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Há ovnis na Antártida?

Texto: NUNO GALOPIM

Uma teoria da conspiração do pós-guerra serve de cenário a “Mission Antarctique”, o mais recente álbum de Lefranc, personagem criada nos anos 50 por Jacques Martin.

O mito dos discos voadores nazis (que usariam um propulsor que chegou a receber por designação V-7 num livro publicado em meados dos anos 50) alimentou uma teoria da conspiração que dava conta, alguns anos depois do fim da II Guerra Mundial, de que teriam sobrevivido equipas técnicas e militares ligadas ao III Reich que, estacionadas em vários lugares possíveis, teriam desenvolvido novas armas e veículos, vivendo uma existência adormecida até eventual ordem de entrada em ação. O ártico, a África do Sul e a Antártida foram destinos apontados para estas bases. E é a um desses lugares que ruma a 26ª aventura de Lefranc, herói concebido por Jacques Martin na alvorada dos anos 50, poucos anos depois de nos ter dado a conhecer a figura de Alix, a sua mais célebre criação.

Tal como Tintin e Ric Hochet (que apareceria pela primeira vez três anos depois deste herói de Jacques Martin), Lefranc é um jovem e talentoso repórter. Tem trabalho fixo numa redação – que ocasionalmente é representada – e tem entre a carteira de figuras mais próximas o comissário Renard, o jovem Jeanjean (com quem estabelece por vezes uma parelha semelhante à existente entre Alix e Enak) e, como maior inimigo o vilão Axel Borg.

Criada em 1952, a figura de Lefranc permitiu a Jacques Martin explorar ecos da história recente, nomeadamente da França após a ocupação alemã e o surgimento de uma nova ordem global que surgira depois da guerra e que acabaria conhecida como “guerra fria”. La Grande Menace fez a estreia de Lefranc na revista Tintin em 1952, seguindo-se dois anos depois a sua publicação em álbum. O impacte maior que La Grande Menace obteve na França e Bélgica deu a Lefranc uma vida que transcendeu a ordem inicial para criar apenas uma aventura. E, depois de três volumes de sucesso, Jacques Martin começou a confiar a condução do desenho, mais tarde também do argumento, a outros colaboradores, representando a dupla que assina o novo Mission Antarctique uma renovação de equipa após uma série de volumes, salvo raras exceções, com desenhos de A. Taymans ou Régric, sendo o argumento de facto confiado a mais autores.

Christophe Alvès, com experiência em séries como Dusty Dawn ou Malgret, assegura aqui uma clara continuidade da linha clássica de Jacques Martin, mantendo mesmo fiel uma certa linguagem atenta aos detalhes da arquitetura, dos mecanismos, veículos e espaços para uma imaginação quase de ficção científica na linha de um Blake & Mortimer, realidade que habita as aventuras de Lefranc desde o início e que chegou mesmo a gerar um pontual desentendimento entre o seu criador e Edgar P. Jacobs.

Por seu lado, a trama escrita pelo veterano François Corteggiani – que por vezes assina como Pujol e que já colaborara no universo das personagens de Jacques Martin em L’Ombre de Sarapis, da série Alix – revela não só uma estrutura bem arrumada como um ritmo de fulgor cinematográfico, justificando o álbum mais um argumento em favor de uma adaptação das aventuras de Lefranc ao grande ecrã que, já por vezes mencionada, até hoje está ainda por se concretizar. Sem tirar o prazer da descoberta ao leitor, fica apenas a sugestão, como se de um trailer se tratasse, que em Mission Antarctique, a Lefranc é confiada uma missão mais de agente secreto do que de jornalista (nada de novo por aqueles lados), levando-o ao grande continente gelado no pólo sul para recolher informações de uma possível base nazi que esconde não apenas tecnologia mas tesouros artísticos roubados nos dias da guerra. Axel Borg não falta à chamada. E por aqui não digo mais… Apenas que, depois de uma apenas interessante aventura em cenário cubano em tempo de revolução no anterior Cuba Libre (2014), neste volume Lefranc vive uma das suas mais sólidas missões dos últimos anos.

Como extra vale a pela lembrar que esta personagem é algo desconhecida entre nós. A Bertrand chegou a traduzir O Mistério Borg (o terceiro álbum da série) em 1982. E houve narrativas publicadas em revistas de BD, entre elas a Tintin. Mas, até hoje, Lefranc continua a ser uma presença quase muda no panorama da BD traduzida em Portugal.

“Mission Antarctique”, de C. Alvès e F. Corteggiani, acaba de ser publicado pela Casterman, numa edição de capa dura com 56 páginas.

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