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O renascimento de Paul McCartney nos anos 80

Texto: NUNO GALOPIM

Os dois primeiros álbuns de Paul McCartney na década de 80 são dos melhores da sua obra. Depois de “McCartney II” (1980), “Tug of War” (1982) é agora reeditado. E “Pipes of Peace” (1983) aproveita a boleia…

Não é fácil apontar, entre as obras a solo dos quatro fab four, aquelas que mais traduziram as heranças dos Beatles. Naturalmente essas heranças passam pelos discos de todos eles, bastando para tal reconhecer que, tendo os quatro integrado o grupo, tocado e (todos eles) assinado canções, os caminhos que cada um seguiu depois de 1970 – apesar de haver já experiências a solo anteriores ao fim anunciado – é necessariamente o resultado de um percurso que tem no trabalho dos Beatles uma etapa primordial, verdade que tanto é válida para opções feitas quer em sentidos de continuidade ou de rutura. Porque, afinal, o ponto de vista a partir do qual se pensa sempre um futuro decorre do que o passado nos deu e sobre qual o presente reflete e age. Se lembrarmos ainda quão vastos eram os horizontes que a música dos Beatles levantara entre 1968 e 69 – e que constatamos entre os álbuns The Beatles, Abbey Road e Let it Be – estes jogos de opções inevitavelmente passaram por todo um pensamento que não podia ignorar o que antes fora realizado.

Curiosamente uma das mais evidentes marcas de rutura das obras a solo dos quatro fab four depois de 1970 passa pela escolha de equipas de trabalho em estúdio. E ao longo da década de 70 apenas Ringo Starr chamou o “velho” parceiro George Martin – que ficara de fora em Let it Be – para produzir Sentimental Journey (1970)… Ao voltar a chamar George Martin, em inícios dos anos 80, Paul McCartney encontrou no produtor que ajudara a definir os caminhos em estúdio para a música dos Beatles uma segurança classicista que lhe permitiu lançar, de forma inspirada e tecnicamente irrepreensível, uma segunda etapa na sua vida a solo depois de decidido um ponto final para os Wings, a banda com a qual tinha feito toda a sua obra a solo nos anos 70, salvo o álbum de estreia McCartney (1970) e o seu sucessor Ram (1971), assinado em parceria com Lida McCartney.

Lançado em 1980, o atípico – e fenomenal – McCartney II tinha representado uma experiência mais experimental literalmente a solo, nascendo de um trabalho de escrita, interpretação e produção do próprio Paul McCartney sem intervenções exteriores. O disco nasceu na verdade de uma série de experiências que ele mesmo desenvolveu para testar novos equipamentos e sonoridades, tendo Check My Machine representado um inesperado ponto de partida para uma coleção de temas que acabaram por definir um álbum que chegou aos escaparates em tempo de pausa para férias nos Wings após a etapa Back To The Egg. Convenhamos que a solidão encontrada no seu retiro lhe fez bem, abrindo horizontes a novas ideias pop que exploram as potencialidades das novas electrónicas – como se escuta em Temporary Secretary (um incrível doce pop), Darkroom, Frozen Jap ou Front Parlour – ou experimentando mesmo novas liberdades rítmicas pela assimilação do disco e do funk (em Coming Out), ensaiando um flirt entre os sintetizadores e heranças clássicas em Summer’s Day Song, isto sem esquecer ligações à sua própria memória como ouvimos em Waterfalls. Apesar do impacte que teve o disco nas tabelas de vendas da época, McCartney II é um álbum injustamente esquecido na obra do ex-Bealte e, mesmo sendo retrato de marcas de sons da época, é dos seus discos que mais bem venceram o tempo… Quantas surpresas aguardam aqui ouvidos que (mal) conhecem a obra de McCartney a solo!

Salvo algumas expressões em discos posteriores – como escutamos, por exemplo, em Tug of Peace no final do alinhamento do álbum de 1983 – McCartney II foi mais uma experiência pontual que o encetar de um caminho. Houve uma ordem para reunir os Wings em 1980, criando primeiras sessões das quais nasceriam ideias que acabariam em discos a solo de McCartney pouco depois. Para criar uma canção para um desenho animado chamou então George Martin, a notícia da morte de Lennon, em dezembro de 1980, tendo deixado o trabalho numa etapa ainda muito pouco desenvolvida.

Em 1981 McCartney regressa a estúdio e, com a aventura dos Wings dada por terminada, retoma com George Martin a criação de um novo disco que acabaria por ser, apesar de representar o terceiro em nome próprio, o primeiro que não traduzia, na sua discografia a solo, um desejo de experimentação com vontade também de assinalar um tempo de transição.
Tug of War, que seria editado em abril de 1982, não esconde as heranças mais clássicas de Paul McCartney e revela, numa espantosa coleção de canções pop, um dos momentos mais inspirados da sua carreira a solo. O alinhamento é uma experiência de horizontes abertos tanto à herança da grande balada orquestrada (numa linha que vem do tempo dos Beatles) em Here Today como a tradição de uma escrita mais teatral (The Pound is Sinking), como não fecha a porta à curiosidade pelas electrónicas em Be What You See ou a contaminações mais recentes como o funk define o pulso entre as batidas de What’s That You’re Doing ou Dress Me Up as a Robber. O single teve três singles na mouche em Tug of War, Take it Away e em Ebony and Ivory (um dueto com Stevie Wonder). E poderia ter conhecido outros dois mais quer com Wonderlust (balada que define o caminho que o levaria pouco depois a No More Lonely Nights) ou no irresistível vaudeville com travo pop de Ballroom Dancing.

O reencontro em estúdio com George Martin – que continuaria ainda até à banda sonora de Give My Regards To Broad Street – teve segundo episódio um ano depois em Pipes of Peace. Trata-se de um disco de continuidade face ao que se mostrara no anterior, repetindo a ideia das parcerias – desta vez com Michael Jackson, em Say Say Say e The Man, continuando a relação talhada em 1982 em Thriller com The Girl is Mine – e procurando caminhos clássicos de uma pop luminosa e cenicamente elaborada. O ecletismo que Tug of War já revelara é retomado num alinhamento que inclui o devaneio instrumental em clima elétrico Hey Hey ou o mais teatral Tug of Peace (que sugere a ideia de fecho de um ciclo, como de um díptico este par de álbuns se tratasse). O disco não revela um conjunto tão inspirado de canções, tendo mesmo assim gerado dois belos singles entre Say Say Say e o próprio tema-título. O belíssimo Average Person teria sido aqui uma boa escolha caso a estratégia tivesse previsto um terceiro single… Mas a concentração de esforços no filme Give My Regards to Broad Street não o permitiu.

Estes álbuns estão disponíveis em novas edições que não só apresentam o som remasterizado, como juntam habitualmente (nas versões em CD e digitais) faixas extra, sobretudo maquetes que dão conta de outras etapas do processo criativo e lados B. Vale a pena, sobretudo em McCartney II, (re)descobrir o bem invulgar Secret Friend, editado no lado B de Temporary Secretary. Entre os extras de McCartney II (na verdade reeditado em 2011) há ainda o single de Natal com tempero electrónico Wonderful Christmas Time, de 1979.

“McCartney II” (1980) – Reedição de 2011
5 / 5

“Tug of War” (1982) – Reedição de 2015
4 / 5

“Pipes of Peace” (1983) – Reedição de 2015
3 / 5

Todos são edição Universal Music e estão disponíveis em LP, CD e lançamento digital em plataformas de streaming e download.

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