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A grande tragédia

Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA

Depois de uma biografia do treinador Béla Guttmann, a Paquiderme volta a virar-se para o futebol, mas desta vez vai a uma fonte diferente: Alvalade. O jornalista e adepto sportinguista Mário Lopes é o autor.

Pormenor de ilustração de Xavier Almeida

No dia 31 de maio de 2015, qual “milagre de Istambul” que deu, dez anos antes, a Liga dos Campeões ao Liverpool (que veio de uma desvantagem de 3-0 para acabar por empatar e vencer, em penáltis, o AC Milan), o Sporting salvou uma época inglória com um triunfo heroico e semelhante sobre os homónimos de Braga, na final da Taça de Portugal. E Mário Lopes, autor de A ganhar ou a perder – livro que cobre a sua experiência de adepto ao longo da época de 2014/2015 – estava lá. Mas voltemos uns meses atrás, até aos primeiros jogos do campeonato.

Estávamos em agosto de 2014. O calor apertava, mas os suores eram frios para a tribo sportinguista. Tudo porque se continuava na dúvida sobre a vinda, ou não, de Nani – então jogador do Manchester United – para o clube. O filho pródigo a casa torna, depois de esbanjar o seu talento pela Europa do futebol. Mas porque precisa de demorar tanto tempo? “Piedade, pedimos. Poderia a realidade parar de nos manipular desta maneira, tornando grotescamente sôfrega a nossa natural tendência para a sofreguidão?”, pergunta Mário Lopes. “Não, não poderia. O imediatismo dos tempos de Balakov já não existe. Agora, a rapidez é apenas ilusória. O tempo distende-se. Uma hora é uma eternidade”.

Os tempos estão a mudar, diria Bob Dylan. E o autor de A ganhar ou a perder sente isso mesmo, chorando tempos que não voltam. É, aliás, um dos melhores temas do livro, este de uma bela nostalgia (e haverá nostalgia que não seja minimamente bela?) por vários passados, quer seja o do Sporting, quer seja o dos adeptos pré-hooliganismo, quer seja o do Subbuteo, esse jogo de mesa encantadoramente simples.

Sobre este último, muito há a dizer, e ainda mais a recordar, sobretudo para os ex-praticantes quasi-profissionais da modalidade (entre os quais, orgulhosamente, me incluo). Para Mário Lopes, o Subbuteo foi o último estertor de uma era recreativa pré-tecnológica, uma espécie de grito de raiva da estrela de rádio antes de ser morta pelo vídeo (sim, a referência é mesmo ao single dos Buggles), uma defesa do Álamo antes de invasão da Playstation e da Nintendo. Mas também, diz ele, foi “o único que suplantou o avanço tecnológico”. Apesar das coisas boas trazidas pelos jogos de futebol projetados na televisão, nada suplanta esta “elevação do adepto a semi-deus na expressão do futebol”, que assim passava a ter uma posição panótica sobre todo o estádio. “O pano a servir de relvado, as balizas com rede a sério e as equipas sempre tão harmoniosas quando espalhadas pelo campo, com os bonecos vestindo com todo o detalhe as corres correctas dos equipamentos, castiços zés-sempre-em-pé a aguentarem os nossos piparotes de fino recorte técnico com brio profissional inatacável”.

Outra das belas nostalgias de A ganhar ou a perder é esta descodificação do mundo futebolístico em redor da cadeira do autor, que varia entre o sofá de casa, o lugar no estádio ou a mesa do café do bairro. E nesse mundo há os bons adeptos, os maus adeptos e, simplesmente, os gentios, que não percebem nem querem perceber esta emoção mas se misturam com as hostes de doentes do futebol. São os adeptos imparciais ou que não sabem o nome dos onze titulares da sua equipa. São os que não sabem o que é chorar baba e ranho quando a equipa perde um jogo importante.

Mas pior ainda do que o adepto gentio, é o adepto gentio novo-rico. Como é o Chelsea, clube londrino que representa não só um bairro de classe alta como a sátira financeira em que o futebol se tornou, mais internacional do que minimamente ligado ao povo da sua terra. E isso nota-se nas bancadas, segundo o autor, onde apenas se veem “ingleses aburguesados pelo dinheiro do novo-riquismo. Ganharam o jogo e nem demos por eles. Foi como se não tivessem estado lá.” Ou como o Futebol Clube do Porto nessa época de 2014/2015, que, “por vícios de estranho novo-riquismo que o levou a açambarcar-se de todo o jogador preterido de equipas espanholas que desse sinais de vida, parece um Frankenstein, feio como se impõe mas inofensivo.” Pior do que completamente descaracterizado, o plantel do ano passado era, para Mário Lopes, um “corpo estranho na própria história do clube e um ser aluado do futebol português, incapaz de perceber toda a carga emocional que um clássico implica.” O pecado maior de esquecer as raízes, que importa ainda mais quanto mais global se torna este desporto.

E o jornalista tem, nessa noção de história, vantagem sobre a maior parte das pessoas que escrevem sobre futebol. Como, por exemplo, quando o Sporting perde contra o Vitória de Guimarães, “um portento formado por nomes como João Afonso, André André, Hernâni ou Bernard, uma versão instantânea e efémera do Ajax de Cruyff ou do Nottingham Forest de Brian Clough, duas equipas lendárias de sucesso improvável, precisamente como o Guimarães de 1 de Novembro de 2014.” Quem compare o Guimarães ao Nottingham de Clough sabe do que fala.

E sabe mesmo. Nesta espécie de diário do adepto sportinguista, Mário Lopes sabe descrever o que se passa em campo e a memória das jogadas decisivas dos jogos, mas o lugar central é do adepto, é da teia de comprimento variável que liga o fã ao seu clube, independentemente da distância a que se encontra do relvado – quer sejam os poucos metros entre a linha lateral e a bancada, quer sejam os largos quilómetros que vão do Estádio de Alvalade às Avenidas Novas, à Baixa-Chiado ou a qualquer café perdido por este país.

E é nessa dedicação fiel, honesta e autoconsciente, embora não imparcial, que a escrita de Mário Lopes encontra os melhores momentos. Como na subtil homenagem que leva o seu Sporting a fazer (sem saber) ao West Ham, de Londres. Tudo devido a um livro que encontrou na loja desse clube, um livro que conta a história de 30 jogos marcantes na vida da West Ham. “O critério da escolha é, em si mesmo, o uma bonita lição. Lado a lado com as vitórias na Taça de Inglaterra ou nas Taça das Taças, estão derrotas inesperadas com zés-ninguém da 2.ª divisão ou hecatombes tenebrosas. E uma escolha justa e nobre. Ou somos por inteiro ou não somos. E o Sporting não seria o Sporting sem a sua tendência inata para as grandes tragédias.”

Por outro lado, é também nos exageros de prosa poética sobre o Sporting que o tom sai um bocadinho dos limites do bom gosto. Como é o caso do orgulho pela equipa de hóquei do clube, que acabara de vencer, em abril de 2015, a Taça CERS, uma importante competição europeia na modalidade. E é aí que resvala o vocabulário para o exagerado, dizendo que “terras de Espanha testemunharam ao vivo o querer renascido do stick verde e branco.” Sejamos honestos: qual Whitey Bulger e seu cúmplice no FBI, são “querer renascido” são duas palavras que nunca deveriam ser vistas juntas.

Diga-se de passagem, a falha é intrínseca ao género. E quem abre A ganhar ou a perder: um ano de Sporting e folheia as primeiras páginas já sabe ao que vai. Mário Lopes escreveu um livro simpático, o livro possível quando se escreve não enquanto fã da modalidade, mas enquanto adepto de cartão do clube a ser lembrado. É um campo minado, mas do qual acaba por sair ileso pela capacidade de escrita, apesar dos acidentes de tom que se podem esperar neste tipo de livro. Mais ainda quando o clube é o Sporting, que tem andado tem perto do oito e do oitenta. Um clube que, pela sua própria história recente (ou desde os anos 1980, vá), convida à representação trágica. Valha-lhes (aos sportinguistas) a taça conquistada no fim do ano, antes da chegada de Jorge Jesus. Foi um ano em que, numa “tarde inesquecível no Jamor, ganhámos a Taça de Portugal como só o Sporting a poderia ganhar – o dramatismo épico está-nos no sangue.” No sangue e na prosa.

Mário Lopes, A ganhar ou a perder: um ano de Sporting. Lisboa: Edições Paquiderme, 2015

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