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Quando os Beatles ajudaram a inventar os telediscos

Texto: NUNO GALOPIM

Através da antologia de filmes promocionais e atuações televisivas que surgem reunidos em “1” podemos observar como os Beatles tiveram um papel central na história da criação de imagens para a música pop.

Onde terá tudo começado? Nos filmes de Elvis Presley há, logo desde bem cedo, uma procura de criação de quadros visuais para receber as canções, muitas vezes abrindo janelas para além do curso da narrativa… Eram, todavia, descendências naturais do cinema musical, tal como as que surgiriam em filmes pouco depois protagonizados por Cliff Richard, que transportaram ideias semelhantes para solo britânico. De verdadeiramente novo o que ali acontecia estava no plano da banda sonora e de uma expressão visual da nova e emergente cultura jovem… Para podermos falar de uma história de pioneirismo do teledisco teremos de avançar um pouco no tempo… E esperar pela entrada em cena dos Beatles.
Apesar de algumas comichões que o afloramento mainstream da cultura pop/rock causara entre a moral mais conservadora da época (e basta lembrar o “caso” gerado pelos movimentos de joelhos de Elvis numa atuação televisiva), a cada vez mais evidente expansão de uma nova música pop junto de um público mais jovem abriu espaços nos pequenos ecrãs. E, como tantos outros dos seus contemporâneos, os Beatles começaram a levar as suas canções a estúdios de televisão, mais tarde também eles chegando ao cinema, onde se estreiam em 1964 pelas mãos de Richard Lester em A Hard Day’s Night, juntando um segundo título à filmografia de ambos, em 1965, com Help!. Mas nesse mesmo ano uma outra novidade entra em cena; a criação de pequenos filmes promocionais para acompanhar as canções. Podemos chamar-lhe telediscos. Ou, pelo menos, ter consciência de que a sua herança genética passa por aqui.

Num mesmo dia (23 de novembro de 1965), os quatro fab four criaram, frente às câmaras comandadas pelo realizador Joe McGrath, cinco pequenos filmes promocionais para cinco canções, em todos eles surgindo traços do humor e nonsense que habitara já várias sequências dos filmes de Richard Lester. Em I Feel Fine, por exemplo, vemos Ringo numa bicicleta de pés fixos em vez de tomar o lugar na bateria. Em Ticket To Ride é ele quem está de pé, surgindo Paul, John e George sentados (o oposto do habitual). E em Help! estão numa trave, sobre a qual chove, as pingas na verdade caindo apenas sobre os três que não têm chapéu de chuva (Ringo, em evidência uma vez mais)… Das memórias de 1965 há ainda, e para acompanhar Eight Days a Week, imagens da mítica atuação no Shea Stadium… E assim, depois de uma série de meras filmagens de performances em estúdio ou em palco, a música dos Beatles acolhia novas expressões de uma outra forma de dar imagens às canções.

Um passo determinante na evolução do trabalho de criação de pequenos filmes para acompanhar as canções dos Beatles chega a 20 de maio de 1966 quando, agora com Michael Lindsay Hogg como realizador, se juntarem em Chiswick para filmar imagens para acompanhar Paperback Writer e Rain (este último tendo uma versão alternativa rodada na véspera em Abbey Road. Os fab four tinham entretanto decidido afastar-se dos palcos para concentrar o trabalho na escrita e no estúdio. Os pequenos filmes eram, agora, as janelas de visibilidade que a sua imagem passava a ter, abrindo possibilidades ora mais cinematográficas (como em Penny Lane) ou regressando mesmo a soluções mais clássicas de performance (Hello Goodbye), havendo ainda instantes claramente criados em emissões televisivas como os que deram a ver All You Need is Love ou Hey Jude. A reta final da história visual dos Beatles passa ainda pela utilização de imagens do filme de animação Yellow Submarine, por momentos captados em Twickenham (nas sessões do filme Let it Be) ou a célebre atuação nos telhados da sede da Apple, que nos habituámos a associar às imagens de Get Back ou Don’t Let Me Down.

A história dos telediscos dos Beatles e das outras imagens que ao longo dos anos cumpriram objetivos semelhantes é revisitada agora em 1, a versão em DVD e Blu-ray da antologia de canções que alcançaram o número um nos EUA e Reino Unido e que junta ainda os filmes promocionais de Something, The Ballad of John and Yoko (num registo documental) e um mais recentemente criado para Come Togehter. A antologia junta um segundo disco que inclui vídeos de canções que não atingiram o número um, entre elas os telediscos de Free as a Bird e Real Love, os inéditos trabalhados nos anos 90, o segundo dos vídeos mostrando, num momento informal, Ringo, Paul e George reunidos, muitos anos depois, novamente a trabalhar em canções dos Beatles.

“1”, dos Beatles, está disponível em DVD e Blu-ray em edição da Universal

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