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A mulher triplicada

Texto: DANIEL BARRADAS

A Lisboa futurista de “On the Steel Breeze” merece ser a oportunidade para finalmente se editar Alastair Reynolds em Português.

Imaginem que não há países, que não há razões para matar, que não há religiões. Imaginem todas as pessoas a viver a vida em paz…. Por muito que isto faça uma boa letra de canção, à partida não parece a mais excitante premissa para um livro de ficção científica. E no entanto é precisamente este o cenário de fundo para a extraordinária ópera espacial que é On the Steel Breeze do britânico Alastair Reynolds.

Peguei neste livro numa livraria porque há alguns anos tinha lido o excelente House of Suns e queria saber o que o autor andava a escrever mais recentemente. Abri-o na primeira página e bastou ler a primeira linha para me dirigir à caixa para o comprar:

“Ela estava a caminho do Elevador de Santa Justa quando viu o fantasma outra vez.”

Afinal de contas, quantos livros há por aí a imaginar Lisboa no século XXIV?

Quem não segue o mundo da literatura de FC provavelmente não estará a par da recente controvérsia que rodeia o prémio Hugo (o mais antigo e prestigioso da FC). Por ser um prémio votado pelo público, surgiu há poucos anos uma facção que acha que ultimamente o prémio tem sido atribuído demasiadas vezes a obras e autores por motivos “politicamente correctos”, seja por questões de género, orientação sexual ou raça, em detrimento de “bons livros” com (ou escritos por) homens brancos. É claro que isto tem dado pano para mangas em discussões de internet que não importa para aqui referir. Mas é neste contexto que aparece On the Steel Breeze (que na verdade é a segunda parte da trilogia Poseidon’s children, mas que vale perfeitamente por si só enquanto romance). O homem branco que é Alastair Reynolds parece, seja por pirraça ou desafio, ter pegado em todo os desejos de futurismo politicamente correcto que circula em qualquer facebook do comum mortal de hoje e feito uma caldeirada para chegar ao futuro optimista e quase utópico que nos apresenta. À partida poderia parecer um beco sem saída mas ele transforma aparentes limitações num dos mais interessantes e estimulantes cenários de ficção científica dos últimos tempos.

Estamos então no século XXIV. A raça humana sobreviveu aos desastres ecológicos do aquecimento global e a partir de África lançou as bases de um novo programa espacial que colonizou a Lua, Marte, Venus, algumas luas de Saturno e segue ainda em direcção a outro sistema solar. Modificações genéticas levaram ao surgimento de humanos adaptados à vida no oceano e que conseguiram salvar cidades costeiras como Lisboa da subida no nível das águas graças aos diques marítimos que constroem. O planeta Terra ficou livre de crime porque tudo é vigiado. A guerra é uma memória distante e a violência e o crime coisas raras. A esperança de vida aumentou até quase aos trezentos anos. A diferença entre humanos e inteligências artificiais é pouca e as grandes mentes da ciência são mulheres ou indivíduos de género neutro.

A personagem principal do livro são na verdade três. Chiku Akinya, uma mulher descendente da família africana que impulsionou a conquista espacial, é a voluntária numa experiência que a triplica. É clonada em dois corpos extra e avançados processos médicos copiam o estado do corpo original para os clones. A partir desse ponto ela é a mesma pessoa em três corpos. A experiência é dar vidas diferentes a cada uma das suas versões, que são nomeadas por cores. Chiku Amarela fica na Terra, Chiku Verde segue numa caravana de naves que parte para colonizar um distante planeta noutro sistema solar e Chiku Vermelha parte em busca da nave perdida da sua avó, uma das pioneiras da exploração espacial.

A história inicia-se (e termina) em Lisboa, a cidade onde Chiku Amarela escolheu viver por se ter apaixonado por um artesão de guitarra portuguesa (que bom saber que no século XXIV ainda há fado!). Uma mensagem vinda de Chiku Verde revelando um segredo de família descoberto no espaço (com implicações para toda a humanidade) vai espoletar uma aventura que cobre todo o sistema solar e mais além, ao longo de uma invulgar linha temporal graças à relatividade e animação suspensa a bordo de naves espaciais.

O que se torna fascinante neste romance é precisamente toda a plausibilidade científica das mais bizarras situações. Não há exactamente conceitos novos ou uma futurologia rebuscada. O que há é uma incrível capacidade de Reynolds de explorar situações de valor humano e tecer um complexo enredo sem o peso de ter de explicar a ciência do cenário ou justificar os voos da sua imaginação. Estando o leitor dentro de conceitos de futuro relativamente familiares, Reynolds está também à vontade para extrair deles o máximo valor dramático.

É por exemplo esse o caso dos elefantes que seguem a bordo de uma das naves coloniais. Como uma das personagens refere: se os humanos não tiveram escrúpulos em quase exterminar essa raça animal, porque haveriam de os ter em os modificar geneticamente para que possam desenvolver inteligência e ser capazes de colonizar outros planetas? Não haverá nisso algum equilíbrio e justiça poética?

Passado aquele momento de estranheza a roçar o ridículo em que consideramos elefantes em naves espaciais, Reynolds serve-nos um drama bem humano, capaz de nos devolver a verdadeira dimensão que temos no grande universo enquanto raça inteligente: muito pequena.

Outro valor de Reynolds é a competência poética da sua prosa. Ele passa de descrições de máquinas e conceito científicos para cenas de acção ou diálogos mundanos e dramáticos com uma agilidade graciosa, mantendo sempre um nível superior de linguagem. Acrescente-se a isso seu optimismo, a sensação que prepassa por toda a sua escrita de que o futuro será sempre melhor do que o presente, por mais erros, dúvidas ou medos que a condição humana provoque.

Apesar de ser o segundo volume numa trilogia, On the steel breeze vale por si só e é um bom ponto de entrada para a obra de Alastair Reynolds. Talvez o cenário da Lisboa futurista seja o impulso que algum editor precise para que finalmente este autor essencial da ficção científica contemporânea seja finalmente traduzido para português.

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