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1981. Quando a pop olha para lá do umbigo

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1981 “Tin Drum”, quinto e derradeiro álbum de estúdio dos Japan, é uma absoluta obra prima onde referências a Stockhausen e à cultura oriental abrem novos caminhos a uma linguagem pop.

Diferente entre os diferentes. Ou, para seguir à risca a máxima dos Monty Python: e agora para algo completamente diferente. Foi assim em 1981, quando Tin Drum entrou em cena para revelar não apenas o culminar de uma demanda por identidade encetada alguns anos antes pelos Japan mas para criar não só o mais diferente e atípico dos álbuns nascidos em tempo de assimilação das potencialidades dos novos sintetizadores pela pop na alvorada dos oitentas como também um dos álbuns mais incríveis de todos os tempos.

Era como um ovni. Um disco dominado pelo intenso labor na criação de sons, atento tanto a uma estruturação rítmica capaz de ser diferente tanto na forma como na sonoridade, detalhado na cenografia, mas sem nunca esquecer o protagonismo da voz ou de um evidente sentido melodista. Era também, mais do que nunca, o álbum em que a banda que tinha escolhido Japan para nome assimilava ao tutano da sua alma ecos colhidos em experiências orientais – tanto no Japão como na China – representando também a mais evidente primeira herança ocidental do pioneirismo electrónico oriental levantado desde finais de 70 pela Yellow Magic Orchestra (não foi por acaso que, desde essa altura, Ryuichi Sakamoto se afirmaria mesmo como um dos mais regulares colaboradores de David Sylvian).

Muito tinha acontecido desde que, em 1979, os Japan tinham arrumado de vez os caminhos mais próximos de uma certa descendência glam rock sobre a qual haviam criado dois álbuns que então sugeriram tiros ao lado mas que, como tantas vezes, o tempo arruma hoje sem o mesmo sentido de erro. A aproximação às electrónicas começara em 1979 numa parceria pontual com Giorgio Moroder em Life in Tokyo (um single) e continuara a conquistar as atenções da banda entre os álbuns Quiet Life e Gentleman Take Polaroids que, ambos editados em 1980, mostravam sinais de novos caminhos encontrados numa rota não muito distante do sentido de uma pop elegante à la Roxy Music, mas na qual a voz (e as palavras) de Sylvian, o fretless bass de Mick Karn, a presença ocasional do clarinete, o trabalho de filigrana para teclas por Richard Barbieri e a busca de uma identidade própria na percussão por Steve Jansen, abriam portas a novas possibilidades. Rob Dean, o guitarrista até então, foi perdendo voz, acabando por sair. E quando se juntam para criar Tin Drum, já só são quatro os músicos que fazem aquele que ficaria para a história como o melhor disco dos Japan.

A base da composição das canções de Tin Drum assenta num intenso trabalho de criação e programação de sons que, durante dias a fio, ocupou David Sylvian e Richard Barbieri em estúdio, por vezes fazendo mesmo desesperar o produtor Steve Nye. Este último chegou depois a reconhecer que se inspirara sobretudo em alguma da música de Karlheinz Stockhausen criada nos anos 50 e 60, revelando de facto algumas das ideias uma busca por acontecimentos sonoros que, aparentemente abstratos, em si encerravam pistas para a construção de edifícios bem estruturados. E sobre os quais definiram uma ordem claramente pop que a restante instrumentação ajudou a sustentar, alargando depois a paleta cromática a todo um conjunto de referências orientais que ajudaram a definir um corpo coeso para um disco que, mesmo não buscando uma caução concetual, não deixa de exibir a definição clara de um espaço sonoro e temático bem demarcado, apontado a oriente, facto que a temática de temas como Visions of China, Cantonese Boy ou Canton, assim como fotografia da capa ajudaria depois a sublinhar.

Tin Drum é um caso raro de capacidade de criação de um sentido de unidade num quadro de composições onde a variedade é depois evidente. Do atmosférico Ghosts (sem percussão) ao festim dançável de The Art of Parties, do deleite exótico de Talking Drum ao minimalismo dominado pelo baixo em Sons of Pioneers, da contemplação da complexidade formal de Still Life in Mobile Homes à marcha marcial de Canton, não esquecendo o patamar superior de primor pop de Visions of China e Cantonese Boy, o alinhamento, que recorda como oito canções bastam para fazer um álbum perfeito, constrói uma realidade de vistas largas, de surpresa e desafio, mas com uma identidade comum bem estruturada e definida.

O inesperado sucesso na tabela de vendas do single absolutamente nada comercial Ghosts, assim como a grande visibilidade dos demais três singles extraídos do alinhamento do álbum, assim como a multidão de singles de álbuns anteriores que, entre 1981 e 1982 mantiveram os Japan na ordem do dia, acentuaram um desconforto interno que ajudou a acelerar a desagregação da banda. Sylvian, que assinara primeiras experiências a solo em singles com Sakamoto em 1981 e 1982, editaria um primeiro álbum a solo em 1984. Mick Karn, depois de uma aventura com Peter Murphy, nos Dali’s Car, faria o mesmo. Jansen e Barbieri trabalhariam mais frequentemente em conjunto, assinando um primeiro disco a dois também logo depois. Reencontraram-se entre 1990 e 1991 como Rain Tree Crow. Mas não eram já os Japan. E souberam assim mostrar-nos como é preciso saber não só como colocar um ponto final como resistir à tentação da nostalgia na hora de eventualmente reunir. E, assim sendo, Tin Drum ficou como registo criativo do fim de linha. Houve um álbum ao vivo, Oil on Canvas, documentando a última digressão que se lhe seguiu. Mas, até aí, era em Tin Drum que se alicerçavam as ideias. Tal como sucederia para a obra a solo de Sylvian que, mesmo partindo para muitos patamares diferentes e não voltando nunca a olhar para trás, do passado vivido com os Japan a única janela que desde então abriu apontou aos dias de Tin Drum. E, em concreto, a Ghosts.

Imagens de uma atuação televisiva da época, ao som de Ghosts.

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