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As partes que contam o todo

Texto: NUNO GALOPIM

O surpreendente “Os Fragmentos de Tracey” (2007), filme de Bruce McDonald baseado no romance homónimo de Maureen Medved, propunha, ao dividir o ecrã, vários pontos de vista sobre a mesma narrativa.

O título é daqueles casos que em tudo indiciam o que do filme podemos esperar: fragmentos. Porque, se por um lado a narrativa nos é apresentada em fragmentos, com princípio, meio e fim (mas não necessariamente por esta ordem), por outro o próprio dispositivo visual de que o realizador se serve para apresentar esta história não é mais que uma colecção de… fragmentos. Fragmentos de imagem, entenda-se, que dividem o ecrã em várias janelas, umas vezes mais em simultâneo, outras vezes menos, em cada ocasião com uma arquitectura de arrumação distinta, e que permitem uma colecção de olhares vários pela acção que acompanhamos, quem nela participa, o cenário que a envolve ou pequenos pormenores do universo em observação.

O efeito que o filme deixa no espectador quase lembra o de Tarnation, de Jonathan Caouette. Mas desta vez, no lugar da autobiografia com tempero narcísico estamos antes no domínio da ficção, a história partindo directamente do romance The Tracey Fragments, da escritora e dramaturga canadiana Maureen Medved. Em traços largos, conhecemos TraceyBerkowitz (espantoso papel desempenhado por Ellen Page), apenas vestida com um lençol, no banco de trás de um deserto autocarro em aparente distante fim de linha… Tracey procura o irmão, mais novo, desaparecido… As pistas dadas à partida não mostram muito mais, desafiando o espectador a juntar os fragmentos que depois irá recolher. Fragmentos tão dispersos, uns mais panorâmicos, outros de pormenor, tal como aqueles em que se divide o ecrã, que raramente permite o monopólio de uma só imagem.

A fragmentação do ecrã, que nos sugere a observação (e consequente exercício de colagem) de vários olhares sobre um mesmo objecto, espaço ou contexto, é marca formal que o realizador Bruce McDonald toma como elemento de identidade desta narrativa. Porém, nunca o dispositivo surge como elemento perturbador da construção da história. Nunca se assume como protagonista, servindo antes, de uma forma peculiar, desafiante, a narrativa que nunca deixa de relatar. E que, como se frisou antes, é, tal como as imagens, um conjunto de fragmentos que cabe ao espectador ordenar, unir, descodificar… Na essência descobre-se uma visão crua, mesmo cruel, do universo teenager, das relações familiares ao espaço da escola, dos afectos à solidão.

Com magnífica banda sonora, onde se destacam os Broken Social Scene, o retrato de Tracey é mais uma contribuição do cinema contemporâneo para a representação de uma juventude apática, sem Norte nem objectivos, que não mora apenas nas histórias de ficção dos nossos dias. Uma curel realidade, de resto, cruza toda esta história onde outro protagonista é o amor, presente em fragmentos, ausente no geral, na vida de Tracey.

 

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