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Pelas memórias e arquivos de palco dos OMD

Texto: NUNO GALOPIM

Uma edição de gravações de arquivo com mais de 30 anos e um registo recente de palco, com as canções de “Dazzle Ships” na berlinda, juntam dois títulos “live” à discografia dos Orchestral Manoueuvers in the Dark.

Tornou-se já quase uma regra natural as bandas terem uma primeira vida, depois uma separação e, passados uns anos, um reencontro em tempo de estabelecer ligações com os desejos de nostalgia dos admiradores que, como os músicos, também cresceram. Os Orchestral Manouevers in the Dark viveram várias etapas ao longo de uma carreira que começou ainda nos anos 70 e, pelos noventas, estava longe de respirar o viço de outrora, quando álbuns como Architecture & Morality (1981) e o magnífico e mais ousado Dazzle Ships (1983) do grupo fazia uma das forças a ter em conta no panorama de uma nova pop electrónica que então tinha emergido em solo britânico. Como tantos outros colocaram um ponto final, partiram para outras experiências e, anos depois, voltaram a vestir as velhas camisolas, promovendo por um lado a revisitação de velhos êxitos, mas revelando em álbuns novos como History of Modern (2010) e English Electric (2013) uma vontade em adaptar a sua linguagem mais clássica a novos conjuntos de canções, traduzindo esses discos algumas das raras experiências de regresso a uma atividade criativa que não envergonharam memórias de outros tempos. Contudo, o que de melhor tem tido a reativação dos OMD tem sido a vontade em levar a sua música ao palco, coisa que não encaixava muito nas suas rotinas de outrora. E entre os programas que já levaram a palco, e seguindo este gosto tão em voga de interpretar velhos álbuns de fio a pavio, começaram por apresentar Architecture & Morality (o seu maior trunfo). Ao que fizeram seguir, depois, uma interpretação de Dazzle Ships, o disco “maldito” que viu o grupo a desafiar normas vigentes e a própria perceção que o mercado tinha da banda e que na altura lhes custou valentes quebras nas vendas…

Um registo desta digressão, na qual Dazzle Ships foi a pièce de resistance, surgiu recentemente num registo igualmente disponível em áudio (CD e digital) e vídeo (DVD), captando uma atuação no Museum of Liverpool. E aqui, e além de uma competência conquistada em palco (que é notória ao escutar a gravação), há que sublinhar o facto de uma instituição como a que acolheu aquela noite assim celebra um dos importantes legados da cultura pop de uma cidade que, musicalmente, não se esgota de facto nos Beatles e toda a cultura Mersey Beat, nem nos descendentes mais rock das bandas que emergiram no Eric’s em finais dos setentas, dos Teardrop Explodes aos Wah!, Dead or Alive ou Echo & The Bunnymen. Os OMD eram ali uns alienígenas. Mas a sua música juntou-se à dos contemporâneos (mas não conterrâneos) Human League, Depeche Mode, Soft Cell ou Carabaret Voltaire para sublinhar algo de novo que então emergia na música pop made in UK.

Ao registo deste concerto, que junta aos temas Dazzle Ships algumas canções de outras etapas, das mais remotas às criadas já depois da reunião pós-milénio, o panorama live dos OMD somou recentemente a edição de gravações de arquivo de uma atuação televisiva realizada entre o primeiro e segundo álbum da banda. Sob o título Acess All Areas – Orchestral Manoueuvers in the Dark – este cuto retrato (de apenas 22 minutos) capta a essência de uma ideia em tempo de afirmação e que, mesmo longe de capaz de dominar o desafio do “ao vivo” (e basta escutar a voz para o notarmos), era firme no desenhar de uma rota que procurava uma nova linguagem para a pop usando as electrónicas como ferramenta primordial.

Ambas as edições são mais curiosidade para velhos admiradores do que peças verdadeiramente consequentes no panorama pop de 2015. São contudo marcas de vitalidade de um projeto veterano que, juntamente com outros da sua geração, nos começam a habituar ao facto de a pop electrónica ser já uma realidade com história suficiente para desencadear este tipo de relação com a memória.

“Dazzle Ships at the Museum of Liverpool” está disponível nos formatos de DVD, CD e digital em edição pela Pledge Music.
“Acess All Areas – Orchestral Manoueuvers in the Dark” está disponível nos formatos de DVD, CD e digital em edição pela Edsel.

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