Últimas notícias

30 anos de Pop Dell’Arte em 10 episódios

Texto: NUNO GALOPIM

No momento em que os Pop Dell Arte assinalaram os 30 anos de vida, com um concerto no passado sábado no CCB, evocamos aqui dez momentos marcantes da sua carreira.

Em meados dos anos 80 Lisboa vivia um tempo de desafio e de busca de novas ideias. Pelo menos assim o era na música, com o Rock Rendez Vous como palco na linha das atenções de novas bandas que queriam ser apenas iguais a si mesmas e diferentes de todas as outras, servindo então o recentemente lançado semanário Blitz e o programa Som da Frente de António Sérgio (na Rádio Comercial) de importantes janelas que asseguravam a comunicação sobre o que de novo e entusiasmante ali acontecia. Os Pop Dell’Arte não foram os únicos a surgir neste clima de efervescente desafio à criatividade. Mas pelo modo como juntaram referências – de Warhol a Fassbinder, sem esquecer importantes movimentos da aurora do século XX – e souberam olhar sempre para além da linha do horizonte das formas e regras instituídas, não só lançaram bases para um corpo artístico ímpar como, pela longevidade (e já lá vão 30 anos), sublinharam a conquista de um lugar de relevo na história da música portuguesa.

1985. Concurso de Música Moderna do RRV
Como tantas outras bandas suas contemporâneas, os Pop Dell’Arte nasceram com o concurso do Rock Rendez Vous como primeira meta a alcançar. Surgiram em Campo de Ourique (Lisboa) em 1984, com João Peste (voz), José Pedro Moura (guitarras), Ondina Peres (bateria) e Paulo Salgado (baixo) na formação original. Nos míticos estúdios daquele bairro (Musicorde) gravaram uma primeira maquete com a qual fizeram a inscrição. Ali se escutava Bladin, Turin Welisa Strada, Eastern Streets e Sonhos Pop). Não venceram o concurso, que seria arrebatado pelo projeto THC, mas conquistaram aquele que seria talvez o mais desejado dos troféus: o Prémio de Originalidade. Foi justo. E começou bem.

1987. “Querelle”
A criação, por João Peste, da editora Ama Romanta junta um dado importante a um novo panorama discográfico independente que começava a surgir em Portugal. Editada em 1986, a compilação Divergências, onde surgiam representados nomes como os Pop Dell’Arte, Mler Ife Dada, Croix Sainte, Essa Entente, SPQR, Linha Geral e outros nomes da linha da frente da nova música “moderna” portuguesa, e no qual surgia ainda a gravação de uma entrevista com o sociólogo Paquete de Oliveira, serve de manifesto a uma maneira de estar numa nova cultura alternativa que ganhava forma. Em 1987 os Pop Dell’Arte assinalavam, pela mesma editora, o lançamento do seu primeiro disco. Foi um maxi-single, com o tema Querelle na face A e Mai 86 no verso. Um teledisco, de José Pinheiro e Bruno Niel, criado para acompanhar a canção estabelecia naturais relações com referências do Querelle de Fassbinder.

1987. “Free Pop”
A plena confirmação de tudo aquilo que os Pop Dell’Arte vinham a mostrar desde a sua passagem pelo concurso do RRV teve materialização em Free Pop, álbum de estreia que podemos hoje reconhecer como uma das peças mais marcantes do panorama musical português da época e um dos feitos maiores de uma geração de músicos que evitou decalques e mimetismos de modas e tendências para afirmar antes os valores mais profundos da sua identidade. Com primeiros e importantes exemplos de recurso a técnicas de corte e colagem (como se escuta, por exemplo, em Berlioz), transcendendo ainda as formas canónicas da canção, Free Pop acentuou o desejo e a ousadia da experimentação tanto na música como na palavra e inscreveu alguns clássicos na obra do grupo, como Rio Line, Avanti Marinaio ou o avassalador Juramento Sem Bandeira, com a colaboração de Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta. Rafael Toral integrava nesta etapa a formação do grupo (mantendo-se até 1992). Nuno Rebelo colaborou na gravação.

1989. “Illogik Plastik”
Depois de um célebre concerto na Aula Magna em 1988, o passo seguinte na obra dos Pop Dell’Arte chega na forma de um EP com quatro temas, lançado no formato de um máxi-single. O disco incluía os temas Illogik Plastik, O Amor É… Um Gajo Estranho, Poema Para Noiva Circular Em Betão Armado, Plástico Cor-De-Rosa Com Rádio Digital Programado Em F.M. e Sprung Aus Den Wolken. No mesmo ano o grupo faz uma pausa, com a partida de João Peste para formar, com Jorge Ferraz (dos Santa Maria Gasolina em Teu Ventre), o projeto João Peste e Acidoxi Bordel. O projeto teria uma vida curta, de apenas poucos meses, gravando apenas um EP no qual regista os temas Groovy Noise-Dada Rock, Clio Software, Cocaine, Amigo e Distante Domingo.

1991. Ready Made
Uma nova etapa na vida dos Pop Dell’Arte entra em cena, com formação renovada que se apresenta em concerto antes mesmo de mostrar novas gravações. É com o máxi-single MC Holly / 2002 que se destapa o véu sobre uma nova demanda que, mais do que nunca, deixa clara a influência da obra de Marcel Duchamp. Este cartão de visita reflete ainda pontos de vista sobre ecos da club culture, ora assimilando a vertigem techno contemporânea na face A ora partindo numa viagem space disco cinematográfica e orquestral no lado B. Os dois temas seriam integrados no álbum Ready Made que seria lançado pouco depois e no qual surgem sinal de outros mais desafios e caminhos. No disco colaboraram Sei Miguel, General D e Salomé.

1995. Sex Symbol
A banda que ajudara a definir o paradigma de uma ideia de independência na música portuguesa – quer pela atitude de não alinhamento em ideias que não as suas quer pelo relacionamento editorial com o espaço das etiquetas independentes stricto sensu – surge em 1995 no catálogo de uma grande editora, ali apresentando o álbum Sex Symbol, talvez o mais versátil e ao mesmo tempo acessível de toda a sua obra (sem que tal tenha representado uma atitude de cedência). O disco teve como single o tema de fulgor rock’n’roll My Funny Ana Lana e apresentou um alinhamento que alargava horizontes até aos espaços de uma certa electrónica repetitiva em H2T, incluindo ainda temas como Zip Zap Woman, Poppa Mundi (um luminoso divertimento pop-ular), BeBop ou Planet Lakroon.

2002. So Goodnight
Um concerto de casa cheia no Forum Lisboa, em 1999, confirmava a dimensão de uma obra e do seu reconhecimento como caso maior de culto nascido do panorama pop/rock alternativo da Lisboa de meados dos 80. A noite, que chegou ao fim mais por obrigação dos horários da sala do que pela vontade dos músicos e da plateia, terminou com um tema novo, ouvindo-se em loop, em repeat, a expressão “goodnight goodnight”. Esse tema novo, que reafirmava o gosto pelo trabalho de colagem e repetição, surgiria como canção-título de um EP lançado em 2002. João Peste chamou-lhe mesmo um EPÁ… Além de So Goodnight surgiam também ali ali, entre seis temas, Mrs. Tyler e a versão de um standard de Natal, devidamente assimilada à la Pop Dell’Arte, como Little Drama Boy. A banda chegava em grande forma ao novo milénio.

2006. POPlastik (1985-2005)
Vinte anos depois do surgimento da primeira gravação em disco dos Pop Dell’Arte (no alinhamento da compilação Divergências) uma antologia entrava em cena para arrumar todo um corpo de memórias de duas décadas de trabalho mas, ao mesmo tempo, lançar pistas dos novos caminhos que a banda entretanto trilhava na sequência do recente EP So Goodnight. Com o título POPlastik, a compilação juntava num alinhamento de 20 canções temas clássicos como Sonhos Pop, Rio Line, Avanti Marinaio, Querelle ou Illogik Plastik com criações mais recentes como So Goodnight ou Little Drama Boy, acrescentando ainda os inéditos J’ai Oublié All My Life, Stranger Than Summertime e No Way Back, leitura de um clássico da house de Chicago, por Adonis que, em 2008, incluiria a versão dos Pop Dell’Arte num EP de tributo a este tema – lançado pela Mathematics Records – no qual seria ainda incluída uma remistura de Querelle por Steve Poindexter. Joaquim Pinto e Nuno Leonel criaram o artwork para o disco e ainda imagens para serem usadas em concerto, na celebração dos 20 anos dos Pop Dell’Arte.

2010. Contra Mundum
Após um hiato de quatro anos face a POPlastikm, durante o qual houve algumas abordagens de projetos internacionais a temas dos Pop Dell’Arte, o grupo apresenta em Contra Mundum o seu primeiro álbum de estúdio em 15 anos (recorde-se que So Goodnight era um EP, um mini LP ou, se preferirem, um EPA). O disco retoma a demanda muito pessoal que sempre caracterizou os caminhos musicais da banda, mostrando mais uma vez uma visão de horizontes largos capaz de encontrar unidade entre uma série de canções pelas quais a ideia de desafio e variedade voltava a ser uma realidade fundamental. Novamente com capa de Joaquim Pinto e Nuno Leonel o disco consegue por um lado herdar ecos colhidos na história da própria obra da banda (de serve de exemplo Ritual Transdisco, que foi aqui o cartão de visita), mas ao mesmo tempo ensaia outras formas e percursos, como ouvimos em canções como My Rat Ta Ta ou La Nostra Feroce Volontà d’Amore. Em vários momentos notam-se sinais de uma continuada (e muito pessoal) assimilação de formas e pistas escutadas na música de dança, todavia devidamente integradas na matriz, sempre vasta e aberta à experiência, da linguagem dos Pop dell’Arte.

2015. 30 anos no CCB
A celebração dos 30 anos de carreira dos Pop Dell’Arte levou-os ao Grande Auditório do CCB para aquele que foi um dos melhores concertos da sua carreira. Ao invés de outras ocasiões de palco não procuraram complementos pela imagem, focando atenções na banda (que naquela noite acolheu a presença do antigo companheiro Luis San Payo) e num corpo de canções que não se esgotou nas memórias, apostando mesmo, logo o início do alinhamento, na exposição da novidade, lançando pistas para aquele que será o próximo álbum do grupo, a editar possivelmente já em 2016. Na contagem decrescente para o CCB tínhamos já descoberto duas das novas canções. A primeira, Anominous, revelando um canto ativista atento ao presente, o segundo, La La La (It’s A Wonderful World) usando o sarcasmo também ao serviço de um olhar sobre os nossos tempos.

5 Comments on 30 anos de Pop Dell’Arte em 10 episódios

  1. Pedro Gonçalves // Dezembro 2, 2015 às 5:04 pm // Responder

    Pena terminar (um magnifico texto) em 1989… apenas uma observação: onde se lê “Axidoxi Bordel” deve-se lêr “Acidoxi bordel”. Este espaço tem recomendação de João Peste, pelo que considero justa este humilde registo acerca uma das melhores bandas portuguesas, senão a melhor.

    Gostar

  2. 1987 – Free Pop – correcção: “Rafael Toral colaborou na gravação”. Rafael Toral não “colaborou” mas participou na gravação como membro do grupo, o que manteve até 1992. Acumulou as funções de membro com a de co-produtor de Illogik Plastik, Ready Made, 2002 e do EP Acidoxibordel (não integrando esta última formação).

    Gostar

  3. Bom resumo, excelente texto!
    Subscrevo a opinião do concerto recente no CCB, foi mesmo muito bom.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: