Últimas notícias

Os dez melhores livros de 2015 (nº 1 – Elena Ferrante)

Estes são os dez melhores livros de 2015, segundo o voto coletivo da equipa da Máquina de Escrever. E no número 1 está…

Estes foram os dez livros mais votados pela equipa da Máquina de Escrever. O método foi simples, pedindo a cada um que integra a equipa, independentemente das águas em que habitualmente navegue, que escolhesse os seus dez favoritos do ano, da soma das votações surgindo esta lista de dez.

1. “História do Novo Nome”, de Elena Ferrante
(Relógio d’Água)
Seria fácil reduzir Elena Ferrante ao mistério de um pseudónimo que esconde uma identidade não revelada, mas o segundo volume da chamada “tetralogia de Nápoles”, História do Novo Nome, mostra que a sua identidade enquanto escritora é biografia suficiente. “O único espaço onde o leitor deveria procurar e encontrar o autor é o da sua escrita”, respondeu a autora numa das raras entrevistas (escritas) concedidas. A amizade tumultuosa de Lila e Lenú é o fio condutor da narrativa que, neste segundo volume, nos conduz da adolescência ao princípio da idade adulta das duas raparigas. Ambas transportam o ambiente repressivo da Nápoles do pós-guerra, uma cidade que se lhes cola à identidade. Sempre a identidade. Lila casa com um dos rapazes mais ricos do bairro, enquanto Lenú vê na educação a sua possibilidade de ascensão social. Mas o bairro continua nela, e é difícil escapar-lhe. Ferrante assume que deita fora as páginas muito reescritas: “Pertenço ao número dos que preferem o rascunho à página aperfeiçoada”. Essa escrita torrencial é notória todo o tempo, ao ponto de tirar o fôlego, tornando o aparentemente simples quotidiano num thriller capaz de obcecar o leitor. Há uma intimidade revelada de forma cinematográfica, mas iminentemente literária, fazendo justiça ao que a autora entende por honestidade na literatura: “Dizer a verdade, como só a ficção pode permitir dizer”. Talvez seja por culpa desta honestidade que o virar da última página resulta num vazio, um desamparo. Como se entre Lila e Lenú só houvesse espaço para um único cúmplice. Cada um de nós. – Vânia Maia

2. “Arranha-Céus”, de  J.G. Ballard
(Elsinore)
Originalmente publicado em 1975, Arranha-Céus (High Rise, no original) é uma “metáfora extrema” da progressiva caminhada em direção ao caos de um edifício de quarenta andares que alberga duas mil pessoas. A partir da personagem principal, Robert Laing, um bem-sucedido professor de medicina (provavelmente inspirada em R.D. Laing, um dos principais líderes do movimento antipsiquiatria), J.G. Ballard constrói uma narrativa obsessiva e circular que descreve uma espécie de espiral noturna e psicopatológica em que a natureza isolada e fechada do luxuoso condomínio favorece a expressão dos mais anárquicos comportamentos antissociais. Arranha-Céus é, na verdade, uma poderosa e inventiva metáfora sobre o estado de regressão psicológica e alienação para o qual a vida moderna nos pode empurrar. – Nuno Carvalho

3. “1915 – O ano do Orpheu”, de Steffen Dix (org.)
(Tinta-da-china)
Cem anos depois da publicação da revista Orpheu, a editora Tinta-da-china lançou um livro que arrisca ser o mais importante do ano, pelo menos no domínio da não ficção. Organizada pelo investigador alemão Steffen Dix, que tem estudado os modernistas portugueses e editado Pessoa em terras germânicas, a obra reúne mais de vinte artigos e ensaios de outros tantos investigadores e professores (como Manuel Villaverde Cabral, Nuno Júdice, Filipa Lowndes Vicente, José Barreto, Jerónimo Pizarro, entre muitos outros) sobre aquele ano. Ao contrário do que é habitual em obras sobre a geração de Orpheu, estes textos não se focam apenas no legado literário e artístico. Pelo contrário, procuram tirar um retrato ao impacto da revista no seu ano, quer nas pessoas envolvidas no movimento, quer no contexto político, social e intelectual em Portugal e no estrangeiro. Ou, como afirma Dix, “procurámos reconstruir Portugal por volta de 1915”. Um clássico moderno sobre o tema. – João Santana da Silva

4. “Esse Cabelo”, de Djaimilia Pereira de Almeida
(Teorema)
Djaimilia Pereira de Almeida estreou-se em grande na literatura com Esse Cabelo, mistura de livro de memórias, ficção e ensaio que conta a história de uma rapariga nascida em Angola, numa família de misturas raciais, e que chega a Portugal em 1985, com apenas três anos, uma pele cor de café e carapinha, para morar com a parte branca da família. O que se segue é o relato do crescimento de Mila e da sua luta diária para lidar com os indomáveis caracóis, as muitas visitas a cabeleireiras africanas ou não, os cortes mais ou menos radicais. À medida que aprende a domar o cabelo vai também aceitando a sua identidade mestiça. Entre as memórias da infância e juventude e as histórias dos avós de Mila, o livro acaba por ser uma reflexão ao mesmo tempo tocante e pertinente sobre a condição da mulher negra em Portugal. – Maria João Caetano

5. “KL: A História dos Campos de Concentração Nazis”, de Nikolaus Wachsmann
(D. Quixote)
Num 2015 que assinalou os 70 anos do fim da II Guerra Mundial as memórias desses tempos, e em particular as dos campos de concentração do regime nazi, que foram sendo libertados nos primeiros meses de 1945, dando a conhecer ao mundo o que ali ocorrera, chegaram a vários livros novos. KL: A História dos Campos de Concentração Nazis, de Nikolaus Wachsmann faz um retrato amplo e cuidado sobre o sistema de campos de concentração, sendo um título fundamental na construção de um discurso histórico sobre o regime nazi. Com mais de 850 páginas, propõe uma ordenação temática e cronologicamente organizada sobre um sistema que o regime de Hitler colocou em marcha logo após a sua chegada ao poder em 1933. Segundo Nikolaus Wachsmann estes campos “encarnaram o espírito do nazismo como nenhuma outra instituição do Terceiro Reich”, explicando que “construíram um sistema de domínio distinto, com a sua própria organização, regras e pessoal”. Foram, por isso, lugares que “acabaram por refletir as obsessões da liderança nazi, tais como a criação de uma comunidade nacional uniforme através da eliminação de todos os estranhos políticos, sociais e raciais”. – Nuno Galopim

6. “Álvaro Cunhal, uma Biografia Política – Volume IV: o Secretário-Geral”, de José Pacheco Pereira
(Temas & Debates, 2015)
É um trabalho difícil, mas alguém tem de o fazer. As biografias políticas, em Portugal, são um terreno fértil em resistências intelectuais. A blindagem, a poeira e o revisionismo são ainda muito ativos em relação ao século XX português, condenando assim qualquer tentativa de memória histórica e investigação à fama de “falta de imparcialidade” ou tentativa de limpar ou manchar o nome do biografado. Tem sido essa a sina da excelente biografia de Álvaro Cunhal, em vários volumes, por José Pacheco Pereira. Dez anos depois do terceiro volume, eis que saiu o quarto, agora abarcando o período da década de 1960. Cumpre o que o autor prometeu há cerca de dois anos, ou seja, começa na fuga de Peniche e termina com a queda de Salazar. Deve-se lembrar que este trabalho hercúleo é, mais do que uma biografia de um político, uma história política do PCP e do Portugal do século passado. E que é a obra de uma vida. – J.S.S.

7. “Oblomov” Ivan Gontcharov
(Tinta-da-China)
Esta nova tradução de Oblomov, do escritor russo Ivan Gontcharov, permite-nos tomar contacto com um livro que estava há muito desaparecido das livrarias portuguesas. A primeira edição entre nós data de 1970, pela Civilização Editora, com tradução de Daniel Gonçalves. A tradução que agora a Tinta-da-China edita é de António Pescada, e na contracapa do livro Ricardo Araújo Pereira apresenta-nos assim a personagem epónima: “Oblomov parece uma caricatura, mas é um ser humano. É uma daquelas personagens cujo nome passa a integrar o léxico de um país, e se tornam símbolo de determinada característica humana. Assim como dizemos de um discurso que é acaciano, ou de uma atitude que é quixotesca, os russos usam a palavra oblomovismo para designar uma certa indolência apática. Não é uma indolência que rejeita a vida, como a de Bartleby, nem uma incapacidade de agir motivada pela ponderação das consequências dos seus actos, como a de Hamlet. É uma indolência pueril, de quem não pode nem quer abandonar a infância para entrar num mundo perigoso, aborrecido, contrário ao seu conceito de vida, e no qual se valoriza uma actividade abominável: o trabalho. Oblomov está assoberbado de inércia como uma criança aborrecida.” – Nuno Carvalho

8. “A Zona de Interesse”, de Martin Amis
(Quetzal)
Martin Amis regressa não apenas ao Holocausto (que já havia abordado em Time’s Arrow: or the Nature of Offence, nos anos 90) mas a Auschwitz, através de uma narrativa que decorre na essência num tempo que assiste já ao funcionamento de Birkenau como campo de extermínio mas precede os gaseamentos em massa de 1944. Um oficial das SS, o comandante do campo e um sonderkommando que tem sobrevivido mais que o habitual, conduzem-nos por um lado à construção de um retrato do quotidiano – os comboios, as seleções, as piras no prado –, permitem a caracterização de figuras moldadas por um contexto ou uma ideologia e conduzem-nos através de um plot amoroso. E é ao ter por fio de prumo uma trama que leva o amor a um lugar onde menos o esperamos encontrar (e com um epílogo que evita fios soltos), este livro representa mais um poderoso retrato do quotidiano em Auschwitz e, sobretudo, dos que ali detinham o poder durante os dias da II Guerra Mundial. – N.G.

9. “Olhando o Sofrimento dos Outros”, de Susan Sontag
(Quetzal)
O último livro de Susan Sontag a ser publicado antes da sua morte, em 2004, é um ensaio sobre a fotografia de guerra que funciona um pouco como uma adenda aos Ensaios sobre Fotografia. Nele a autora reflete sobre a guerra e as imagens fotográficas que a representam para concluir que, apesar do seu poder simbólico, há nestas muito de incompreensível para quem não viveu a experiência dilacerante e destruidora dos conflitos bélicos, mas também de irrepresentável, como se não fosse possível “exibir” a atrocidade intraduzível que significa o horror da guerra. Porém, Sontag não adota uma perspetiva romanticamente pacifista, defendendo que nem sequer os pacifistas acreditam hoje que a guerra pode ser abolida. Reedição portuguesa com algumas alterações. – N.C.

10. Truman Capote “As Primeiras Histórias de Truman Capote”
(D. Quixote)
Não foi há muito tempo que, entre os arquivos da Biblioteca Pública de Nova Iorque, foram encontrados aqueles que são agora os mais antigos textos de ficção de Truman Capote. São pequenos contos, nos quais ensaia primeiros passos não apenas na arte da criação de histórias, mas também numa forma de observar e comentar as figuras do seu tempo, juntando-se estes a outros textos que dele fazem um dos mais interessantes e contundentes retratistas da sociedade norte-americana do seu tempo numa edição que, tal como sucedera com Travessia de Verão, alarga a sua obra a escrita de uma fase de formação, mas já plena de marcas de identidade autorais. – N.G.

Advertisements

1 Comment on Os dez melhores livros de 2015 (nº 1 – Elena Ferrante)

  1. “Olhando o sofrimento dos outros” já havia sido publicado em português pela Gótica, logo em 2003.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: