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Os melhores filmes de 2015, por Diogo Seno

Texto: DIOGO SENO

Este ano a fantasia e a imaginação desenfreada tiveram a primazia nos filmes mais interessantes a estrear por cá.

Este ano a fantasia e a imaginação desenfreada tiveram a primazia nos filmes mais interessantes a estrear por cá. Não que não tenha havido espaço para o realismo ou os temas contemporâneos, como por exemplo em Montanha, ou no óptimo Citizenfour, filmes que ficaram fora da lista.

Aquilo que une parte dos filmes escolhidos é talvez uma vontade de falar sobre as inquietações do presente a partir da lente distorcida da fantasia. Foi isso que aconteceu sobretudo no filme mais original, e ambicioso, deste ano, as Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes.

It Follows, talvez um dos filmes de terror mais conseguidos dos últimos anos, uma espécie de Wes Craven filtrado pelo olhar de Van Sant, apesar de todos os indícios dos anos 80, não deixa de ser plausível enquanto recriação do presente. É a criação verosímil de uma realidade alternativa, perturbantemente próxima da nossa, mas onde as figuras adultas ficam de fora, que torna a metáfora do filme, a de uma doença sexualmente transmissível que se manifesta como um fantasma, assim forte.

Um sopro mítico parece ter passado também por estes filmes, do título de Phoenix, uma história de renascimento (das cinzas) ao de Ex Machina, alicerçado em mitologia até ao nome das personagens e mesmo Leviatã (talvez o filme mais realista, que ainda assim apresenta discretamente a figura bíblica que lhe dá nome, no oceano mas também em esqueleto, no decorrer da história). Sopro encontrado também, embora de forma diferente, em Mad Max: Estrada da Fúria, uma enorme aventura por um deserto onírico, uma longa cena de perseguição, que traz o imaginário dos filmes de acção de tons pós-apocalípticos para o presente, criando uma nova, inventiva e perturbante mitologia.

Minha Mãe é um maravilhoso melodrama no qual Moretti faz uso dos flashbacks e dos sonhos para desenhar a encruzilhada emocional das suas personagens. Que passado, presente e sonho se misturem com naturalidade é um dos triunfos maiores desta obra sussurrada, emotiva e cheia de ressonâncias.

A abrir e a fechar, duas obras de imaginação pura. Se o filme de Takahata é intemporal a partir da recriação de um passado que nunca foi, um remoto país da imaginação onde tudo é mais belo, e por isso mesmo também, mais triste, o filme de Scott é da ordem do intemporal a partir da idealização de um futuro que talvez nunca venha a ser, mas que, com o seu desarmante optimismo, pode bem guiar o caminho.

Não podia, por fim, de deixar de apresentar um top dos melhores filmes que vi nos vários festivais que aconteceram em Lisboa, e que foram sendo acompanhados na Máquina de Escrever ao longo do ano. É, de resto, a única hipótese de ver certas obras nas salas de cinema, uma vez que grande parte não encontram espaço nas estreias comerciais. Dois filmes da lista encontraram felizmente o seu caminho para as salas depois da passagem pelos festivais. Seria bom que o mesmo acontecesse aos restantes.

Filmes de 2015

1. O Conto da Princesa Kaguya, Isao Takahata
2. Minha Mãe, Nanni Moretti
3. Phoenix, Christian Petzold
4. Ex Machina, Alex Garland
5. Leviatã, Andrey Zviagintsev
6. As Mil e Uma Noites, Miguel Gomes
7. It Follows, David Robert Mitchell
8. Amour Fou, Jessica Hausner
9. Mad Max: Estrada da Fúria, George Miller
10. Perdido em Marte, Ridley Scott

Festivais de Cinema em 2015

1. Trois Souvenirs de ma Jeunesse, Arnaud Desplechin (LEFFEST)
2. 45 Years, Andrew Haigh (LEFFEST)
3. Praia do Futuro, Karim Ainouz (Queer Lisboa)
4. Realité, Quentin Dupieux (Festa do Cinema Francês)
5. Mustang, Deniz Gamze Erguven (Festa do Cinema Francês)
6. La Academia de las Musas, José Luís Guerín (LEFFEST)
7. Peace to us in Our Dreams, Sharunas Bartas (LEFFEST)
8. What we do in the Shadows, Jemaine Clement & Taika Waititi (MotelX)
9. Green Room, Jeremy Saulnier (MotelX)
10. Lilting, Hong Khaou (Queer Lisboa)

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