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Os dez melhores filmes de 2015 (nº 1 – “Leviatã”)

Estes são os dez melhores filmes de 2015, segundo o voto coletivo da equipa da Máquina de Escrever. E no número 1 está…

Estes foram os dez filmes mais votados pela equipa da Máquina de Escrever. O método foi simples, pedindo a cada um que integra a equipa, independentemente das águas em que habitualmente navegue, que escolhesse os seus dez favoritos do ano, da soma das votações surgindo esta lista de dez.

1. “Leviatã”, Andrei Zvyagintsev
Aos 50 anos, o russo Andrei Zvyagintsev conseguiu nesta sua quarta longa-metragem dar um salto maior para o realismo e assinar aquele que é o seu filme mais acessível e naturalista. Com um olhar eloquente mas não pedante, o cineasta constrói em Leviatã um épico intimista com ressonâncias bíblicas em que sobressai a visão hobbesiana do homem como a mais terrível ameaça ao próprio homem, e que é atravessado por um sentimento de desespero existencial corporizado pelo protagonista, um pai de família empurrado para um destino trágico por forças de poder que, em vez de trabalharem no sentido de reforçar a coesão do contrato social, se deixam corromper e se tornam representantes dos mais cínicos, abusivos e perversos valores. – Nuno Carvalho

2. “Montanha”, de João Salaviza
Montanha pode ser considerado uma das respostas à pergunta que de há uns anos para cá preme os cineastas locais: “O que é isso de ser português?” (outros reflexos do ano que passa em As Mil e Uma Noites e Portugal, Um Dia de Cada Vez) Aqui, uma das respostas mais democráticas: o artifício de Salaviza tece neste argumento as linhas de vida de um imenso novelo anónimo esquecido pela República emancipatória. Por outro lado, os modos desajeitados da entrada na adolescência de David (Mourato) dão nova luz a certos caracteres culturais. Não há aqui abstracções, equilíbrio, o refúgio da racionalização (que a agenda liberal da austeridade obrigou meio milhão de portugueses a emigrar é um seixo ao lado disto). Contribui também a fotografia de Vasco Viana (que já nos habituou bem nas anteriores ficções de Salaviza), adicionando tensão com luz e sombra, ao subalterno e ao ordinário.- Lourenço Rocha

3. “As Mil e Uma Noites”, Miguel Gomes
“Fui sabedora de que há um triste país entre os países…”. As palavras de Xerazade antecipam um filme sobre um povo em crise. Um filme trágico, cómico, absurdo. Um filme à medida do país que temos. Aliás, não é um filme, são três. A trilogia de Miguel Gomes, qual epopeia dos tempos modernos, tem no coletivo o seu principal protagonista, tal como a obra mítica que lhe dá nome. Este espelho distorcido integrou a austeridade na sua estrutura através das histórias recolhidas por uma equipa de jornalistas – que mergulhou no quotidiano do Portugal contemporâneo para alimentar este épico melancólico. “A realidade de Portugal que eu encontrei era tão trágica, e em simultâneo tão cómica e tantas vezes tão absurda que decidi não partir de uma base feita de certezas. Nem de julgamentos: julgar não é a missão do cinema”, afirmou o realizador em entrevista ao Expresso na altura do lançamento do primeiro volume, O Inquieto. Seguiram-se O Desolado e O Encantado. A incerteza perpassa a trilogia, ao ponto de o próprio realizador abandonar o filme à sua sorte pondo-se em fuga logo nos primeiros minutos. Aqui, as fronteiras entre heróis e vítimas são difíceis de estabelecer. Realidade e ficção caminham lado a lado – da luta dos trabalhadores dos estaleiros de Viana a uma baleia-enfermaria que explode no areal da praia. O Desolado é o mais comovente dos três, demorando-se na história (real) dos donos do cão Dixie, um casal de meia-idade que decide pôr termo à vida. N’O Encantado, foi o canto dos tentilhões que embalou Miguel Gomes: “A coisa mais extraordinária que filmei na vida”. Nos três episódios há Perfídia, a canção mexicana interpretada por Xerazade (Crista Alfaiate), mas também infidelidade e insídia para com um país tragicómico. Considerado o oitavo melhor filme do ano pelos Cahiers du Cinéma e o quarto pela Sight & Sound (British Film Institute), As Mil e Uma Noites é uma trilogia eminentemente coletiva, muitas vezes de difícil digestão. Miguel Gomes admite não querer deixar o espectador “numa posição confortável”: “Não acredito num modelo de cinema que procura convencer o espectador de que aquilo que lhe é dado a ver e a ouvir é a realidade. Porque não é, nunca é. Mas se eu for capaz de expor ao espectador a estrutura e os artifícios do meu cinema, talvez aí consiga partilhar vontades, desejos, cumplicidades – como se estivéssemos a fazer o filme juntos”. De novo o coletivo. O resultado é uma obra tão inovadora quanto arriscada. São filmes assim que marcam a história do cinema. – Vânia Maia

4. “Divertida Mente”, de Pete Docter e Ronaldo Del Carmen
Para quem achava que a Pixar se tinha perdido de vez (no meio de sequelas desinspiradas de histórias marcantes do seu universo), eis que chegou Inside Out – e a nossa fé neste estúdio de animação voltou para ficar. Tem uma história sobre a vida normal de uma pequena família, através da perspectiva das emoções que tentam resolver os problemas do crescimento da filha. Alegria, Tristeza, Medo, Fúria, Repulsa: eis os protagonistas de Inside Out, uma das mais divertidas criações da Pixar, numa grande aventura cheia de fantasia (mas que nem por isso deixa de tocar na realidade), e uma bonita fábula sobre a passagem da infância para a idade adulta. É uma das grandes maravilhas animadas de 2015 e, arriscamos dizer, o melhor filme da Pixar até hoje. – Rui Alves de Sousa

5. “É Difícil Ser Um Deus”, de Aleksei German
Poucas vezes o cinema consegue intrigar, perturbar ou até mesmo incomodar como o mostra É Difícil Ser Um Deus, de Aleksei German. Baseado no romance homónimo de 1964 de Boris e Arcadi Strugatski – os mesmos autores do livro que inspirou Stalker, de Tarkovski –, embora despindo a trama a uma lógica que quase esconde a narrativa entre os gestos, falas e atitudes das personagens, Esta é, na sua alma mais profunda, uma obra de ficção científica. Leva-nos a um mundo distante, em tudo semelhante à Terra, mas vivendo como na Idade Média, num tempo em que uma milícia combate as vozes do conhecimento, vetando àquele mundo os tempos de transição para o renascimento que, entre nós, conduziria mais tarde a cultura ocidental a uma outra iluminação. Filmado a preto e branco (sob uma espantosa direção de fotografia), revelando uma art direction que vinca o facto de estarmos num lugar diferente de tudo e uma mise-en-scéne que sabe acentuar, pelo bizarro, o desconforto, a instabilidade, a presença sempre próxima da morte, É Difícil Ser Um Deus é uma experiência que, como agora se diz, é realmente “imersiva”. O filme tudo menos uma experiência de satisfação imediata… Mas depois de vencida a estranheza e náusea que os ambientes e gestos possam sugerir, não só nos é dada uma experiência visual invulgarmente diferente como, no fim, se faz afinal luz: como em toda a ficção científica mais não se fala ali senão sobre nós e o nosso mundo. – Nuno Galopim

6. “Love and Mercy”, de Bill Pohlad
Love and Mercy fala-nos mesmo da “força de um génio”, como indica o título português. Duas fases da vida de Brian Wilson, dos Beach Boys, são confrontadas no filme: os momentos de enorme criatividade no auge da carreira do grupo, e as consequências de novas ideias (como a criação do álbum Pet Sounds), não muito apreciadas pelos outros elementos da banda; e a decadência de Wilson, submetido ao tratamento feroz de um psiquiatra que queria dominá-lo para seu próprio proveito. O grande realismo deste drama é realçado pelas excelentes interpretações: Paul Dano como um Brian jovem e dinâmico, e John Cusack como o artista perdido e destruído à beira do colapso. A brilhante e tocante junção entre as duas personalidades recebeu os louvores do próprio Brian Wilson. – R.A.S.

7. “Vai Seguir-te”, de David Robert Mitchell
Os receios e ansiedades da adolescência são um tema caro ao cinema de terror e Vai Seguir-te (It Follows no original), segunda longa-metragem de David Robert Mitchell, trata-os com uma acuidade e sobriedade notáveis. A história podia ser aparentemente simples, mas a forma liberta e amoral com que o realizador a aborda dão-lhe uma multiplicidade de interpretações consoante as projecções individuais de cada um. Jay (interpretada por Maika Monroe) vê-se envolvida numa espécie de culto mortal sobrenatural depois de se ter envolvido com Hugh, que lhe passou a maldição através de relações sexuais. A partir daí Jay passa a ser seguida por um ser (?), a um ritmo zombie, mas que só ela consegue ver. Um filme sobre a promiscuidade sexual, sobre a força punitiva e castradora da sociedade judaico-cristã em relação ao sexo e à culpa que lhe associa, ou simplesmente sobre os medos adolescentes e como eles conseguem ser definidores da condição humana? Tudo está em aberto. – João Moço

8. “A Jaula de Ouro”, de Diego Quemada-Díez
A verdade tem poucos adeptos. Essa será talvez uma das razões para a pouca visibilidade que entre nós teve A Jaula de Ouro, estreia na realização de Diego Quemada-Díez, um espanhol de nacionalidade mexicana que aos 44 anos assina um filme que surpreende pela forma autêntica como retrata a realidade dos migrantes, centrando-se na odisseia de três adolescentes guatemaltecos que procuram atravessar clandestinamente a fronteira mexicana em busca do sonho americano. Um sonho que para muitos se revela um eldorado ilusório e uma delirante esperança de libertação. Com um excelente trio de atores não profissionais, A Jaula de Ouro mantém uma curiosa semelhança com Sem Nome (2009), de Cary Fukunaga, também esta uma impressionante primeira obra. – N.C.

9. “O Conto da Princesa Kaguya”, de Isao Takahata
O fascínio de uma primeira vez. Como terá sido assistir às primeiras imagens de animação em movimento? É a esse momento primordial que a última obra de Takahata parece voltar. Um conto tradicional japonês através do qual o realizador destila a sua sabedoria e a do seu povo, mas também suscita espanto perante a simplicidade e grandiosidade dos primeiros passos de um bebé, ou das alegrias da natureza. Daí que comovam enormemente estas linhas simples mas de impressionante beleza, estas cores excelsas: são a pérola, a essência, a perfeição que anos de trabalho permitem atingir. É um mundo paralelo, espelho do nosso em muitas coisas, mas estranho, ilógico noutras. Um lugar de liberdade e melancolia onde, apenas devido à exaltação, as personagens começam a voar. Culmina tudo numa das cenas mais belas vistas no cinema de animação: um fascinante, mas perturbante, desfile de deuses, ao som da música do cosmos. – Diogo Seno

10. “Ex Machina”, de Alex Garland
No cinema, de Garland conhecíamos os argumentos para 28 Days Later e Sunshine, de Danny Boyle e Never Let me Go, de Mark Romanek. É sobretudo neste último que podemos encontrar as primeiras afinidades com a sua primeira longa-metragem: testar os limites do conceito de “humano”, a partir de uma história de ficção científica. Demasiado visto? Sim, no cinema não faltam exemplos, desde 2001 a Her. Mas aqui, as questões são levantadas a partir do jogo sedutor do thriller, das superfícies, do sugerido e entrevisto de uma trama sentimental cheia de ambiguidades. Uma “peça de câmara”, constituída por longas cenas de diálogo num misterioso e envolvente cenário. Qualquer coisa de primitivo, ideias perturbantes sumarizadas em imagens cristalinas: como aquela de um cérebro “omnipotente” (porque capaz de chegar a todo e qualquer dado ou sentimento alguma vez “registado”) ou a de Eva, a robô (?) em frente à imagem de uma árvore, a fazer lembrar a personagem bíblica que lhe dá nome. – D.S.

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3 Comments on Os dez melhores filmes de 2015 (nº 1 – “Leviatã”)

  1. Ex Machina é um filme de câmara com apenas três protagonistas: Caleb, um informático que ganha um prémio na empresa onde trabalha que lhe permite conhecer Nathan, o líder inspirador e recluso dessa empresa, e com ele passar um fim-de-semana na sua casa retiro de montanha. Aí Nathan apresenta Ava, uma rapariga robot que representa uma evolução radical no que respeita à inteligência artificial a Caleb. O que começa por ser uma experiência fascinante torna-se num jogo de aparências e manipulação. Mas quem manipula quem? António Araújo – http://www.segundotake.com

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  2. Gostei bastante do filme. Mas alerto para a falta de qualidade da imagem da edição em dvd nacional.

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  3. Miguel Gomes é um cineasta único. Não conheço toda a sua filmografia mas bastará Aquele Querido Mês de Agosto e agora o tríptico As Mil e Uma Noites para perceber que tem uma voz única e original. https://segundotake.com/podcast/2015/11/1/episodio3

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