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David Fonseca: “É difícil os artistas darem guinadas nos seus percursos criativos”

Texto: NUNO GALOPIM

O álbum “Futuro Eu” não revela apenas como novidade o facto de ser integralmente cantado em português. O modelo usado na sua apresentação revelou um novo modo de agir sobre o qual vale a pena refletir.

A ideia de ter uma nova forma para apresentar um disco surgiu antes mesmo das novas canções?
Não. Comecei pelas canções. Quando as comecei a escrever não sabia como iam resultar. Escrevi 40, das quais metade nunca verão a luz do dia. Vinte chegaram a estúdio. E dessas chegou a ideia de dali tirar um disco e os lados B. Aí é que a estratégia começou a fazer sentido. Tive de ter paciência. Por norma, quando as coisas estão feitas, quero lançá-las logo. Mas desta vez comecei a pensar que, visto que tinha um disco completamente em português, havia aqui um problema que tinha a ver com o público que me segue há tanto tempo e que, de alguma maneira, podia sentir-se meio deslocado nesta curva repentina. A não ser que apresentasse-mos isto desta outro modo. Aos episódios. E fazer com que isso deixasse de ser uma questão. Em vez de pôr o disco cá fora tentámos conquistá-los.

Deste um tempo para as pessoas descobrirem o que aí vinha…
Para se habituarem à ideia de que estava a fazer uma coisa um pouco diferente. Eu não queria que um disco em português me remetesse para um sitio mais indie. Fazer música alternativa não é a minha ambição. Queria que o meu público, que eu respeito imenso, tivesse uma oportunidade de se habituar à ideia de que poderia fazer outras coisas. É difícil os artistas darem guinadas nos seus percursos criativos. Somos muito conservadores. E resolvi fazer esta sequência de singles e lados A e B sem dizer nada a ninguém. Há um certo mistério da criação da qual estamos muito afastados por causa da iminência constante de uma linguagem de reality show e de concursos de talentos. O mistério da música começa por ela em si e não pelo acontecimento à sua volta. Mais do que o acontecimento queria surpreender através da música. E trazer logo agarrada uma ideia cinematográfica do que estava a representar ali. Esta foi a primeira ideia. Começamos a pensar em fazer quatro singles e não três. Mas isto demora mais tempo do que o que se pode supor. Não a fazer, mas a entrar nas pessoas.

Cada vídeo precisava de um tempo, é isso?
Precisava de um tempo, sim. Não podia aturdir as pessoas com canções de 15 em 15 dias. Tinha de esperar. Dar uma música ou duas e depois esperar um mês…

Sentiste que estavas também a recuperar uma fórmula de estreia de canções que era norma nos anos 70 e 80, quando os singles precediam um álbum?
Sim, sabia. Segui uma fórmula das Haim, que foi muito semelhante. Elas tinham quatro singles cá fora antes do disco. Fui um dos compradores desse disco e isso resultou muito bem para mim. É um modelo copiado do antigamente… Lembro-me de muitas coisas de um artista que não havia em disco nenhum e só depois é que se fazia um disco de sucesso. As pessoas aí queriam comprar uma compilação de singles e não um disco novo de um artista. Mas aqui não sabia como resultaria. Há sempre uma resistência da parte do público… Não sabíamos que canções conseguiríamos pôr na rádio. Mesmo assim resultou muito bem. Colocámos uma na rádio. E o Futuro Eu é quase uma carta de intenções. E o terceiro single é quase uma negação quase dos outros dois, num campo mais rock, numa área mais próxima dos Joy Divsion. Por isso eu queria baralhar um bocado. Todas as baladas, por exemplo, são lados B… E são todas mais difíceis, estranhíssimas. O público mais mainstream conhece-me sobretudo das músicas mais lentas. Mas estas não as lançámos. Ficaram para quando a ideia de eu fazer um disco em português já estivesse mais estabelecida e clara.

Os singles existiram em edição digital mas também em vinil. É uma vontade de seguir esta tendência recente que busca um reencontro da materialidade na música?
Sim, sou antigo nesse sentido. Quero que tudo o que faça tenha uma ideia material. Agora o importante é perceber se quem está do outro lado tem a mesma ideia. Porque pode não ter. Em 2003 fiz um disco com um livro na tentativa de materializar a ideia de um objeto físico. Desta vez fizemos isto com alguma segurança. Temos uma espécie de um fan club montado há imenso tempo e estes discos em vinil tiveram grande saída por parte dos fãs mais próximos. Ficaram alguns que guardamos para o merchandising, mas basicamente vendemos todos. O que quer dizer que, quando as pessoas têm alguma afetividade com as canções, o mercado dos objetos reais resulta claramente. Mas não sei se o futuro é esse. Acho que o futuro é a desmaterialização completa. O vinil vai continuar a existir… Mas o CD tem os dias contados. Porque não há nada que o defenda como objeto. Não é um objeto interessante. E está toda a gente a virar-se para o streaming. E é de facto muito atrativo para o ouvinte. O vinil sobrevive sim, mas com edições cada vez melhores, mais luxuosas, com uma atenção clara de quem os faz e dos artistas que estão por detrás disto tudo.

Este modelo levou-te a ter de criar muitos telediscos em pouco tempo. Foi também um espaço de trabalho a requerer esforço e ideias…
As imagens estão muito ligadas com isto tudo. O Futuro Eu foi o primeiro e para ele tinha uma ideia muito clara, com um piscar de olho ao Shining do Kubrick por causa das gémeas. Mas no fundo o que queria era filmar algo meio lúdico num espaço que falasse do tempo, daí o museu. E que depois incorporasse uma ideia de futuro, com duas amigas que eram o passado e o presente. E enquadrar tudo isso numa história cinematográfica… O mais difícil foi obter a autorização do Museu José Malhoa, mas felizmente o diretor viu aquilo como uma loucura saudável e esteve do nosso lado. Depois há experiências visuais, como o Sem Aviso, com uma sequência de ondas filmadas. O Chama-me Que Eu Vou levou um mês e meio a filmar, numa espécie de timeline de Instragram que nunca se repete. Queria pensar estas imagens como não apenas um reflexo de playback ou uma ilustração, que é uma coisa a que tenho horror, mas que pudessem expandir o que estava a fazer musicalmente. E para isso tinha de usar códigos que as canções habitualmente não usam, com o os do cinema, os de algum experimentalismo gráfico… Mas por norma há sempre piscadelas de olho aos universos do cinema, mais do que a quaisquer outros. E quando os universos da música e do cinema se cruzam, nasce uma terceira realidade, que é mais forte. Nasce uma tensão que inicialmente não existia na canção quando, por exemplo, vemos alguém a andar de bicicleta de noite. E agrada-me que a primeira vez que as pessoas estejam a ouvir as canções seja dessa maneira. Daí tê-las lançado através do YouTube. Há pessoas que acham que a minha música fica um bocadinho afastada do universo mainstream por causa disto. Porque usa códigos que não têm a ver com os videoclips mais comuns. E acho que talvez haja aí alguma razão. Só não acho que fique afastada. É mais uma forma diferente de o fazer. E espero que mais interessante. Porque há vídeos convencionais bem interessantes.

Todo o projeto dá uma ideia de que, ao músico, não basta ser apenas o criador da música. Há um papel de pensar a relação dessa música com quem a escuta. E com o mercado…
Que não se cruzam… Não acho que quem faz música tem de estar a pensar como se vai relacionar com o mercado no momento em que está agarrado à guitarra ou a olhar para um Pro-Tools. Há fases para tudo. Uma delas tem de ser mais livre senão corre o risco de ser aprisionada por uma espécie de opinião popular, que do meu ponto de vista é contraproducente. Mas há uma altura em que tem de entrar uma ideia clara de para quem é que a música se dirige e onde vai estar. Não vamos estar a misturar um tema de seis minutos a pensar que vai para a rádio, porque isso não vai acontecer. Todo o processo de produção chega a uma altura em que, como digo, têm de se chamar os senhores a sério para falarem uns com os outros. Temos de deixar a criança criativa e depois chamar os homens e saber como vamos levar o disco às pessoas. Isto não tem a ver com uma ideia de selling out. Muito pelo contrário, é uma preocupação clara de fazer chegar as mesmas canções a um público generalizado. E que eu acho que, a partir daí, quando o disco está pronto a ser replicado e para ser posto nas plataformas digitais, é que o trabalho verdadeiramente duro começa. Nada mais duro, no campo da música, fazê-la chegar a um sítio onde há uma concorrência absurda, de milhares de coisas que surgem a toda a hora.

Sentes que são grandes as diferenças no cenário ao teu redor face ao que descobriste com os Silence 4 em 1998?
Com os Silence 4 acho quem nem houve estratégia. O disco saiu e tivemos o apoio da XFM para fazer os concertos de lançamento… E uns cartazes na rua. E fomos tocar às “Velentins de Carvalho”. Não houve uma estratégia de marketing, com uma ideia de chegar às pessoas. Porque era mais fácil chegar ao público. Vivíamos numa altura em que, se fôssemos convidados a um talk show de televisão, tocávamos e éramos vistos por dois milhões de pessoas. Hoje qual é o programa que nos leva para ser visto por estes milhões? Eles existem, mas provavelmente são concursos de talentos, onde se vai talvez cantar com um concorrente. Ou então são programas que não têm a ver com a música e nos deixam num local desconfortável para defender aquilo em que acreditamos. E isso é que se torna mais difícil. E mesmo assim sou das últimas pessoas que se podem queixar. Porque a até tenho tido um alcance fora do comum para quem não está nesse território. Mas tem de haver outras estratégias.

O disco é hoje apenas um cartão de visita para fazer concertos?
Um disco é uma das partes de uma coisa maior. Quando se faz um LP, um conjunto de canções, o disco defende o teledisco, mais aquilo que se está a fazer em cima de um palco, o que digo numa entrevista, a forma como me relaciono com fãs nas redes sociais. Tudo isso é só uma coisa. Se a política tem de se pensar com uma ideologia, a música também. Imagino este disco como um todo que engloba tudo isto. Depois dou um concerto e a maior parte dos discos em vinil que vendo são na mesa de merchandising.

São espaços complementares?
Isso. Por isso pergunto. É o disco que faz chegar as pessoas ao concerto ou as pessoas estão a chegar ao disco pelo concerto? Às vezes é surpreendente ver como vendemos tanto vinil. Porque é o que se vende mais na mesa de merchandising. Mas isso tem a ver com a ligação emocional que as pessoas acabaram de ter no concerto e que querem ter assim um objeto com o qual se possam ligar a isso. E depois pelo artista estar presente… E essa materialização da música torna-a em algo real, que se pode pendurar em casa e ouvir.

E como comprador, como fazes?
Eu raramente escuto CD nos dias que correm. Oiço muitas coisas em streaming, sobretudo no carro. E em casa oiço vinil. E compro muito vinil. O CD deixou de me atrair.

Nem toda a tua discografia está em disponível em vinil…
Adorava tê-la em vinil. Mas é um investimento caro para o número de discos em vinil que se vendem em Portugal. Apesar de haver um ressurgimento, entre nós ainda não é impactante do ponto de vista de uma empresa como a Universal. Hoje são feitas edições de 300 exemplares. Toda a gente as faz e ficam muitos nas prateleiras, o que é um sinal difícil e que mostra esse hype do vinil. Mas acho que, se os fizer, em dois ou três meses conseguia vendê-los todos.

Fazer um disco em português é aqui uma novidade maior. Como surgiu a ideia, após tantos outros cantados em inglês?
Acho que houve aqui um fenómeno de oposição. O último disco que fiz foi muito duro para fazer uma ideia muito estranha e acabei a fazer dois discos no espaço de um ano o que, do ponto de vista criativo, é aterrador. Depois, durante um tempo não queria fazer música. E atravessei um deserto sem saber o que ia acontecer, isto apesar de continuar a fazer concertos. Entretanto houve aquela ideia da Sofia, que nos convidou para fazer um retorno dos Silence 4. Eu, que sou anti-nostalgia, vi que não haveria momento melhor para fazer aquilo do que aquele. E estou muito contente por o ter feito. Era uma daquelas oportunidades na vida para fazer uma coisa com um sentido que não o de irmos ganhar dinheiro. Mas ao aceitar isso senti que me ia meter num sitio muito complicado, que é o da nostalgia. Não tenho essa tendência de olhar para o passado e reviver as memórias e achar que isso é espetacular, como muitas pessoas fazem. E então elaborei uma estratégia. Tínhamos ensaios às segundas, terças e quartas. E depois do ensaio pegava no carro e ia para Peniche, onde montei o meu “estaminé” e comecei à procura de outras coisas, por oposição ao passado dos outros dias. Isso colocava-me em duas esferas diferentes. Mas ninguém, além da minha família, sabia que o estava a fazer. Nem mesmo os outros Silence 4. De um lado estava um tipo que tinha começado a cantar em inglês e, do outro, um que estava a tentar reinventar… Não era isto o que tinha na cabeça, porque na verdade o que queria era experimentar. E ouvia muito os Volcano Choir, porque havia qualquer coisa que me agradava ali do ponto de vista da canção, ao mesmo tempo que não se afastavam de um certo experimentalismo. E isso agradava-me. Comecei por aí… E no meio dessa confusão experimental apareceu uma frase em português. E depois há coisas que são difíceis de explicar. Mas aquela frase, que era simples e banal, ressoou mais do que o que tinha feito naqueles dias todos. Ia fingir que aquilo não tinha acontecido? Não… E então comecei a perseguir isto. E foi duro. Acabei essa canção… Mas já não tenho 20 anos. Nessa altura o que se faz parece incrível, porque o que se faz criativamente tem a ver com o próprio ego. Ou seja está-se contente porque se fez uma coisa e não necessariamente porque a coisa é boa. Aos 40 tenho um sentido autocrítico muito duro. E se ia começar a escrever em português tinha um problema grave. O que fiz foi arranjar uma máquina de escrever, que era uma forma de não poder apagar. E de tentar uma ideia romantizada da escrita. E durou semanas… Durante dias escrevi nessa máquina de escrever na casa de Peniche. Contos, cartas a amigos, ideias de diários, poemas horríveis. Tentei ligar uma ideia emocional à língua portuguesa, coisa que nunca tinha feito de forma mais presente. E só depois de escrever e também riscar é que entendi… Fiz várias paredes criativas. Era preciso balizar onde ia estar. Fiz regras. Não cantar poesia era uma delas. Estava a ler o Eugénio de Andrade e a Sophia, e pensava que aquilo era impossível de ser musicado. Eram universos que passavam ao lado da música. A música aí ia dilacerar… Então tinha de partir de um sitio diferente da ideia da poesia para depois musicar. A outra regra era que não escrevesse nada do que eu não dissesse. Domino melhor o português do que o inglês, claro. E não podia usar essa arma como uma forma de parecer mais do que aquilo que sou. O que estava escrito era para ser eu próprio e não inventar muito. Tinha de ser honesto para comigo próprio. E enquanto fosse natural conseguiria chegar lá… E foram meses disto. Fiz as tais 40 canções, das quais 20 foram para o lixo. As outras 20 chegaram ao estúdio e gravámos. O processo durou cerca de um ano. E só com muita quantidade de informação e de material é que poderia dizer que isto era melhor do que aquilo e ter um ponto de autocrítica que me permitisse estar à vontade com a ideia de lançar um disco em português.

A canção Futuro Eu parece uma carta de intenções não só do projeto mas do momento na tua própria vida. Em que etapa do processo surge esta canção?
Foi das que gostei mais de fazer porque usa uma série de ideias que não costumam estar muito presentes na minha música que, por norma, tem mais complexidade harmónica. Essa seria uma escola mais próxima do que o David Bowie fez, um piscar de olhos a um David Byrne, naquela fase dos Talking Heads em que quase não havia sequências de acordes e era quase tudo uma jam. Tudo Davids… Entendi aquilo como uma carta de intenções. Um preacher… Isto só poderia aparecer a meio, quando já estava com uma pedalada imensa. Já tinha maior segurança em usar expressões e formas de comunicar o mais simples possíveis. Era uma canção longuíssima, com solos e ideias muito loucos, com vários momentos. E quando chegamos ao estúdio cortámos muito, para que ficasse espontânea, como teve no início. É um riff que a segura toda. E em toda a minha carreira é a minha primeira incursão no funk. Sem pretensões de ser um funk sério, porque não há nada pior do que um funk branco. Queria uma coisa mais pop e traduzi tudo aquilo nos teclados.

É também uma forma de dizer cheguei a meio do percurso de vida?
Como digo, sê um homem sem esquecer o miúdo. Há aquela ideia de que a chegada dos 40 traz sempre uma crise e uma reflexão. Essa reflexão acontece em muitas idades, não só aos 40. Lembro-me de um embate emocional com as questões da vida aos 21 anos… Ao longo do tempo foi passando ciclicamente por questões que têm a ver com a idade e com o envelhecer. Quanto mais para a frente vou, e neste momento tenho 42, aprecio a minha idade cada vez mais. Lá está outra vez um certo desprezo pela nostalgia e a ideia de ser jovem. Vivemos numa sociedade que se quer sempre jovem, que vê o jovem como o que traz alguma coisa boa. E não é assim necessariamente. O problema é vivermos numa certa redoma a partir de um certo momento, quando assimilamos a ideia que já não somos essa pessoa. E somos, desde o início. E é isso o que esta música quer dizer. Não suporto quando se diz que o melhor já lá vai. O Futuro Eu tem então essa ironia do preacher que quer assinar qualquer coisa. E eu não quero ensinar nada a ninguém, só a mim próprio.

Ao escrever em português encontraste outras formas de abordar as tuas temáticas?
Os temas são os mesmos. A grande diferença é que, quer queria quer não, o inglês é uma espécie de segunda pele. É uma máscara. É uma forma de colocar uma coisa em frente que me dá a ilusão de que é mais fácil expor-me. O português tira isso e as coisas ficam à minha frente. É como os óculos. Com óculos estou em português, vejo as coisas como são e tenho de as olhar de frente. E isso muda as coisas. Há dez anos se me dissessem que ia escrever em português teria sentido cada palavra como um martelo que estilhaçava tudo à minha volta e encarava-o com muito temor. Agora mal posso esperar para ver esse martelo cair à minha frente. E essa é a grande diferença. Olho para as coisas e penso até como é que posso fazer com que o martelo ressoe ainda mais. É provável que regresse à escrita em inglês, até porque essas coisas não se escolhem, mas é provável que este processo tenha também mudado a minha escrita em inglês. Só saberei quando experimentar. Mas não sei quando isso vai acontecer. Mas para já tenho de ter calma…

Na estrada como se lida com a obrigação de ter de repetir canções?
Muito bem. Sou uma pessoa bem resolvida com isso. Mais do que um autor que está ali a tocar as suas canções sou antes disso um ouvinte. E o ouvinte que comprou o bilhete quer ouvir aquilo. E tenho um respeito imenso por isso. Entendo o esforço que as pessoas fizeram para jantar mais cedo e pagar aquele bilhete. Há um ano o Justin Bieber chegou três horas atrasado a um concerto. E quem o veio atacar foi o John Bin Jovi, dizendo que aquele miúdo não respeitava a working class que estava a dar-lhe dinheiro e que ele devia respeito pessoal a cada um deles. Alguma vez pensara concordar com o Bon Jovi! Mas entendo o que quis dizer. Especialmente num país como o nosso, quando sei que é difícil às pessoas da classe média terem oportunidade para estar dentro de um teatro e gastar dinheiro com cultura, por isso tenho de respeitar e ir de encontro a eles. Parte do espetáculo é para apresentar uma coisa nova que quero que as pessoas gostem, mas na outra é preciso revisitar coisas que as pessoas estão à espera que eu toque. Quando as pessoas aplaudem aos três acordes de uma canção que reconhecem o aplauso é para elas e para o lugar que aquela canção ocupou nas suas vidas. Não vejo aquilo como uma coisa para mim. Não tenho o complexo de Deus que acha que é tudo para mim.

Como imaginaste um espetáculo onde, agora, às novas canções em português vais assim juntar essas outras, em inglês?
É difícil, é bicéfalo. Tenho pensado muito, temos ensaiado… Há coisas que são de facto muito distantes umas das outras. Mas uma das formas de resolver é ser claro em definir que as duas coisas fazem parte da minha vida e isso é impossível de separar. Sou a mesma pessoa.

Pensas fazer alguma coisa com o corpo de versões que tens tocado ao vivo e, algumas delas, lançado ou via internet ou nos discos do fan club?
Há coisas que só lançamos online, outras saem naqueles discos exclusivos para o fan club. Esse fan club foi das melhores ideias que tive. Porque pus as pessoas mais perto e deu-me oportunidade de fazer outras coisas, como discos de versões só com quatro canções. Num mercado como o de hoje em dia isso não serve de quase nada. Agora gostava de fazer um dia algo com todo esse corpo de trabalho que está fora da discografia… E tenho ali mais de vinte temas, entre colaborações e outras coisas. Mas isso dá-me um certo orgulho. Consegui estabelecer uma filosofia de trabalho que vai para além daquilo a que o mercado nos obriga a fazer. Mas terei um dia uma oportunidade de juntar essas peças todas, porque gosto de fazer isso. Mas não vai ser para já. Para agora há o chamamento de fazer uma coisa nova e não o de olhar para uma retrospetiva. Se calhar quando acontecer será uma edição luxuosa em vinil e o resto em streaming.

Já estás a pensar na canção de Natal para este ano?
Ainda não, mas tenho de começar a pensar na que vai ser. Se houver alguma sugestão espetacular… Já explorei muito as mais conhecidas. Depois há os cancioneiros populares. E há coisas que gostaria de explorar além das canções de natal. Para mim têm a ver não só com a canção mas a sua visualização online. E acaba por ser um desafio duplo: como faço a canção e como a apresento para que tudo seja um momento feliz. No fundo a minha tentativa com a canção de Natal é a de me associar a uma certa felicidade da época. Por um momento não vou falar de desgraças nem melancolias, mas fazer uma coisa que seja divertida e positiva. E, confesso, é das coisas que mais gosto de fazer. Começou com uma brincadeira e já vou não sei em quantas canções de Natal. O disco de Natal da Kristin Hersh é dos meus preferidos de todos.

(Entrevista reproduzida por cortesia da revista ‘Time Out”)

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