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Ler e ver Camões, com os livros de D. Manuel II

Texto: NUNO GALOPIM

Abre hoje as portas na Fundação Gulbenkian e estará ali patente até 15 de fevereiro uma exposição que apresenta parte da biblioteca que o último rei português juntou nos dias de exílio vividos nos arredores de Londres.

Uma parte da coleção camoniana, que por sua vez é apenas uma das partes da vasta biblioteca de livros antigos portugueses que D. Manuel II reuniu nos dias de exílio que viveu em Richmond (perto de Londres) e que representou o seu mais importante legado para a história da cultura portuguesa, deixou por uns meses as estantes onde habitam no Palácio Ducal de Vila Viçosa para estarem à vista de todos os olhares numa exposição que mostra como os livros podem contar mais histórias do que aquelas que estão impressas nas suas páginas. Com o título D. Manuel II e os Livros de Camões, esta exposição criada em colaboração pela Fundação da Casa de Bragança, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e a Fundação Gulbenkian é de resto um ponto de partida para um trabalho mais vasto ainda tendo a biblioteca do último rei português, havendo um plano de edições que não se esgota no catálogo que agora é apresentado com a exposição. Vale a pena notar que, desde há poucos meses, estão já disponíveis para consulta no site oficial da Fundação da Casa de Bragança os três volumes da obra escrita pelo próprio rei (o último, já de conclusão póstuma), os quais, mais do que um catálogo, oferecem descrições e reflexões sobre o sentido histórico dos volumes anteriores ao ano 1600 que faziam parte da sua biblioteca.

Mas regressemos à exposição que, antes mesmo de abrir espaço a uma arrumação por séculos dos volumes impressos da obra de Camões, começa por contextualizar o que ali vemos lembrando quem era este colecionador através de uma série de fotografias e objetos, entre os quais cadernos escolares (nos quais transcreveu estrofes de Os Lusíadas) ou até mesmo o testamento no qual redigiu, durante a I Guerra Mundial, o destino desta sua biblioteca.

O percurso entre os livros é, depois, o núcleo central da exposição. Que começa no século XVI com primeiras edições de Os Lusíadas (com exemplares da edição de 1572 de António Gonçalves, da qual se acredita hoje que o detalhe da figura do pelicano na lombada – que chegou a levantar debates sobre a cronologia destes lançamentos – não será mais do que um dos vários erros de impressão), do teatro e da lírica. São, como se vê, edições discretas e de uma tremenda simplicidade. No século XVII é do significado político da obra de Camões que emerge a sua identidade como figura agregadora da cultura e, portanto, identidade portuguesas, ganhando mesmo peso como referência de resistência antes de 1640. Seguem-se as edições do século XVIII (que chegam em tempo de criação de primeiras edições da obra completa e de estudos mais aprofundados sobre o seu sentido) e as do século XIX, que são contemporâneas da identificação de Camões como herói romântico e, consequentemente, abrem espaço à redação de perfis biográficos (para os quais, na verdade, poucos documentos de suporte havia: nada mais nada menos senão cinco). Já com a aproximação do século XX e a chegada da República nota-se uma reforçada relação com Camões, sobretudo nele apontando um sentido icónico que o laicismo pós-1910 a ele apontou. O percurso entre os livros termina com uma pequena seleção entre a vasta coleção de traduções de Os Lusíadas que D. Manuel II reuniu, entre as quais as duas primeiras feitas em Espanha, em 1580, que por pouco o poeta (que morre nesse ano) não viu.

Em paralelo com a seleção de livros a exposição junta uma seleção de imagens desenhadas e pintadas de Camões que lembra, por um lado, a iconografia que fixou uma forma canónica de o representar mas, por outro, repara como muitos pintores dele partiram para criar outras leituras e variações, muitas vezes usando o poeta como corpo e o espaço ao seu redor como palco para figuras mais do seu tempo e do seu universo do que do poeta que ali surge retratado. Este caminho abre com a célebre reprodução desenhada no início do século XIX que, partindo de uma imagem contemporânea de Camões, se tornou um retrato de referência (isto mesmo não se tendo o poeta ali reconhecido). Domingos António de Sequeira, António Carneiro, Columbano Bordalo Pinheiro, Júlio Pomar e António Soares completam esta galeria que junta assim ecos diretos das páginas que as vitrinas ao lado encerram.

Com a exposição é publicado o catálogo “D. Manuel II e os Livros de Camões”, que inclui, além das imagens dos livros, pinturas, desenhos e demais objetos expostos, fotografias do último rei português no exílio, incluindo a biblioteca da sua casa em Fulwell Park. O volume apresenta ainda os ensaios “Um Rei Bibliófilo – D. Manuel de Bragança, 1889-1932”, de Maria de Jesus Monge, “A Camoniana de D. Manuel II ou a Voz dos Livros”, de José Augusto Cardoso Bernardes, e “Camões Pintado. Retratos e Representações”, de Raquel Henriques da Silva.

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