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A estreia de Tori Amos num palco de teatro

Texto: NUNO GALOPIM

Com ponto de partida num conto escocês do século XIX, o musical de Tori Amos “The Light Princess” tem agora edição em disco, numa gravação com o elenco original da peça.

Não é preciso ser um especialista em teatro musical para reconhecer que a edição discográfica associada a este universo já viu bem melhores dias. Se consultarmos a lista dos álbuns mais vendidos na década de 50 veremos que há por ali um volume considerável de gravações de musicais. E, note-se, sem que o cinema tivesse ainda levado essas mesmas canções a outros patamares, como o faria em adaptações que chegariam em muitos casos poucos anos depois. Passaram mais de 60 anos e, sabemo-lo bem, o mundo é completamente diferente. E entre muitas das realidades de então ou votadas à extinção ou a uma considerável perda de relevância mediática (não estou a dizer “artística”) está o universo discográfico dos musicais. E, de facto, poucos foram os espetáculos criados nos últimos anos, mesmo entre os de maior sucesso em palco, a conhecer um impacte em disco. Recordo-me, nos anos 80, de ver como Chess (que então assinalava a estreia de Benny Andersson e Bjorn Ulvaeus, dos Abba, nos palcos do teatro), gerou êxitos global com One Night In Bangkok, na voz de Murray Head e I Know Him So Well, por Elaine Paige e Barbara Dickinson. De então para cá houve experiências discográficas de sucesso novamente com os Abba na raiz do fenómeno (com Mamma Mia!) e, entre outras, uma edição sem grande impacte com os Pet Shop Boys em Closer To Heaven. Vale a pena lembrar aqui aventuras menos convencionais de teatro musical – contudo habitualmente referidas como óperas – com música dos Gorillaz ou até mesmo dos Beatles (como foi o caso de Love, banda sonora para um espetáculo do Cirque du Soleil). Tudo isto para frisar quão invulgar é, por isso, o projeto de gravação e edição que fez com que The Light Princess não esgotasse a sua vida nas memórias de palco de quem, eventualmente, tivesse visto a produção que o National Theatre apresentou em 2013.

A peça parte de um conto escocês do século XIX. Assinado por George MacDonald, narra a história de uma jovem princesa cujo corpo escapa à força da gravidade e, por isso, flutua no ar. Com temperos característicos de outros contos de príncipes e princesas, a história junta ainda um cenário com dois países em pé de guerra e uma trama que a colocará na linha de partida para um possível entendimento. Explorando, mais ainda do que no texto original, ecos do conflito de gerações latente entre personagens e vincando um papel ativo da mulher na sociedade que serve de cenário e moldura humana à história, a versão trabalhada com música de Tori Amos e letras coescritas entre a cantora e Samuel Adamson, procurou seguir, na trama e personagens, caminhos de aproximação a questões e contextos do nosso tempo. No plano da composição a atitude foi todavia mais classicista. O que não espanta tendo em conta não apenas as características centrais da obra de Tori Amos, sobretudo expressas em experiências mais recentes como as que apresentou discograficamente na Deutsche Grammophone, nomeadamente nos álbuns Night of The Hunters e Gold Dust, este último uma revisitação, com novos arranjos orquestrais, de temas de várias etapas da sua discografia.

É por isso em território classicista que se revela uma música que segue heranças naturais do teatro musical, sabendo inclusivamente como assegurar, pelas canções, marcas de identidade das personagens, estabelecendo ainda uma noção de corpo uno a toda a obra pela forma como usa certos temas e suas variações em várias ocasiões. O disco que agora chega aos escaparates não corresponde a uma gravação live, mas antes a uma – hoje mais rara – opção por registo em estúdio. Tori Amos começou por gravar a orquestra, levando depois os cantores (do elenco original) a sessões pontuais que seguiram as imposições geográficas das rotas pelas quais foi evoluindo a sua Unrepentant Geraldines Tour. No final, e como bónus, a própria Tori Amos interpreta dois números do musical – Highness in The Sky e Darkest Hour, em arranjos alternativos nos quais o piano surge como o principal interlocutor para os diálogos com a sua voz.

Não esperem por isso visões de um novo teatro musical, como o que os Gorillaz propuseram em Monkey Gone To The West ou os The Knife na ópera Tomorrow In a Year. Mas, antes, uma aventura (bem sucedida) de uma veterana da canção de autor que, optou aqui por visitar um espaço pelo qual tem apreço sem vontade de ali fazer estalar a revolução. E era preciso? Creio que não.

“The Light Princess” (Original Cast Recording)
Um musical de Tori Amos e Samuel Adamson
2 CD, Mercury Classics / Universal

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