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1983. Um suave adeus gravado no palco

Texto: NUNO GALOPIM

Lançado no verão de 1983, já depois de conhecida a separação dos Japan, o álbum ao vivo “Oil on Canvas” traduz a elegância a que a sua música tinha chegado e junta três instrumentais inéditos a um belo lote de canções.

O reconhecimento crítico e, sobretudo, o sucesso que o álbum Tin Drum dera finalmente aos Japan em 1981 abria novas possibilidades ao futuro dos Japan. Estavam porém a desejar um espaço de folga, após quatro anos de tentativas e experiências, mais vezes frustradas do que bem sucedidas (apesar do que a discografia de facto foi registando). E finda a digressão britânica que estava já marcada antes mesmo do álbum ter sido editado, projetaram uma breve sabática em 1982, cada qual projetando para o ano de pausa o cumprimento de desejos pessoais.

Steve Jansen começava a explorar a fotografia. Richard Barbieri mergulhava nas novas possibilidades tecnológicas ao serviço da criação e gravação de música. Mick Karn experimentava a escultura (um velho sonho seu), ao mesmo tempo que abria um restaurante em Londres. David Sylvian observava as possibilidades que se colocavam pela sua frente. A seu tempo experimentaria também a fotografia, mas pela música continuou a explorar ideias, acabando por desenvolver um primeiro projeto a solo na companhia de Ryuichi Sakamoto, lançando em 1982 o single Bamboo Houses / Bamboo Music, que representou o início de uma frutuosa e longa parceria entre ambos.

O ano de sabática foi, porém, aquele em que mais singles dos Japan surgiram no mercado, e com melhores resultados do que nunca. Tanto a Hansa como a Virgin foram extraindo temas de discos mais recentes e mais antigos, a sua primeira editora tendo antes lançado uma primeira antologia ainda em 1981, à qual chamou Assemblage. Assim, e mesmo com a banda fora de cena e não envolvida nos lançamentos – se bem que pontualmente tenha marcado presença em programas de televisão e concedido entrevistas – a Virgin, à qual estavam ligados, lançou em single os temas Ghosts (que chegou a um inesperado nº 5 no Reino Unido), Cantonese Boy (nº 24) e Nightporter (nº 29), este último do anterior Gentlemen Take Polaroids. Por sua vez, a Hansa, da qual estavam afastados desde 1980, fazia chegar ao mercado de 45 rotações algumas canções do seu catálogo. Foram elas European Son (nº 31) e I Second That Emotion (nº 9), reeditando ainda Life in Tokyo (nº 28)… Nunca tinham lançado tantos singles nem obtido resultados tão sólidos. E num ano de pausa.

Havia contudo alguns atritos, um dos maiores sendo gerado por uma questão de namoros, com a fotógrafa Yuka Fuji a deixar Mick Karn para iniciar uma ligação com David Sylvian. Este terá sido um dos casos que mais corroeram o ambiente interno. E que se degradara mais ainda apesar da pausa em 1982, manifestando-se nos bastidores da curta digressão com que rompem o silêncio, atuando em salas do Reino Unido e Japão. Porém, quando chegam a Nagoya, em dezembro, já a notícia de uma separação tinha sido publicada. E assim, a 16 de dezembro de 1982, foi ali, no Japão, que pela última vez estiveram juntos num mesmo palco.

A assinalar o ponto final a Virgin decidiu usar as gravações dos concertos que, em novembro, o grupo tinha apresentado no Hammersmith Odeon, em Londres, e nos quais a elegância e subtiliza definida pelos dois mais recentes álbuns da banda estava claramente patente na sua transposição para o palco. Ao disco, um álbum duplo, chamaram Oil on Canvas, o título traduzindo a força da presença de uma pintura de Frank Auerbach na capa.

O alinhamento refletia uma seleção de temas de Quiet Life a Tin Drum, juntando ainda três instrumentais recentemente criados em estúdio. Oil on Canvas (de Sylvian), a abrir o disco, transportava ecos de uma admiração por Satie, com o piano por voz protagonista. Voices Raised in Welcome, Hands Held in Prayer (de Sylvian e Jansen), usando sinos e desenhando cenografias com teclas, acentuava não apenas a marca oriental que passara já por composições anteriores, mas uma demanda ambiental e espiritual que em breve emergiria mais evidente ainda na música a solo do vocalista. Temple Of Dawn (de Richard Barbieri), fecha o alinhamento com outro exemplo de demanda cinematográfica e ambiental.

Em junho de 1983, o lançamento do álbum – que foi acolhido com entusiasmo e já editado sabendo-se que a carreira do grupo terminada – foi acompanhado pela edição de um single com as versões ao vivo e em estúdio de Canton, instrumental do alinhamento do álbum Tin Drum.

Era o ponto final. Poucas carreiras se fecharam num corpo de trabalho tão rico e sem nunca experimentar o equivoco e a decadência.

Singles:
1983. Canton

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