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Quando Brian Eno nos deu a ouvir Gavin Bryars

Texto: NUNO GALOPIM

As primeiras gravações de obras de Gavin Bryars, que surgiram entre 1975 e 1978 na editora então gerida por Brian Eno abrem novas janelas rumo a pistas fulcrais da música experimental de finais do século XX.

Em 1971 Gavin Bryars (n. 1943) acompanhava, como técnico de som, a rodagem de um filme sobre vidas difíceis na área entre as estações de Waterloo e Elephant & Castle, em Londres. No decurso das filmagens, a dado momento, um conjunto de pessoas começou a cantar. Canções embriegadas, que Alan Power registou com a câmara. E entre elas um velho entoou um tema religioso, de inesperado optimismo. As imagens acabaram por não ser usadas no filme, ficando o compositor com as fitas em suas mãos. Regressado a casa, Gavin Bryars tocou o material que gravara, ensaiando então um breve acompanhamento ao piano sobre a voz do velho que cantara Jesus Blood Never Failed Me Yet, daí nascendo a base para uma obra maior que, tomando a repetição da gravação como medula, acabaria por se afirmar como uma das peças de referência do repertório do compositor.

Com evidentes afinidades com a linguagem dos minimalistas, Jesus Blood Never Failed Me Yet teve a sua estreia em palco, acompanhada por uma coreografia, no Queen Elisabeth Hall. A primeira gravação chegou em 1975 na Obscure Label, de Brian Eno, numa versão com apenas 25 minutos (dado o limite de tempo disponível numa face de um LP em vinil). No mesmo ano.

A criação de Jesus Blood Never Failed Me Yet data de um período em que Gavin Bryars se mantinha profissionalmente ligado ao departamento de belas artes de uma universidade em Leeds. Foi aí que transformou a gravação que captara num loop maior, sobre o qual desenvolveu a obra. Distinta das peças para manipulação de fitas com voz gravada que Steve Reich desenvolvera em meados dos anos 60 (Come Out ou It’s Gonna Rain), Jesus Blood Never Failed Me Yet tomava o loop como fio condutor para a evolução de ambientes definidos por arranjos para conjuntos diferentes de instrumentos. “A ideia relacionava-se tanto com a pop art e a arte minimalista”, sugerindo uma “repetição abstracta, mas com sugestões emotivas”, explica o compositor no booklet que acompanha a edição de uma nova versão editada em 1993.

A obra evoluiu com o passar dos anos, conhecendo versões progressivamente mais longas com a chegada da cassete e, mais tarde, do CD. Contudo, logo na sua versão original, esta música foi usada por Steven Dwoskin na banda sonora do seu filme de 1972 Jesus Blood Never Failed Me Yet. Em algumas atuações ao vivo Gavin Bryars tem apresentado excertos desta obra. A gravação com Tom Waits serviu de base a uma corografia de William Forsythe em 1993 (ano da edição da versão regravada, pela Point Music, etiqueta de Philip Glass).

Inglês, nascido no Yorkshire, Gavin Bryars começou por estudar filosofia antes de se voltar definitivamente para a música. Aí deu primeiros passos no jazz, tocando contrabaixo num trio. Cativado pela música de John Cage e pela obra dos emergentes minimalistas encontrou outros caminhos para a sua música, revelando primeiros sinais em 1969 com The Sinking Of The Titanic, uma obra que ainda hoje é talvez a mais celebrada das suas composições que, há alguns anos, conheceu nova abordagem através de uma remistura por Aphex Twin.

As duas reedições que agora surgem tanto em suporte de CD como em serviços digitais, correspondem à reunião de peças editadas através da Obscure entre 1975 e 78. Um primeiro disco junta a versão original de Jesus Blood Never Failed Me Yet à primeira gravação de The Sinking of the Titanic que surgia na outra face do mesmo LP (lançado em 1975).

Um dos clássicos maiores da música experimental do século XX, The Sinking of The Titanic nasceu como primeira ideia a partir de um relato do operador de comunicações do navio, que descreveu como, estando já ele num bote salva-vidas, o ensemble de músicos que trabalhava a bordo do Titanic continuava a tocar, entre o pânico instalado entre tripulantes e passageiros que procuravam escapar com vida. Gavin Bryars imaginou o que seria o som dessa música, se continuasse a reverberar nas águas mesmo depois de o mar tudo ter reclamado. No seu relato, Harold Bride (um dos sobreviventes do naufrágio), especificava que escutara os músicos a interpretar uma peça de título Autumn, não se sabendo ainda hoje ao certo a que composição se referiria em concreto (havendo suposições em função do gosto e das peças da época).

Em The Sinking of The Titanic Gavin Bryars junta um trabalho de construção de texturas e acontecimentos sonoros que suportam a evolução de uma trama narrativa, sobre a qual vozes que descrevem memórias juntam uma dimensão vivencial aos acontecimentos e, a dada altura, se escuta uma ideia do que Autumn poderia ter sido. Sequência de profunda melancolia desenhada por cordas que adivinham um fim próximo, esse acaba por ser o núcleo emocional mais vibrante de uma obra que ordena narrativamente os acontecimentos, do caminhar tranquilo nas águas antes do acidente (essencialmente sugerido pelo trabalho de texturas) ao lamento que chega depois da tragédia, as águas ecoando assim a música que ali se escutava e, agora, mergulha no oceano, alargando a paleta de instrumentos que assim sugerem o tal reverberar das memórias dos sons nas águas que esteve na origem da ideia desta obra.

Composto entre 1969 e 1972, The Sinking of The Titanic teve nas suas primeiras interpretações ao vivo as participações de músicos como Michael Nyman, Kate St John ou Brian Eno e conheceu primeira gravação em disco em 1975 na Obscure Records. Em 2012 Gavin Bryars levou esta obra em digressão com um conjunto de músicos que incluía a presença de um DJ (a quem era dado espaço livre para a improvisação nos momentos de criação de texturas e cenografias), dois quartetos de cordas nada canónicos (num dos quais o próprio Bryars tomava o seu lugar no contrabaixo), um clarinetista, um trompista (que dividia tarefas com o trabalho de percussão). Obra em aberto e com algum espaço para liberdade, a cada novo registo foi conhecendo novos pontos de vista e assimilação das ideias dos que a interpretaram.

Além do disco que junta estas que são talvez as mais célebres das obras de Gavin Bryars, a campanha de reedições do material de arquivo do compositor para a Obscure inclui um segundo disco. Ensemble Pieces inclui as primeiras gravações de 1, 2, 1234 (numa interpretação que conta com Cornelius Cardew no violoncelo e a voz de Brian Eno) e The Squirrel And The Ricketty Racketty Bridge (originalmente editada em Machine Music, de 1978, com a guitarra de Brian Eno). O álbum junta ainda duas composições de Christopher Hobbs, em ambas Gavin Bryars surgindo como instrumentista.

“Jesus Blood Never Failed Me Yet / The Sinking of The Titanic” (reedição do álbum de 1975) e “Ensemble Pieces” (antologia com alinhamento diferente do álbum de 1975 com o mesmo título”, discos com gravações de obras de Gavin Bryars originalmente registads pela Obscure Label surgem agora em reedições em CD e suporte digital através da GB Records.

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