o boné da farda. Não lhe conseguiram calçar sapatos, porque os pés tinham inchado. Também tiveram de cortar o fato, porque não o conseguiram vestir; não havia um corpo inteiro para lá pôr. Todo ele era… feridas. Nos últimos dois dias no hospital, eu levantava-lhe o braço, e o osso abanava, ficava como que a nadar, o corpo partira dele. Pedaços dos pulmões e do fígado saíam-lhe pela boca. Ele engasgava-se com os seus próprios órgãos. Eu embrulhava a mão numa ligadura e punha-a na boca dele, tirava aquilo tudo. É impossível falar disso. É impossível escrever sobre isso. E mesmo passar por isso. Era todo meu. O meu amor. Não conseguiam que um simples par de sapatos lhe servisse. Enterraram-no descalço.
Mesmo diante dos meus olhos — vestido com a sua roupa formal —, limitaram-se a pegar nele e a pô-lo num saco de celofane dos deles, que ataram. E depois puseram este saco no caixão de madeira. E amarraram o caixão com outro saco. O plástico é transparente, mas espesso, como uma toalha de mesa. E então puseram tudo aquilo num caixão de zinco. Encaixaram-no. Só o boné não coube.
Veio toda a gente: os pais dele, os meus pais. Compraram lenços de mão pretos em Moscovo. A Comissão Extraordinária encontrou-se connosco. Disseram a todas nós a mesma coisa: É-nos impossível dar-vos os corpos dos vossos maridos, dos vossos filhos, estão em estado muito radioativo e vão ser enterrados num cemitério de Moscovo, de forma especial. Em urnas de zinco seladas, debaixo de placas de cimento. E vocês têm de assinar este documento.
Se alguém se indignava e queria levar o caixão de volta para casa, era-lhe dito que os mortos, bem viam, eram agora heróis, e já não pertenciam às suas famílias. Eram heróis do Estado. Pertenciam ao Estado.
Sentámo-nos na carrinha funerária. Os familiares e algum pessoal militar. Um coronel e o seu regimento. Dizem ao regimento: «Aguardem ordens!» Seguimos de carro por Moscovo durante duas ou três horas, à volta da estrada que rodeava a cidade. Regressamos de novo a Moscovo. Informam o regimento: «Não autorizamos a entrada de ninguém no cemitério. O cemitério está a ser alvo do ataque dos correspondentes estrangeiros. Aguardem um pouco mais.» Os pais não dizem nada. A mãe tem um lenço preto. Sinto que estou prestes a perder os sentidos. «Porque é que eles estão a esconder o meu marido? Ele é… o quê? Um assassino? Um criminoso? Quem é que nós estamos a enterrar?» A minha mãe: «Está calada. Calada, filha.» Faz-me festas na cabeça. O coronel diz para dentro: «Vamos entrar no cemitério. A mulher está a ficar histérica.» No cemitério fomos rodeados por soldados. Formou-se uma caravana. E eles levavam o caixão. Ninguém foi autorizado a entrar. Éramos só nós. Cobriram-no com terra num minuto. «Mais depressa! Mais depressa!», gritava o oficial. Nem sequer me deixaram abraçar o caixão. E… para o autocarro. Tudo às ocultas.
Trouxeram-nos logo bilhetes de avião para voltarmos para casa. Para o dia seguinte. Todo este tempo, esteve uma pessoa connosco vestida à civil, mas com aparência de militar. Nem sequer nos deixou sair do dormitório para comprarmos comida para a viagem. Deus nos livre de falar com alguém — especialmente eu. Como se eu fosse capaz de falar, nessa altura. Nem sequer era capaz de chorar. nos íamos embora, a mulher que estava de serviço contou todas as toalhas e lençóis. Dobrou-as imediatamente e pô-las num saco de polietileno. Provavelmente queimaram-nos. Fomos nós próprias a pagar pelo dormitório. Por catorze noites. Era um hospital para casos de contaminação por radiação. Catorze noites. É quanto uma pessoa demora para morrer.

*
* *

Em casa, adormeci. Entrei no quarto e caí sobre a cama. Dormi durante três dias. Veio uma ambulância. «Não», disse o médico. «Ela vai acordar. Este sono é terrível.»
Eu tinha vinte e três anos.
Lembro-me do que sonhei. A minha avó morta surge-me vestida com a roupa em que a enterrámos. Está a decorar a árvore de Ano Novo. «Avó, porque é que temos uma árvore de Ano Novo? Estamos no verão.» «Porque o teu Vasenka em breve se vai juntar a mim.» Ele tinha crescido na floresta. Lembro-me do sonho: Vasya vem num manto branco e chama Natasha. É a nossa menina, que eu ainda não tive. Já é crescida. Atira-a ao ar, e eles riem-se. E eu estou a vê-los e a pensar que a felicidade… é tão simples. Estou a dormir. Caminhamos junto à água. Andamos e andamos. Ele provavelmente pediu-me para não chorar. Fez-me um sinal. De lá de cima.
[Fica em silêncio por muito tempo.]
Dois meses depois, fui a Moscovo. Da estação de comboio, diretamente para o cemitério. Até ele! E no cemitério começo a entrar em trabalho de parto. Exatamente no momento em que eu começava a falar com ele… chamaram a ambulância. Foi com a mesma Angelina Vasilyevna Guskova que dei à luz. Ela tinha-me dito, naquela altura: «Você tem de vir aqui ter a criança.» Foi duas semanas antes do tempo previsto.
Mostraram-ma: uma menina. «Natashenka», chamei. «O teu pai deu-te o nome: Natashenka.» Ela parecia saudável. Braços, pernas. Mas sofria de cirrose hepática. O fígado dela tinha vinte e oito roentgenes. Doença cardíaca congénita. Quatro horas depois, disseram-me que ela tinha morrido. E uma vez mais: «Não lha vamos dar.» «O que é que querem dizer com isso, que não ma vão dar? Eu é que não vos dou a menina! Querem levá-la para fins de ciência. Detesto a vossa ciência! Detesto-a!»
[Está em silêncio.]
Estou sempre a dizer-te o que não devia. O que não devia. Eu não posso gritar, desde o meu enfarte. E não devia chorar. Por isso é que as palavras são todas erradas. Mas digo-te isto. Ninguém sabe disto. Quando me trouxeram a pequena caixa de madeira e me disseram: «Ela está aí», eu olhei. Tinha sido cremada. Era cinzas. E comecei a chorar. «Ponham-na aos pés dele», pedi. Lá, no cemitério, não diz Natasha Ignatenko. Só está o nome dele. Ela ainda não tinha nome, não tinha nada. Só uma alma. Foi isso que eu enterrei. Vou lá sempre com dois ramos: um para ele, e outro que ponho a um canto, para ela. Rastejo à volta da sepultura, de joelhos. Sempre de joelhos. [Torna-se incompreensível.] Eu matei-a. Eu. Ela. Salva. A minha menina pequenina salvou-me, ficou ela com todo o choque radioativo, foi como um para-raios. Era tão pequena. Era uma coisinha pequenina. [Tem dificuldades a respirar.] Ela salvou… Mas eu amava-os aos dois. Porque… porque não se pode matar com amor, pois não? Com tamanho amor! Porque é que estas coisas andam a par — amor e morte. Juntas. Quem me vai explicar isto? Rastejo à volta da sepultura de joelhos.
[Fica em silêncio durante muito tempo.]
Em Kiev, deram-me um apartamento. Ficava num grande edifício, onde puseram toda a gente da estação atómica. É um apartamento grande, com dois quartos, como o Vasya tínhamos sonhado. E eu enlouquecia nele!
Acabei por encontrar um marido. Contei-lhe tudo — toda a verdade —, que tenho um amor, para toda a vida. Contei-lhe tudo. Encontrávamo-nos, mas nunca o convidei para minha casa. Era aí que Vasya estava.
Trabalhava numa loja de doces. Estava a fazer bolos, e as lágrimas caíam-me pelo rosto abaixo. Não estou a chorar, mas há lágrimas que caem.
Dei à luz um rapaz, Andrei. Andreika. Os meus amigos tentaram impedir-me. «Não podes ter um bebé.» E os médicos tentaram assustar-me: «O seu corpo não conseguirá lidar com isso.» Depois, mais tarde… mais tarde, disseram-me que ele não teria um braço. O braço direito. O aparelho mostrava-o. «Ora, e então?», pensei. «Ensino-o a escrever com a mão esquerda.» Mas ele saiu perfeito. Um lindo menino. Agora anda na escola e tem boas notas. Agora tenho alguém — posso viver e respirá-lo. É a luz da minha vida. E entende tudo na perfeição. «Mamã, se eu for visitar a vovó durante dois dias, será que tu vais conseguir respirar?» Não, não vou! Temo o dia em que tenha de o deixar. Um dia, vamos a descer uma rua. E eu sinto-me cair. Foi quando tive o meu primeiro enfarte. Mesmo no meio da rua. «Mamã, precisas de água?» «Não, fica só ao meu lado, aqui. Não vás a lado nenhum.» E agarrei-me ao braço dele. Não me lembro do que aconteceu a seguir. Voltei a mim no hospital. Mas agarrei-me a ele com tanta força, que os médicos quase não conseguiam soltá-lo dos meus dedos. O braço dele ficou azul durante muito tempo. Agora, saímos de casa, e ele diz: «Mamã, não te agarres ao meu braço. Eu não vou a lado nenhum.» Ele também é doente: duas semanas na escola, duas semanas em casa com um médico. É assim que vivemos.
[Põe-se de pé e vai até à janela.]
Há muitos de nós aqui. Uma rua inteira. É assim que ela se chama: Chernobilskaya. Estas pessoas trabalharam toda a vida na estação. Muitas delas ainda vão para lá trabalhar, provisoriamente: é assim que se trabalha lá, agora, ninguém vive naquele lugar. Sofrem de doenças graves, são inválidos, mas não abandonam os seus empregos, têm medo sequer de pensar que o reator feche. Quem precisa deles noutro lugar, agora? Em muitos casos, morrem. Num instante. Simplesmente, caem: alguém vai a andar, cai, adormece e nunca mais acorda. Ele levava flores para a sua enfermeira, e o coração parou-lhe. Morrem, mas ninguém realmente nos perguntou nada. Ninguém nos perguntou pelo que passámos. O que vimos. Ninguém quer ouvir falar da morte. Sobre aquilo que os assusta.
Mas estava a falar-lhe do amor. Do meu amor…

Lyudmilla Ignatenko,
mulher do falecido bombeiro Vasili Ignatenko

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