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Um retrato com três dimensões

Texto: NUNO CARVALHO

A partir do fluente argumento de Aaron Sorkin, Danny Boyle constrói um retrato compósito do criador da Apple que vai muito além do ‘biopic’ linear e mimético.

Antes de Danny Boyle tomar as rédeas do projeto, David Fincher era o nome apontado para realizá-lo, com Leonardo DiCaprio e posteriormente Christian Bale indicados para encarnar a figura do carismático cofundador da Apple. E ainda que Bale pudesse ter sido uma boa escolha, tendo em conta o seu perfil físico, a opção por Michael Fassbender assinala desde logo uma vontade em não querer fazer um biopic “do berço até à cova” que apostasse numa interpretação mimética do protagonista e se limitasse a ser uma ilustração de uma entrada de Wikipédia, como sucedera com o medíocre Jobs (2013), em que Ashton Kutcher interpretava uma versão caricatural de Steve Jobs que nenhuma pessoa inteligente comprava.

Em vez de apostar numa abordagem linear, o argumento de Aaron Sorkin comprime numa estrutura de três atos as tensões e dramas pessoais em torno de três lançamentos de produtos apresentados por Steve Jobs em períodos temporais distintos. E apesar de ter tido como principal fonte de informação a biografia Steve Jobs, de Walter Isaacson, a proposta de Sorkin, como seria de esperar do autor do guião de A Rede Social (2010), está longe de uma tentativa de decalque da realidade. É antes mais uma espécie de compressão especulativa e compósita que encena e “teatraliza” nos bastidores das apresentações de produtos-chave aspetos da biografia de Jobs, como se estivéssemos a assistir, através da dialética dos diálogos (muito bem escritos, como é aliás marca distintiva de Sorkin), aos “bastidores” da persona do visionário criador da Apple.

Um dos aspetos mais interessantes do filme é o facto de Danny Boyle ter aproveitado para a dinâmica das cenas um hábito real de Steve Jobs, ou seja, o de não gostar de estar sentado (nomeadamente em reuniões), preferindo manter-se de pé e a andar enquanto falava. O realizador incorporou esta dimensão no próprio estilo de filmagem (utilizando para tal com frequência a steadicam), acrescentando mais um elemento de ritmo às já de si ritmadas palavras escritas por Sorkin.

“Steve Jobs”
Realização: Danny Boyle
Com Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen, Jeff Daniels
NOS Audiovisuais

1 Comment on Um retrato com três dimensões

  1. Michael Fassbender seduz-nos e rapidamente faz desaparecer qualquer questão relacionada com a semelhança física, ou falta dela. Para quê uma fotocópia se podemos ter uma interpretação tridimensional, verrugas e tudo? António Araújo – http://www.segundotake.com

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