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Ontem, hoje e amanhã

Texto: DANIEL BARRADAS

O novo album de David Fonseca é o espelho de um autor multi-facetado num momento de encruzilhada.

Este ano estreei-me na função de promotor de concertos. Sem entrar em pormenores, basta dizer que de um dia para o outro fiquei responsável pela organização do primeiro concerto do David Fonseca na Noruega. As coisas que acontecem na vida… Tenho agora umas belas histórias para contar aos amigos, mas o que interessa para este texto é explicar que essa situação me pôs, de maio a outubro, numa dieta musical de David Fonseca. Foi ocasião para me familiarizar exaustivamente com um enorme repertório de que só conhecia os êxitos mais assobiáveis. Mesmo assim, julgando eu que tinha ouvido tudo o que havia para ouvir, ainda fui surpreendido durante o concerto com When U hit the floor, uma excelente canção que ficou enterrada algures numa edição especial de um dos seus álbuns e vale bem a pena descobri-la.

Durante este ano foram saindo os três singles do novo álbum, o sexto da sua carreira a solo mas o primeiro cantado totalmente em português. Chegou-nos em primeiro lugar, vinda do que pareceu lugar nenhum e soando como uma pedrada no charco, Futuro eu, a canção que dá o título ao álbum. Mostrava um David Fonseca mais seguro de si do que nunca, a cantar em português uma lição musical aprendida dos Talking Heads mas bem assimilada, no que será de agora em diante, um momento incontornável para lhe definir o perfil.

No entanto, a maior surpresa desse single era o lado B. Sem aviso apanhou-nos a todos desprevenidos. Aqui estava um David Fonseca na sua faceta mais crooner mas traduzido para um nacional “cançonetista”, com tudo o que isso nos recorda daqueles momentos baladeiros épicos do Festival da Canção à volta de 1971. E como se não bastasse, com uma letra ao nível de um Ary dos Santos. Uma canção que é uma bulldozer emocional que deixa qualquer um de rastos no chão, cilindrado por aquela voz, por aquelas palavras.

São precisamente as palavras o maior trunfo deste novo álbum. Não que os temas tenham mudado muito do que é recorrente na poesia de David Fonseca. São ainda sobre amor, sobre alguém que se procura completar através de um outro. Mas há um novo ângulo que é muito mais existencialista, muito mais auto-suficiente e que culmina precisamente no tema Futuro Eu que, sem nunca roçar o narcisismo, se pode ler como uma carta de necessário amor-próprio.

Este novo ângulo vem reforçado com a força linguística de boas metáforas. Algumas passam talvez despercebidas no meio da leveza pop de certas canções, como por exemplo “A minha pele como um pó, vem o vento a mudar quem sou” em Chama-me que eu vou ou “Eu já não pertenço ao mundo que enrolou o meu amor no seu cordão umbilical” em Senso.

Há todo um dramatismo, urgência e violência que David Fonseca ainda não tinha conseguido capturar por completo em inglês. Atente-se a Hoje eu não sou em que é tão bem descrito o vácuo existencial de um abandono amoroso e que mesmo nos seus momentos mais simplistas (“Sou só o fantasma de um desejo, Sou só uma boca sem o teu beijo”) consegue ir ao cerne da questão de um modo tão descritivo quanto poético.

Musicalmente temos também um Fonseca desinibido, sem medo de espelhar todas as suas influências dos anos 80 (David Byrne em Futuro eu e Senso) mas também com coragem para cobrir um espectro que vai da declamação épica (em Funeral) ao trolaró mais descarado com palminhas (em Chama-me que eu vou). Há espaço para experimentação de orquestrações e ambientes, sendo de destacar a grandiosidade de Funeral e o despojamento de Não dês só para tirar em que “uma voz que quer cantar” se expõe em igual força e vulnerabilidade.

Enquanto colecção de canções, Futuro eu dispara um pouco para todo o lado sem verdadeiramente apontar para um futuro específico e isso torna o álbum um objecto imperfeito. Talvez ficasse mais polido e tivesse mais força com outro alinhamento e um número de canções mais limitado (São 15 canções, se contarmos com os lados B dos singles que vêm com a edição especial mais o tema escondido depois de Agora é a nossa vez, mas as indispensáveis são talvez dez). Mas é precisamente essa dispersão que torna o disco tão excitante e essencial. Sente-se que é um momento charneira na carreira de um virtuoso. É um artista a chegar a encruzilhada. Para onde o levará o seu talento, não importa. É uma certeza que o David Fonseca do futuro será tão bom ou melhor que o do passado ou o do presente.

David Fonseca
“Futuro eu”
2015 Universal Music Portugal sob licença exclusiva de Castle of the Amazing Cats
4 / 5

1 Comment on Ontem, hoje e amanhã

  1. Graça Rodrigues Pereira // Novembro 1, 2015 às 9:48 pm // Responder

    David Fonseca é SÓ o MAIOR artista do panorama musical nacional… de um brilhantismo sem igual.

    Gostar

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