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Porque viver não é só recordar

Texto: NUNO GALOPIM

O concerto de celebração dos 30 anos dos Pop Dell’Arte não foi uma viagem de nostalgia. Mostrou antes uma banda em grande forma no presente. E lançou muito boas pistas para o novo disco que está no seu futuro próximo.

Foi um grande concerto?

Sim, um dos melhores de sempre dos Pop Dell’Arte.

E agora?

E agora a vida continua, e o concerto deixou claro que, 30 anos depois, estão a atravessar um pico de forma e as novas canções que apresentaram no palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém abrem apetite para um novo álbum que, prometido para breve, tem, pelos vistos, tudo para manter o raro feito de uma banda que nunca fez menos do que “muito bom”, bastando para tal recordar os anteriores Free Pop (1987), Ready Made (1993), Sex Symbol (1995), So Goodnight (mini álbum de 2002) e Contra Mundum (2010), mais os singles e os EPs que fazem uma das discografias mais saborosamente inventivas e únicas da história da música portuguesa.

Numa das várias citações que João Peste fez durante o concerto (que mesmo perante o apetite geral soube acabar após os encores que se exigiam, sem cair num sem-fim de celebração excessiva), passámos, sala também a cantar, por Recordar É Viver, de Vitor Espadinha. E o que felizmente os Pop Dell’Arte mostraram nesta noite em que celebravam 30 anos de uma obra única, sempre inventiva, sempre desafiante, nunca alinhada, é que nem só de recordações vale a pena viver. E por isso temas novos, entre eles Anominous (em arranjo mais encorpado) e o contagiante La La La (It’s a Wonderful World), animados de uma voz política que faz mais sentido do que nunca, garantiram que não se vivesse de nostalgias, mas de uma celebração feita no presente, ciente de todo um passado e apontada ao futuro.

Naturalmente o corpo maior do alinhamento fez-se de grandes memórias, que não esqueceram etapas fulcrais da obra dos Pop Dell’Arte, dos clássicos Querelle, Sonhos Pop, Rio Line, Poligrama, Juramento sem Bandeira ou Avanti Marinaio que nos farão sempre lembrar quão intensa era a visão com que se destacavam já entre contemporâneos nos tempos em que Lisboa descobria finalmente o que era uma cultura pop, sem esquecer o fulgor mais elétrico de temas da safra dos noventas como My Funny Ana Lana ou Green Lantern is on the Road Again, alargando horizontes a outras formas, cores e rumos em peças fulcrais na definição da identidade de horizontes largos do som dos últimos vinte anos de vida da banda como Poppa Mundi, Be Bop, My Rat Ta-Ta ou La Nostra Feroce Volonta d’Amore. Tudo isto, com Luis San Payo a juntar-se por uma noite à formação atual da banda. Foi um detalhe que não passou despercebido.

Arrumadas memórias e estreadas novas pistas a vida continua. Com a certeza de que, mesmo estando distantes os dias do RRV, as visões que fundaram a Ama Romanta e primeiros discos que marcaram a diferença num tempo em que não havia programas de televisão a ensinar a candidatos a ser talento como se devia cantar, nos Pop Dell’Arte continuamos a encontrar ideias na linha da frente do melhor da música que se continua a fazer entre nós. Agora e sempre, arriba, avanti, pop dell’arte.

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