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Esplendores e misérias em Orsay

Texto: NUNO GALOPIM em Paris

Através da pintura, escultura, fotografia, cinema e artes decorativas, uma nova exposição temporária evoca no Museu de Orsay o universo em volta da prostituição que a cidade de Paris conheceu entre 1850 e 1910.

"L’Attente" (1880) de Jean Béreau -- pormenor

À entrada, as filas são longas. Não apenas para entrar no museu, mas depois para aceder ao próprio espaço da exposição. E mesmo deixando os visitantes ir entrando a um ritmo suave, o conjunto de salas no piso térreo do Museu de Orsay acolhe uma das mais badaladas das exposições temporárias que neste momento podemos visitar em Paris não deixa nunca de estar no limite da sua capacidade… Talvez acima do limite para uma visita confortável e recompensadora, mas sobre isso falaremos um dia destes. Com o título Splendeurs et Misères: Images de La Prostitution 1850-1910 (um nome emprestado da obra de Balzac), esta exposição representa talvez aquela que é a primeira grande abordagem de um museu deste patamar de importância e visibilidade às temáticas da prostituição e dos negócios do sexo.

Naturalmente a dividir opiniões, a exposição tem por um lado conhecido enchentes, colhendo igualmente o ceticismo ou dos mais moralistas incomodados com a ideia de ver ali obras pornográficas (e há uma sala, vedada a menores, onde se expõem fotografias e filmes porno da época) ou dos que vêm nesta proposta, juntamente com algumas que antes evocaram o Marquês de Sade ou o nú masculino, uma política de bilheteira. Nem moralista nem cético de uma eventual estratégia de bilheteira (porque nunca fez mal, antes pelo contrário, ver multidões a entrar em museus), passei por lá e fui ver.

A exposição é uma magnífica recolha de expressões, histórias, factos e representações que traçam o retrato de uma realidade amplificada pela expansão demográfica que a cidade de Paris viveu na segunda metade do século XIX e teve na prostituição uma entre muitas das suas expressões sociais. Muitas das imagens evocadas chegam-nos através da pintura de nomes como os de Manet, Toulouse-Lautrec (amplamente representado), Van Gogh, Dégas, Picasso, Cézanne, Boldini, Béraud, Kupka, Derain ou Courbet. E não falta ali a célebre Olympia, de Manet, que chocou os que visitaram o Salon de Paris em 1865, não só pela nudez e força do olhar, mas pelo modo como deixava claro tratar-se de uma prostituta.

A exposição evoca os ambientes de bar e cabaret, entre música e absinto, passa pela prostituição de rua e pelas maisons closes, bordéis legais que chegaram a existir em número na ordem das duas centenas na altura na cidade de Paris. Há fotos de algumas dessas casas e de quem nelas trabalhava. Assim como autos policiais sobre factos e figuras apanhadas mais fora do que então era a lei. E não é esquecida a prostituição de alta roda, muitas vezes envolvendo figuras do teatro e do canto. Através de alguns objetos de artes decorativas recordam-se estes espaços que completam assim o retrato.

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