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Sinatra em dez álbuns – “The Voice of Frank Sinatra”

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

A assinalar o centenário de Frank Sinatra, fica aqui uma seleção de alguns dos seus grandes álbuns. Hoje recordamos aquele que, em finais dos anos 40, representou a sua estreia no formato de LP.

Ao assinalar o seu centenário (que se celebrou a 12 de dezembro de 2015), a Máquina de Escrever tem vindo a apresentar, aos poucos, uma série de memórias sobre a vida e obra de Frank Sinatra com uma seleção de dez álbuns da sua extensa discografia.

São parcela relativamente curta de uma discografia extensa que, antes da chegada do LP (em 1948) tinha já vasta expressão em gravações editadas em discos de 78 rotações. De resto, o álbum “de estreia” de Frank Sinatra começou por se mostrar, em 1946, como um conjunto de quatro discos de 78 rotações unidos sob uma capa (e um conceito) comum.

“The Voice of Frank Sinatra” (1946)
Mal o LP entrou em cena, Frank Sinatra surgiu como um dos primeiros artistas a ter as suas canções editadas no novo formato que rodava a 33 1/3 rotações por minuto, e com uma qualidade sonora substancialmente superiora à que até então dava a escutar as suas gravações. Na verdade, os oito temas que surgiram no LP de 1948 – que foi o primeiro “long play” pop do catálogo da Columbia Records – tinham surgido num “álbum” de 1946 que não era mais do que um conjunto de quatro discos de 78 rotações arrumados sob uma capa comum. Este set de gravações é uma perfeita ilustração do estilo vocal de Sinatra no pós-guerra e junta uma seleção de canções de diversos autores – que vão de Cole Porter, a dupla George e Ira Gershwin ou a equipa formada por Bing Crosby, Ned Washington e Victor Young – em arranjos de Axel Stordahl . E ao juntar oito temas sob um ambiente comum, há quem entenda assim The Voice of Frank Sinatra como sendo o primeiro álbum concetual da história. Foi um êxito considerável, tendo atingido o número um da tabela da Billboard, logo na versão em 78 rotações de 1946. Reedições posteriores acrescentariam mais faixas ao alinhamento original de apenas oito canções.

“In The Wee Small Hours” (1955)
Depois de uma reta final dos anos 40 sob um clima de declínio, uma nova ligação editorial estabelecida em 1953 com a Capitol Records levou Frank Sinatra a definir novos rumos musicais e visuais. Se o álbum de estreia para a nova editora – Songs For Young Lovers (1954) – assinalou o início de uma frutuosa parceria com o maestro Nelson Riddle e o álbum seguinte – Swing Easy! (1954) – ajudou a definir a linguaem visual do que seria o Sinatra adulto, cabe contudo a In The Wee Small Hours, o terceiro disco para a Capitol e o primeiro lançado com as dimensões de um álbum de 12 polegadas, o fixar das novas linhas pelas quais não só surgiriam as gravações seguintes mas também o relançamento rumo a patamares maiores de uma popularidade que aqui é plenamente reconquistada. As canções focam destinos emocionais diferentes, referindo narrativas de amores perdidos, de relações falhadas e olhares interiores. O disco valeu a Frank Sinatra o seu maior sucesso desde 1947.

“Frank Sinatra Sings For Only The Lonely” (1958)
Na sequência de álbuns orquestrais como In The Wee Small Hours (1955) e Where Are You? (1957), Frank Sinatra projetou a criação de um novo disco de baladas, opção mais que certa num momento de absoluta forma vocal (nascendo entre estes discos e alguns que gravaria nos anos 60 algumas das obras mais marcantes da sua discografia). Sinatra procurava aqui trabalhar com Gordon Jenkins (com quem gravara o disco de 57 e com quem trabalharia, pouco depois, no sublime September of My Years), mas da impossibilidade de disponibilidade na agenda deste arranjador e maestro, acabou por voltar a Nelson Riddle, com quem assinara vários outros momentos, entre os quais o álbum de 1955 que representa o primeiro dos discos orquestrais desta etapa da sua carreira. Claramente marcado pela perda recente da mãe e uma filha, Riddle projetou entre os arranjos e direção de orquestra das canções de Frank Sinatra Sings For Only The Lonely um sentido de assombrada melancolia que se fez perfeito cenário para a voz de Sinatra gerando aquele que muitas vezes é apontado como o melhor dos seus (muitos) discos.

 “Come Fly With Me” (1958)
Foi em meados dos anos 50 que, com a consagração do formato do LP como o mais importante formato discográfico do seu tempo, começou a ganhar forma a ideia de definir um conceito, através de um conjunto de canções. Come Fly With Me foi dos primeiros exemplos de construção temática através de uma seleção de canções, representando ainda aquela que foi a primeira parceria entre Sinatra e o arranjador e maestro Billy May. Num tempo em que o avião tornava a ideia de viajar mais fácil, rápida e acessível, este disco traduz uma celebração dessa conquista através de uma série de composições que, além do tema-título expressamente composto por Sammy Cahn e Jimmy Van Heusen para este disco, inclui canções que sugerem um percurso geográfico que passa por lugares como a ilha de Capri, Nova Iorque, Vermont, Londres ou Paris, esta última visitada duas vezes, uma delas no clássico I Love Paris de Cole Porter.

“Come Dance With Me” (1959)
Durante algum tempo Frank Sinatra alternou a edição de álbuns orquestrais dominados por baladas e melancolia com discos mais festivos, pensados para dançar e com o swing como “maior” denominador comum. Editado em inícios de 1959, entre o belíssimo Only The Lonely (de 1958) e o menos vezes citado No One Cares (1959), Come Dance With Me assinalou um dos mais impressionantes registos “dançáveis” da discografia de Frank Sinatra numa etapa em que tinha já fixado definitivamente a personalidade da sua obra “adulta”. O disco nasce de um reencontro com os arranjos de Bill May, com quem perto de um ano antes tinha colaborado no temático e concetual Come Fly With Me e resultou não apenas num estrondoso sucesso (durante dois anos figurou entre a lista dos mais vendidos nos Estados Unidos) como valeu a conquista do Grammy para Melhor Álbum em 1960.

“September of My Years” (1965)
Editado em 1965, numa etapa em que era através da Reprise Records (criada pelo próprio) que lançava os seus discos, este foi o quinto episódio de colaboração com o maestro e arranjador Gordon Jeninks e o mais exemplar desses seus vários momentos de trabalho conjunto com orquestra. Além da brilhante escolha de repertório (essencialmente feita em canções relativamente recentes, algumas de autores então menos conhecidos, com espaço para alguns clássicos, um deles September Song, de Weil e Brecht), o álbum destaca precisamente um trabalho notável de uma orquestra sumptuosa que encontra o perfeito parceiro de diálogo num Sinatra, então com 50 anos, a viver os seus melhores dias como cantor. Disco sobre o envelhecimento e o valor da memória, tem entre o alinhamento não apenas o irrepetível It Was A Very Good Year (em cuja sessão de gravação esteve presente uma equipa de televisão, que levou depois essas imagens ao programa de Walter Cronkite) mas também o tema título que se tornou outra referencia da obra de Sinatra, tão pessoal na sua interpretação que raras foram as vezes em que outros abordaram esta canção. Registado em quatro sessões de gravação entre abril e maio de 1965, editado em agosto do mesmo ano (ou seja, celebra o seu cinquentenário em 2015), September of My Years valeu a Sinatra vários Grammys em 1966 e representou, depois de The Concert Sinatra (1963) o seu segundo grande lançamento através da Reprise, para a qual começara a gravar em 1961.

“Strangers in The Night” (1966)
Apesar de uma sucessão de títulos reconhecidamente marcantes e da manutenção de um estatuto que esses discos (e atuações ao vivo) então iam assegurando, coube contudo a este álbum de 1966 o assegurar do reencontro de Sinatra com um patamar de impacte maior, dando-lhe de resto o seu primeiro número um em seis anos. É um disco de caminhos musicais mais diversificados do que os seguidos por alguns dos álbuns mais estilisticamente focados que lançara nos últimos anos, cruzando a sua visão pop com o piscar de olho a alguns standards, num registo que traduziu ainda as últimas sessões em estúdio com Nelson Riddle e a sua orquestra (parceria de facto marcante numa etapa que aqui terminava). Este disco valeu a Sinatra alguns prémios que reforçaram depois o estatuto que o disco conquistou. A canção-tema valeu-lhe os Grammys para Gravação do Ano e Melhor Performance Vocal Pop e, a Ernie Freeman, o de Melhor Arranjo de Acompanhamento a um Vocalista ou Instrumentista. Nesse mesmo ano (1967), Sinatra venceria o Grammy de Álbum do Ano com o disco A Man and His Music.

“Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim” (1967)
Tinham já passado alguns anos sobre a colaboração mítica entre Stan Getz e João Gilberto, mas mesmo chegando depois, o flirt de Frank Sinatra com a bossa nova deu-nos, nesta parceria com António Carlos Jobim, um dos títulos mais saborosos da história dos diálogos da música brasileira com figuras de outras paragens. Sob discretos arranjos orquestrais de Claus Ogerman, e contando em estúdio com a presença do próprio Jobim, que toca piano, guitarra e chega mesmo ocasionalmente a cantar (em português), este alinhamento (na esmagadora maioria feito por temas do compositor brasileiro) abriu um espaço de colaboração que teria continuidade em sessões seguintes mas que tiveram depois um percurso editorial mais conturbado, acabando por surgir mais tarde, em antologias. Este disco, no qual a abordagem suave da voz de Sinatra lhe dá uma das suas melhores gravações na segunda metade dos anos 60, valeu uma nomeação para Melhor Álbum nos Grammys, cujo prémio caberia contudo aos Beatles, com Sgt. Pepper’s.

1970. “Watertown”
Tal como sucedera em finais dos anos 40, a reta final dos anos 60 não foi particularmente grata a Sinatra, sobretudo na relação do público com a sua música. O mais evidente sinal desse distanciamento ganhou forma num álbum editado em 1970, e no qual Sinatra ousava novas ideias e caminhos, mas que acabou por se revelar o maior flop comercial da sua discografia, dividindo muito as opiniões. 45 anos depois vale a pena reencontrar Watertown como, mais do que apenas uma ousadia, um dos melhores discos da obra de Sinatra. Criado em parceria com Bob Gaudio (elemento dos Four Seasons) e registado num método diferente do habitual, com a voz captada em estúdio já depois da orquestra gravada, Watertown é na verdade um parente próximo da visão pop/rock orquestral que Scott Walker tinha vindo a talhar a solo na sucessão de discos que lançara entre 1967 e 69. Tematicamente coeso, traduzindo mesmo a ideia concetual de uma narrativa (com cenário e personagens bem definidas) que as canções definem de fio a pavio, é um disco de canções que, sem voltar costas a heranças da obra de Sinatra, o colocam frente a novos desafios, que enfrenta maravilhosamente. Algo esquecido, é um dos grandes momentos da pop orquestral na fronteira entre os sessentas e setentas e um importante espaço de diálogo entre um certo classicismo que Sinatra representava e os caminhos da cultura pop/rock que ele nunca abraçou em pleno, mas aos quais aqui piscou, e bem, o olho.

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19 Comments on Sinatra em dez álbuns – “The Voice of Frank Sinatra”

  1. Onde estão os cinco álbuns que faltam? Disseram que eram dez, mas só mostraram cinco!

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  2. Matheus Bezerra de Lima // Junho 10, 2016 às 12:55 am // Responder

    Já é junho e faz muito tempo que vocês abandonaram o tópico. Por favor, continuem a postar álbuns e acelerem o ritmo.

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  3. Matheus Bezerra de Lima // Junho 14, 2016 às 1:33 am // Responder

    Espero que eu não precise botar pressão em vocês de novo para continuarem o post mais tarde. Frank Sinatra foi um cantor excepcional, o maior do século XX e não merece ser esquecido desse jeito nas matérias de vocês. Mas não tenho ressentimento. Abraços e lembrem-se: mitos como Frank Sinatra sempre merecem atenção imensa e tem grande público.

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    • Não é com “pressão” que se vai lá. É com tempo para poder reouvir os álbuns. Quando um blogue deixa de ser prazer de quem escreve para ser só prazer de quem lê algo vai mal.

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  4. Gostaria de sugerir que depois que você terminasse de fazer essa lista, você mencionasse nesse artigo alguns álbuns também muitos bons como menção honrosa.

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  5. Quando vai postar o próximo álbum? Dá para ser antes do final de Julho?

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  6. Poderia postar logo o próximo álbum? Já faz muito tempo desde a última postagem! E gostaria de sugerir também que depois que você terminasse de fazer essa lista, você mencionasse nesse artigo alguns álbuns de Frank Sinatra que você também considera muito bons como menção honrosa, visto que Sinatra tem muitos discos excelentes e é difícil escolher só dez.

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  7. Poderia postar logo o próximo álbum? Já faz muito tempo desde a última postagem! E gostaria de sugerir que depois que você terminasse de fazer essa lista, você mencionasse nesse artigo alguns álbuns de Frank Sinatra que você também considera muito bons como menção honrosa, visto que Sinatra tem muitos discos excelentes e é difícil escolher só dez.

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  8. Tá demorando demais para continuar. Você não demora tanto assim em outros posts.

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  9. Por favor, atualize esse post abandonado há muitos meses! Cansei de esperar!

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  10. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…. Esse é fã mesmo. Não sei se está entre os dez melhores, mas o álbum que me fez apaixonar por The voice foi Sinatra & Company com Antônio Carlos Jobim, Eumir Deodato e Don Costa.

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  11. Matheus Bezerra de Lima // Setembro 25, 2016 às 2:51 pm // Responder

    Por favor, atualize esse post abandonado há muitos meses! Cansei de esperar!
    Tá demorando demais para continuar. Você não demora tanto assim em outros posts.

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  12. Matheus Bezerra de Lima // Dezembro 6, 2016 às 7:12 pm // Responder

    Mal posso esperar pelo último álbum! Sugiro que seja Songs For Swingin’ Lovers!

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  13. Matheus Bezerra de Lima // Fevereiro 14, 2017 às 1:57 pm // Responder

    Está faltando um álbum para completar 10.

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  14. Matheus Bezerra de Lima // Março 15, 2017 às 5:54 am // Responder

    Ainda está faltando um álbum.

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  15. Matheus Bezerra de Lima // Março 22, 2017 às 9:43 pm // Responder

    Ainda está faltando um álbum, por favor.

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