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Ingmar Bergman segundo os Sparks

Texto: NUNO GALOPIM

Encomendado pela rádio estatal sueca, um ‘biopic’ sobre o realizador de cinema ficciona uma ida sua a Hollywood nos anos 50. Foi um dos discos mais injustamente ignorados dos Sparks.

A ideia partiu de um desafio do departamento de teatro da estação de rádio pública sueca: um musical criado pelos Sparks, com a necessidade de juntar um elemento da cultura/vida na Suécia… Depois de projetos cinematográficos frustrados que poderiam ter reunido os irmãos Mael a realizadores como Jacques Tati ou Tim Burton, a ideia de regressar ao universo do cinema ganhou forma numa narrativa que envolveria a figura de Ingmar Bergman, colocando-o numa história (ficcionada) que o levaria a Hollywood, onde executivos de grandes estúdios o desafiariam a fazer filme… num outro registo. Uma comédia.

A trama, projetada em meados dos anos 50, confrontaria Bergman com um modelo de financiamento garantido, mas sob cedências que o assombram num pesadelo que começa mal chega a Los Angeles e se vê nas mãos de uma agenda e rotinas sobre as quais não tem poder. Uma assombração que o atormenta e deixa aparentemente impossibilitado de qualquer fuga (ou mesmo contacto com o seu mundo) da qual é salvo por Greta Garbo, que o devolve ao rumo que a sua vida antes levava e, afinal, ao cinema que nunca deixou de fazer.

O disco que os Sparks editaram em 2009 corresponde à gravação áudio (em estúdio) do musical que criaram para a rádio sueca mas em versão inglesa (existindo todavia em formato digital a versão em sueco que foi originalmente transmitida). A música traduz a visão de horizontes largos de um grupo cuja obra já passou por espaços tão distintos como o glam rock, o disco sound ou a pop eletrónica, refletindo por um lado heranças naturais da música para teatro e aproximando-se claramente de um registo pop de câmara (e minimalista em algumas características da construção musical) que tão bem exploraram em Lil’ Beethoven (editado em 2002), uma das obras-primas da sua discografia. As canções servem claramente a condução da história que evolui tema após tema, entregando as vozes a cantores de diversas escolas e proveniências (da pop ao canto lírico) e juntando a presença dos próprios irmãos Mael.

O resultado é um dos melhores musicais alguma vez criados por músicos vindos de vivências pop, propondo uma construção musical e narrativa de raiz bem diferente do modelo de utilização de uma seleção em registo ‘best of’ como o fizeram outros musicais pop nascidos de canções dos Abba, Queen ou Boy George. The Seduction of Ingmar Bergman está assim mais perto da ideia de um musical criado de raiz como o fizeram em 2014 os Pet Shop Boys com um biopic de Alan Turing estreado no Royal Albert Hall, integrado na programação dos Proms.

Originalmente transmitido pela rádio, levado mais tarde ao palco e ainda à espera de uma eventual vida no grande ecrã, The Seduction of Ingmar Bergman conheceu edição limitada a 1000 CD num lançamento original, existindo depois em lançamentos digitais e em vinil duplo. O título pisca o olho ao percurso em jeito de biopic pop que, em 1999, os The Art of Noise, criaram em torno da figura de Claude Debussy. Ambos, convenhamos, são brilhantes exemplos de um poder conceptual que raras vezes é tão bem usado em álbuns de nomes ligados à cultura pop.

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