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1980. Pop, elegância e polaroids

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em finais de 1980, “Gentlemen Take Polaroids” é um disco de transição na obra dos Japan, abrindo caminho para a obra-prima que gravariam no ano seguinte.

Quando, em 1980, uma nova tentativa para cativar atenções fracassa com uma versão de I Second That Emotion, de Smokey Robinson, a passar longe da tabela de vendas de singles no Reino Unido, a Hansa Records e o agenciamento até então assegurado pelo veterano Simon Napier Bell voltam as costas aos Japan e chega o tempo de enfrentar a rutura. Nenhuma foi pacífica e ambas exigiram negociações que implicaram que entregassem, para acertos de contas, o avanço que então lhes fora concedido pela Virgin Records, que entusiasticamente os chama.

Um primeiro aperitivo do que seria o álbum que gravaram em Londres em meados de 1980 chegou em outubro desse ano com um single lançado no em dois formatos distintos, um deles revelando, num sete polegadas duplo, não apenas a canção que lhe dava título mas também uma nova canção de travo ambiental – Burning Bridges, que surgiria pouco depois no alinhamento do álbum – dois temas instrumentais (The Experience Of Swimming de Richard Barbieri e The Width Of A Room de Rob Dean) que vincava a faceta mais exploratória que a música dos elementos do grupo assumiriam não apenas nos Japan mas, mais tarde, em caminhos a solo. Gentlemen Take Polaroids era a canção que dava título ao single, revelando um tema que seguia os caminhos já sugeridos no anterior Quiet Life (de 1979), mas levando o labor cénico a um patamar de maior detalhe e confirmando a opção do grupo pela busca de uma pop elegante e sofisticada. O single daria ao grupo a sua primeira entrada na tabela de vendas de singles, alcançando um discreto nº 60.

Lançado pouco depois o álbum, que tomava o título do single que fora usado como cartão de visita, reforçava tudo o que Quiet Life procurara lançar e Gentlemen Take Polaroids tão bem sugerira. Produzido por John Punter, o disco (que representa a derradeira presença do guitarrista Rob Dean entre a formação da banda) liberta-se de todos os caminhos cruzados e incertos que os Japan tinham percorrido na segunda metade dos anos 70 e focava atenções num espaço mais firme de busca. E desta vez com pontaria.

A composição destaca um maior trabalho desenhado pelos sintetizadores, não desvalorizando nunca o papel muito pessoal do baixo de Mick Karn e também a ocasional presença do som do oboé. Se Methods of Dance é um herdeiro natural de Quiet Life na forma de definir uma canção pop de apelo dançável, revela na presença de uma voz extra (de Cyo) no refrão um despertar para ecos orientais que seriam aprofundados no disco seguinte. Se a estes dados juntarmos a presença, inclusivamente na escrita, de Ryuichi Sakamoto – que então gravava o seu álbum a solo B2-Unit numa outra sala dos mesmos estúdios – no atmosférico Taking Islands In Africa, ou a construção de uma ideia de canção que emerge de um clima ambiental que ecoa memórias das experiências “berlinenses” de Eno e Bowie em Burning Bridges, podemos compreender este disco como uma etapa de transição que claramente prepara o caminho para Tin Drum.

O alinhamento traduz ainda heranças naturais de pólos da admiração por alguns contemporâneos, nomeadamente os Roxy Music, em Swing. Em The Nightporter, que retoma caminhos consideravelmente distintos já antes sugeridos no instrumental The Tennant do álbum Obscure Alternatives, outros ecos ganham materialidade, traduzindo a composição primeiros sinais evidentes da busca de Sylvian em espaços para além das fronteiras naturais mais habituais da cultura pop/rock, aceitando aqui heranças mais remotas da música de Eric Satie. A canção, que é uma das obras-primas da discografia dos Japan e antecipa algumas das demandas posteriores de David Sylvian a solo, revela o definitivo encontrar de um espaço de valorização inequívoca da voz invulgar e muito característica do seu autor, em diálogo com o piano e o oboé, num espaço cénico desenhado por electrónicas. Seria editada como single algum tempo depois, em 1982, alcançando o nº 29 no Reino Unido.

Sem representar um triunfo evidente, e ainda sob uma falta de entusiasmo maior da crítica (às vezes leva tempo a dar ouvidos ao que está a acontecer), a verdade é que Gentlemen Take Polaroids levou os Japan a outro patamar, abrindo o caminho para um disco seguinte que revelaria o momento maior da sua obra. A imagem de Sylvian e restantes elementos, em sintonia com o look que então fazia notícia em Londres, levou a que por várias vezes, os Japan acabassem integrados entre o rol dos nomes que definiram o movimento new romantic. Mas além do look e de algumas pontuais afinidades instrumentais em algumas canções de 1979 e 1980, esse não era de todo o seu caminho.

Singles:
1980 – Gentlemen Take Polaroids
1982 – Nightporter

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