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A crise da meia-idade, segundo John Grant

Texto: NUNO GALOPIM

O terceiro álbum a solo de John Grant não repete o patamar de excelência dos discos anteriores. O melhor do disco mora, curiosamente, nos temas nos quais a música segue caminhos que antes já havia experimentado.

Se com o magnífico The Queen of Denmark (2010) John Grant viveu um importante episódio de libertação contra todo um mundo de fantasmas, medos e ressentimentos pessoais e, três anos, encontrou na Islândia (e nas electrónicas) argumentos para levar estilisticamente mais longe – no ainda melhor Pale Green Ghosts – esse processo de revelação de si perante si mesmo, chegamos agora a Grey Tickles, Black Pressure com uma sensação de que o caminho rumo à luz só não foi mais longe porque o músico não parece decidido em libertar-se da raiva que o passado, pelos vistos, ainda faz borbulhar em si.

É claro que nem tudo no mundo são rosas e as experiências de vida de que John Grant nos falou já quer nas canções nem nas entrevistas que lhes serviram de contextualização, comportam memórias traumáticas que não se vencem de um dia para o outro. O disco, contudo, parece mostrar que há no músico mais vontade em manter viva essa inquietude que um gosto na partida para o que de mais positivo (ao que parece) a sua vida encontrou em novas paisagens geográficas e humanas.

O novo álbum, que surge depois de um imponente registo em disco da digressão com orquestra que fez depois do álbum de 2013, revela não só a menos inspirada das suas coleções de canções como a menos focada das suas demandas formais. É certo que não vamos ficar à espera que John Grant abandone a grande balada épica ou a canção de fulgor electrónico, caminhos que entre os dois primeiros álbuns a solo nele revelaram um grande esteta, facto que a voz grave e sentida tão bem soube acentuar pelas suas reconhecidas capacidades interpretativas. Mas há momentos de uma rispidez angulosa que a escrita e performance não resolvem da melhor forma, revelando o alinhamento uma existência em dois planos: a da continuidade (que resulta nas melhores canções do álbum) e o da tentativa de rutura (com alguns tiros ao lado). Vale a pena mesmo assim reter a bela colaboração com Tracey Thorn em Disapointing ou a incursão cold wave em Black Blizzard, num alinhamento onde o melhor fica por conta de Global Warming ou Geraldine, onde na verdade se aproxima mais do que nos deu a ouvir em discos anteriores. Feitas as contas, os prós e contras, o balanço está longe de ser mau, mas não repete a excelência dos dois primeiros discos a solo. Conclusão: nem sempre mudar resulta.

John Grant
“Black Tickles, Black Pressure”
Bella Union / Edel
3 / 5

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