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Jean Michel Jarre: “Nunca sabemos como surge o sucesso, é uma coisa muito misteriosa”

Texto: NUNO GALOPIM

Um dos pioneiros do trabalho com electrónicas nos espaços da música popular, Jean Michel Jarre apresenta seu novo álbum ao mesmo tempo que evoca histórias e reflexões de uma carreira que já soma mais de 40 anos.

A caminho de assinalar os 40 anos sobre o lançamento de Oxygène, que é um marco na história da música electrónica, Jean Michel Jarre faz do seu novo projeto um espaço de diálogo entre si e músicos de várias gerações. Nomes como os de Edgar Froese (dos Tangerine Dream), Moby, Air, Vince Clarke, Lauire Anderson, M83, 3D (dos Massive Attack), Fuck Buttons ou John Carpenter, juntam-se num disco que abarca assim quatro décadas de experiências, linguagens e relacionamentos.

Acaba de lançar Electronica – Vol 1: The Time Machine, um álbum que junta músicos seus contemporâneos e outros que, de certo modo, podemos ver como seus descendentes. E cabem todos no mesmo projeto… A música electrónica é, desde logo, a linguagem comum a todos…
Estive muito ocupado nestes últimos tempos. Foram precisos quatro, quase cinco anos, para completar todo este projeto desde o dia em que o comecei a conceber até aquele em que a música foi finalmente editada. De resto Electronica ainda não está terminado, porque estou a trabalhar neste momento na segunda parte que terá lançamento em fevereiro do próximo ano. A ideia era a de juntar artistas que admiro e que de certa maneira foram fonte de inspiração para mim ligados, direta ou indiretamente, à cena da música electrónica, e cobrindo assim quarenta anos de criação música, ou seja, desde que comecei. Depois foi a etapa de trabalho…

Como contactou os diversos colaboradores que chamou a este projeto?
Há hoje em dia um hábito de fazer colaborações que se resumem a enviar ficheiros pela net, sem que as pessoas se encontrem de facto. E muitas das coisas são feitas sem contacto pessoal, a não ser que seja exigido por motivos de marketing. Com este projeto a minha ideia era a de viajar e encontrar-me fisicamente com todos os artistas com os quais queria trabalhar. Antes do encontro havia já uma peça musical, uma maquete criada em função da ideia que tinha face a cada potencial colaborador, mas deixando espaço para que cada um depois de pudesse expressar. Toda a gente aceitou colaborar… E com tantas ideias e colaborações nas mãos optei por fazer dois álbuns e não apenas o que inicialmente tinha imaginado.

Um dos colaboradores que chamou foi Edgar Froese, dos Tangerine Dream, um contemporâneo seu…
Foi o último trabalho que fez…

No disco junta várias gerações de músicos e, com eles, necessariamente formas bem distintas de trabalhar formas e linguagens da música electrónica…
Sim, de facto. Ao ter o Edgar Froese, os M83 ou Gesaffelstein estava a chamar pontos de vista bem diferentes sobre a minha música. Eu e os Tangerine Dream começamos a fazer música mais ou menos na mesma altura, por isso temos em comum um percurso longo. Para os M83 ou Gesaffelstein eu sou um pioneiro porque estava lá quando começaram a procurar as suas influências. Quando eu comecei a fazer música electrónica não tinha heranças. Tinha um professor, chamemos-lhe mentor, que foi Pierre Schaeffer… Mas não havia uma história para a música electrónica então. Agora para estes novos artistas, quando começam, há uma história de quarenta anos com muitos artistas relevantes. E só por isso as abordagens são desde logo necessariamente diferentes. Mas ao pegar em temas como Zero Gravity, com os Tangerine Dream ou Immortals, com os Fuck Buttons, para quem não sabe quem é quem ou não conhece o contexto será difícil identificar se foram feitas com colaboradores na casa dos vinte anos ou dos sessenta. De certa forma há um sentido de intemporalidade que é muito específica. Esta é uma música que não tem nada a ver com a América, com o jazz, os blues, o rock… Veio da Europa. Veio da Alemanha e da França… E colhe heranças da música clássica, da tradição de peças instrumentais longas, que não estão necessariamente formatadas segundo a ideia de canção. Mesmo se mais tarde o electropop e alguns idiomas americanos tenham levado a música electrónica para mais perto dos formatos da pop.

Há diferenças substanciais entre a música electrónica que, nos anos 70, estava a surgir na Alemanha e na França?
Quando comecei a fazer música electrónica não havia mais ninguém a fazê-la em França e quase ninguém na Alemanha. Foi muito antes da Internet e não tínhamos contacto real uns entre os outros. Íamos trabalhando em laboratórios e estúdios. Lembro-me de, quando peguei pela primeira vez no Autobahn, dos Kraftwerk, ter achado que seriam uma banda californiana a cantar em alemão… Pensava que eram uns Beach Boys techno… Parecia-me até uma coisa bem cool, a ideia de uma banda americana a cantar em alemão… É claro que acabei por saber que eram afinal alemães, mas a verdade é que estávamos muito afastados. Nessa altura os alemães estavam a abordar a música electrónica de uma forma mais robótica e fria. Eu tinha uma abordagem mais impressionista. Seria uma coisa mais latina ou mesmo francesa, com uma valorização da melodia e com heranças de Ravel, Debussy, Satie… Mais aquelas influências da arquitetura e do cinema francês e mesmo da pintura dos impressionistas. O facto de procurar criar paisagens sonoras, de optar por abordagens mais orgânicas na criação dos sons, das frequências, das ondas… Abordagens mais tácteis…

Como foi acompanhando as linhas evolutivas que foram surgindo coma evolução das formas musicais depois da sucessão inicial de discos que fixou as bases da sua linguagem?
A música electrónica para mim é uma coisa viciante. Há momentos de prazer e a noção de que não posso fazer mais nada. Sempre tive interesse em ir ouvindo o que me ia atraindo. Quando se passa muito tempo a trabalhar num sector acabamos por definir redes de relacionamentos… E com a internet chegou depois ainda mais informação. Passei a ter contactos diários com muitas fontes, pessoas a descobrir coisas… Ao mesmo tempo que por vezes acabamos até a nos redescobrirmos a nós mesmos. A coisa funciona em ambos os sentidos.

Nem todos os seus discos resultaram em sucessos colossais. Um disco como Zoolook está ainda à espera de ser redescoberto? É um disco importante no estabelecimento de relações possíveis das máquinas com a voz e junta até a presença de Laurie Anderson, com quem voltou a colaborar em Electronica
É um dos meus discos preferidos!… Por vezes temos discos na nossa vida sobre os quais temos muitas expectativas mas que não encontram um público com esse mesmo entusiasmo. Às vezes as coisas estão mais em fase ou em contraciclo com o que está a ser ouvido, com o que está mais underground… Nunca se sabe… Trabalhei tantos anos neste novo projeto Eletronica mas, até ao dia do lançamento, não tinha ideia de como seria acolhido… Parece que o feedback está a ser mesmo muito bom, o que me deixa feliz por mim e pelos demais colaboradores envolvidos. Mas na verdade nunca sabemos como surge o sucesso. É uma coisa muito misteriosa.

Acha que a ideia de que era o homem dos mega-concertos ao ar livre fez com que as pessoas não tivessem noção das outras dimensões e caminhos da sua obra?
Concordo absolutamente com essa visão. Os concertos e a dimensão do sucesso dessas atuações criou uma espécie de cortina de fumo entre a música e o público. As pessoas estabeleceram um contacto através do som dos grandes êxitos em vez de partirem à descoberta dos álbuns por si… Curiosamente quando terminei esta etapa do projeto Electronica não pensei no palco. Era então um projeto musical discográfico sem qualquer ideia de palco. Só depois comecei a juntar ideias para uma digressão mundial. Mas é verdade que, a dada altura, o sucesso dos grandes concertos ao ar livre criaram essa cortina que impediu que as pessoas prestassem mais atenção ao real sentido de cada álbum.

Foi por isso importante ter feito digressões com outro aparato, como aconteceu quando apresentou Oxygène, tendo outro tipo de contacto com as pessoas, que assim prestaram mais atenção à música e não aos efeitos visuais?
A dada altura quis partilhar com o público toda a alegria e entusiasmos que há na criação musical, que na verdade é algo muito semelhante à culinária. E queria convidar, assim, as pessoas a entrarem na minha cozinha. Foi o que fiz nessa Oxygène Tour… No futuro gostaria de tentar juntar essas duas realidades. Encontrar um formato em que poderia estar a solo, mas ter também expressões possíveis em arenas ou ao ar livre.

O álbum Oxygène foi criado, originalmente, num estúdio montado na sua própria cozinha…
Sim, é verdade.

Não é curioso que, 40 anos depois, a música electrónica possa novamente ser criada em casa, num pequeno quarto?
No DNA da música há um lado de solidão. É uma atividade solitária… Um como como o trabalho de um escritor ou o de um pintor. E foi por isso que quis partilhar experiências com artistas de que gosto num patamar ligado ao processo criativo. Num estúdio caseiro estamos sozinhos… Estamos nus, com todas as nossas dúvidas e fraquezas. E quando alguém abre a porta a sensação é tocante…

Mas nunca fechou a porta a diálogos e colaborações… Basta lembrar a orquestra chinesa nos concertos de 1981…
Há sempre um lado de desafio em tudo o que fazemos artisticamente. O que fazemos em estúdio ou mesmo em palco é sempre um desafio. Não sabemos para onde vamos no passo seguinte… E no fundo é isso que ativa o instinto que nos leva a continuar.

Tinha essa ideia de desafio face a tudo e todos, até mesmo face a si mesmo, quando lançou em 1983 o álbum Music For Supermarkets apenas com uma cópia, num gesto em tudo diferente do habitual no mercado da música popular gravada?
A indústria da música sempre cometeu muitos erros. E o Music For Supermarkets era uma reação ao facto de o mundo da música se ter transformado numa indústria, vendendo os discos como pasta de dentes ou sabonete. Pensei que o mundo da música estava a jogar um jogo muito perigoso…

O que pensa do regresso do vinil ao consumo da música?
Convém não termos ilusões: o som do vinil não é o ideal. O erro foi termos pensado que o som do CD era melhor! O som do vinil é menos mau do que o do CD. E o do CD é menos mau do que o do mp3… Não quer dizer que não possamos melhorar a qualidade do som, rumo a algo de alta definição… Mas para já, com o tipo de processamento que temos, o som do vinil é melhor pelo calor e outras razões.

Registo áudio de “Rely on Me”, a faixa criada em colaboração com Laurie Anderson em “Electronica – Vol 1: The Time Machine”.

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