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O que nos guarda o futuro?

Texto: NUNO GALOPIM

Contando com o envolvimento do escritor H.G. Wells no seu desenvolvimento, o filme de 1936 “Things to Come” sugere uma utopia que nasce no tempo de tensão que assistiria pouco depois à eclosão da II Guerra Mundial.

Muitas das visões de futuro da humanidade que a ficção científica nos deu revelavam um profundo desencanto do homem perante si mesmo. E basta lembrarmos o 1984 permanentemente vigiado de Orwell ou o Admirável Mundo Novo de Huxley, assombrado por uma hierarquização da sociedade ditada pela manipulação in vitro para termos dois exemplos desses futuros descrentes nas capacidades do homem em procurar melhores caminhos para si mesmo. H.G. Wells, que já tinha invadido o planeta com marcianos e até mesmo olhado para o futuro distante do nosso mundo com algum ceticismo (em A Máquina do Tempo), assinou em 1933 The Shape Of Things To Come, um romance no qual, imaginando uma história futura para a Terra, a faz passar por um conflito militar global, antes de sugerir uma utopia suportada por uma outra forma de entender a sociedade e a sua relação com o conhecimento e a tecnologia.

Nunca traduzido entre nós, não foi o primeiro texto de Wells a cativar o cinema. The Invisible Thief assegurara a sua “estreia” no grande ecrã em 1909, seguindo-se First Men in The Moon (1919) e Passionate Friends (1922). Wells chegou mesmo a escrever para cinema. E aprovou a visão de James Whale para o seu Homem Invisível em 1933. Mas em meados dos anos 30 foi The Shape of Things To Come que motivou a mais ambiciosa das adaptações (até então) de um texto seu. Na verdade, e com o próprio escritor envolvido no projeto (assinando o treatment e depois até mesmo o argumento), o filme não procurou ser uma ilustração do romance de 1933 mas sim uma visão que, partindo de três momentos da sua trama, e tendo ainda em contra o ensaio The Work, Wealth and Happiness of Mankind, de 1931, definiu uma obra com a consistência de uma narrativa e a alma de uma ideia política.

Na base de toda a aventura (de grande envergadura) que foi a criação de Things To Come está o seu produtor: Alexander Koda, um inglês de ascendência húngara que segurou as rédeas da ideia de fio a pavio. Assegurou por um lado a presença de Wells no projeto, numa das mais célebres adaptações cinematográficas de um romance contando com input criativo (e a disposição para moldar ideias a novas situações) do escritor. E, por outro, chamou não apenas o realizador William Cameron Menzies, mas também o compositor Arthur Bliss (um notável nome da música inglesa do seu tempo) e o pintor e fotógrafo László Moholy-Nagy (professor na Bauhaus), que trabalhou visões da cidade futurista que as imagens pediam.

Num arco de quase cem anos, Things To Come acompanha a história de uma cidade entre 1940 e o ano 2036. Entre o deflagrar de uma guerra mundial e a expressão maior de um mundo novo (verdadeiramente admirável) onde a noção de fronteira política entre os povos se desvaneceu em favor de uma lógica global mais sólida. Pelo caminho assistimos ao recuo da humanidade a uma idade das trevas num pós-guerra onde energia e tecnologia deixam de ser acessíveis aos habitantes de Everytown, cidade que como tantas outras pelo mundo fora, acabou dominada por um war lord despótico e ignorante (que Ralph Richardson interpreta com evidente inspiração na figura de Mussolini), que sonha com uma frota de aviões e acha que os livros não servem para nada. Um núcleo civilizacional com sede em Basra (no Iraque) enceta então uma revolução que abre outros caminhos para a humanidade. Wells assenta a narrativa sob uma vontade de explorar não apenas as mecânicas sociais e comportamentos em tempo de guerra e da devastação que se segue, como toma o eterno conflito entre a ignorância e o conhecimento como um duelo que gere os destinos do progresso.

As sequências mais inesquecíveis do filme chegam na última parte, quando, primeiro, assistimos ao verdadeiro ballet mecânico (herdeiro de Metropolis) que transforma a cidade e, depois, avançamos até 2036 para contemplar esse mundo do futuro. Mas mesmo em cenário de utopia, a história alerta para os “perigos” dos céticos do progresso, que cativam multidões com palavras fáceis e demagógicas. Onde é que já vimos isto?… E não foi no mundo da ficção. E mais do que uma vez…

Historicamente o livro refletia já o clima de tensão que conduziria o mundo à II Guerra Mundial. Publicado em 1933, o romance expressava um clima que era mais evidente quando, em 1936, o filme chegou aos ecrãs. De resto, Wells falha apenas por 16 meses do deflagrar da guerra… O filme, nas sequências iniciais, sublinha esse mesmo tempo de ansiedade, do jogo de contrastes entre a guerra e a paz, a ignorância e o saber, a vaidade pessoal e a visão coletiva acabando por traduzir muitas das ideias que o escritor deixou em outros mais textos.

Longe de ser um sucesso quando finalmente estreou, Things To Come teve vida atribulada. Houve várias versões, algumas cenas cortadas tendo com o tempo desaparecido (quem sabe, como com Metropolis de Fritz Lang, um dia reaparece uma cópia mais completa algures numa coleção particular ou numa cinemateca remota)… Tal como numa edição em DVD, o lançamento disponível em Blu-Ray (no Reino Unido) junta duas versões, uma delas com elementos que permitem reconstruir algumas dessas cenas desaparecidas. Entre os extras contamos com um comentário bem informado de Nick Cooper, um programa televisivo de 1971 onde Brian Aldiss nos fala de H.G. Wells e um outro, onde é entrevistado Ralph Richardson. Há ainda galerias de imagens, o som da gravação original da música de Arthur Bliss… Um booklet com um extenso ensaio. Falta apenas a (muito discutível) versão colorida (na qual trabalhou Ray Harryhausen e que chegou a ter edição em DVD nos EUA em 2007).

“Things to Come” (1936) de William Cameron Menzies, está disponível em Blu-ray em edição pela Network

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