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Dez discos para sobreviver ao Natal

Texto: DANIEL BARRADAS

Chegou dezembro e, como todos os anos, a banda sonora que nos diz que o Natal está por perto… Aqui ficam dez ideias para ouvir. Umas mais canónicas. Outras mais… alterativas.

“No Natal pela manhã ouvem-se os sinos tocar… “

Amiguitos do Coro de Santo Amaro de Oeiras: se fosse só na manhã de Natal estaríamos nós muito bem! O problema é que os sinos, sininhos, guizos, xilofones e semelhante parafernália que satura as canções de Natal se começam a ouvir logo em Outubro. Na fatídica manhã de Natal já estamos fartos deles e, no dia 26, quando somos obrigados a entrar num centro comercial para trocar aquele CD anual da Enya por um mui preferível par de peúgas, a banda-sonora do sítio impõe entre lojistas e clientes uma tensão de cortar à faca assim que voltam a soar os sinos do Jingle bells.

Há sem dúvida um grande conforto na canção de Natal, sejam os cânticos para embalar o menino Jesus, sejam as alegres melodias que nos falam de trenós na neve. A primeira vez no ano em que se sai à rua e se ouve o Winter wonderland há uma coisinha quente que acorda no coração e que é o equivalente a tirar as bolas da árvore da arrecadação e sentir aquele cheirinho químico da neve artificial que ainda pressiste. Mas um dos grandes problemas do Natal pop capitalista (e admitamos, é o que verdadeiramente nos afecta a todos) é o seu limitado cancioneiro que condiciona os lojistas a repetir sempre as mesmas canções até ao enjoo fatídico. É verdade que o cancioneiro tem aumentado ligeiramente ao longo dos anos. Devemos alguma coisa aos Wham! pelo seu Last Christmas, ou à Mariah Carey pelo All I want for Christmas is you. Ofereceram-nos canções bem mais realistas e devidamente egocêntricas, à medida do Natal moderno que se resumem em: “Não quero saber dos presentes, o que eu preciso é do teu amor (físico).”

Nos bons velhos anos 80, a verdadeira estrela pop saía-se com um singlezito de Natal. Com o declínio da homogenia mercantil da música essa tendência foi degenerando e hoje, quando algum artista se sai com um álbum de natal (passou-se do singlezinho para os álbuns inteirinhos) a coisa soa quase sempre, literamente, a desespero.

Felizmente, como em tudo, há excepções. Por exemplo, Ella Fitzgerald, Johnny Cash, Annie Lennox e Bob Dylan (sim, esse mesmo!) safaram-se muito bem nos seus respectivos álbuns de Natal. Quando ouvimos Bob Dylan a cantar “Have yourself a merry little Christmas” sabemos que ele genuinamente nos está a dizer para nos deixarmos de tretas e emborcar a garrafa de vinho do Porto em vez de bebermos a pomada aos copinhos. É extremamente consolador ouvir estas canções de sempre interpretadas por alguém que verdadeiramente percebe o espírito da quadra. Quando o disco chega a Must be Santa, também queremos saltar com o Bob para cima de uma mesa e dançar com os seus amigos naquele bar irlandês (ou são os Marretas?… Gosto de imaginar que isto foi gravado com as galinhas dos Marretas bêbadas num bar irlandês).

Mas o que ainda nos consegue ir salvando os Natais são os pontuais álbuns que se estão um bocado nas tintas para o cancioneiro, feitos por artistas que sabem que a música é essencial para sobreviver aos rigores e escuridão do Inverno e às reuniões familiares. Deixo-vos então com uma pequena lista de pérolas natalícias, de álbuns feitos com canções originais ou pelo menos com uma percentagem reduzida de melodias de apelo a São Gregório.

10- Beach house – “Depression Cherry”
Admito que esta lista começa logo com uma batota. Isto não é oficialmente um álbum de Natal. Mas, caramba, é o álbum mais natalício que saiu este ano! Começa logo por ter uma capa de veludo vermelho que é de certeza um farrapo roubado ao bolso do rabo das calças do Pai Natal. Depois tem a música mais xaroposa que os Beach House já fizeram. Não importa se estão a passar o Natal a sul do equador numa casa de praia. Ponham este disco a tocar vão sentir logo a necessidade de calçar umas meias de lã e fazer um chocolate quente.

9- Beach boys – “The beach boys’ Christmas album”
Da casa para os rapazes da praia. Em 1964 os Beach Boys lançaram este álbum com cinco originais que ainda hoje soam muito bem. Little Saint Nick chegou mesmo a entrar para o tal cancioneiro mítico e, de entre as inúmeras versões que têm sido feitas, recomenda-se a dos She & Him. O lado B do álbum já é outra coisa, com os rapazes bem comportados a harmonizarem standards com uma orquestra que tenta soar cool mas nunca consegue. Este lado é obviamente algo a evitar.

8- James Brown – “James Brown’s funky Christmas”
James Brown+Funk+Natal… Isto cheira mais a outro vegetal do que a agulhas de pinheiro…. Este senhor tem mais dois (!!) álbuns de Natal mas este é o melhor.

7- Low – “Christmas”
O álbum de Natal dos Low é precisamente o que se esperaria de uma das bandas mais deprimidas e niilistas que por aí há. Misturando alguns clássicos com composições originais, este disco é a maneira certa de matar o espírito natalício em qualquer festa. Ninguém quer abrir presentes depois de ouvir isto. É perfeito para adolescentes que se queiram fechar no quarto e ignorar a família durante as festividades.

6- Kate & Anna McGarrigle -“The McGarrigle Christmas hour”
Como a família é inevitável no Natal, aqui fica a prova de que por mais disfuncional que uma família seja, a música serve para a harmonizar. No seguimento do também muito recomendável álbum The McGarrigle Hour, o clã McGarrigle/Wainwright e amigos juntaram-se para um serão de canções clássicas e originais. Destaque para o socialmente interventivo Spotlight on Christmas, escrito e interpretado por Rufus Wainwright.

5- Danny Elfman – “The Nightmare Before Christmas”
A banda sonora deste filme se calhar não devia figurar nesta lista porque já merece ser considerado um clássico mas a verdade é que não se vai ouvir Kidnap the Sandy Claws nos corredores dos centros comerciais. E embrulhar os presentes lá em casa ao som de Making Christmas não é para todos, mas para quem se identifica com o espírito, não há nada melhor.

4- The Rosebuds – “Christmas Tree island”
Talvez seja triste dizer isto, mas Christmas Tree Island é o álbum mais interessante dos Rosebuds. Talvez por precisamente serem daquelas bandas que não arrelia nem entusiasma ninguém, conseguiram fazer o mais perfeito album para festas de Natal. É relativamente animado sem nunca entrar em devaneios e está cheio de canções que soam vagamente reconhecíveis sem no entanto serem os êxitos que tanto nos atormentam em espaços comerciais. Não é preciso dar-lhe muita atenção por isso funciona perfeitamente como papel de parede sazonal. Toda a família vai gostar disto. Podem pô-lo a tocar para haver paz e alegria enquanto se trincha o perú.

3- Sufjan Stevens – “Silver & Gold”
Outra batota. Isto na verdade é uma colectânea de EP. A solo ou junto com um grupo de amigos, ora interpretando clássicos ora as suas próprias composições, Sufjan Stevens tem vindo a lançar anualmente gravações caseiras que são as suas reflexões sobre o espirito e significado do Natal. Há por aqui muito que explorar e descobrir. Ouça-se Christmas unicorn como exemplo da diversão musical que aqui se encontra.

2- Tracy Thorn – “ Tinsel and Lights”
Em 2012, Tracy Thorn juntava-se ao grupo dos bravos que conseguem fazer um álbum de Natal quase só com composições originais. Há lá pelo meio umas simpáticas versões de Have yourself a merry little Christmas e de River (de Joni Mitchel), mas o disco vale por momentos que, sem precisarem de chocalhos ou sininhos, acertam em cheio no que é o espírito Natalício como “Joy” ou “Snow”.

1- Hymns from Nineveh – “Endurance in Christmas time”
Ainda dentro de um universo relacionado com Sufjan Stevens, temos a banda Dinamarquesa Hymns from Nineveh, que é a única que conheço com um álbum de Natal que pode e deve ser ouvido em qualquer altura do ano.
Endurance in Christmas time foi lançado ainda no mesmo ano (2011) do seu album de estreia mas não são nem restos nem um disco menor. As suas 13 canções formam um ciclo de reflexão sobre o que significa o Natal sem cair em facilitismos ou sentimentalismo barato. Os Hymns from Nineveh são uma banda de inspiração cristã e este disco faz todo o sentido no conjunto de álbuns que lançaram até ao momento. Atenção que não são um banda de propaganda religiosa, são uma banda que questiona a condição humana num contexto religioso. E é isso que faz toda a diferença. Este disco está cheio de momentos de excelência como Christmas is here, Endurance in Christmas time ou Colour bird. E se vos posso dar uma prenda de Natal, é sugerir que ouçam a canção Winterfire. Aqueçam o coração com ela.

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