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1981. A voz de um movimento

Texto: NUNO GALOPIM

Editado no verão de 1981 o álbum de estreia dos Duran Duran revelou o grupo como a voz de maior impacte entre os “new romantics”. Em breve rumariam todavia a outras paragens…

Um álbum de estreia reflete muitas vezes a ideia do “story so far”, juntando canções que nessa etapa ainda sem discos ganharam primeiras vidas e solidez em palco. As várias mudanças pelas quais passou a formação dos Duran Duran entre 1978 e 1980 acabaram por deixar de fora do primeiro disco parte dessa história cabendo mais tarde a uma reunião do teclista (e fundador) Nick Rhodes com o vocalista do primeiro line-up, Stephen Duffy a oportunidade para, através do pontual projeto paralelo The Devils dar a conhecer o som e as primeiras canções dos Duran Duran de finais dos anos 70. A chegada do vocalista Simon Le Bon em 1980 fixou definitivamente o conjunto de cinco músicos que então deu primeiros passos na sua carreira discográfica em fevereiro de 1981 com o single Planet Earth. Com Simon Le Bon (voz), Nick Rhodes (teclas), John Taylor (baixo), Roger Taylor (bateria) e Andy Taylor (guitarra) – e na altura era preciso dizer que não havia parentesco entre os três Taylors – deram assim corpo àquela a que hoje se designa como “formação clássica” do grupo que se manteria em atividade entre 1981 e 85, reunindo-se depois do ano 2000 para gravar o álbum Astronaut (2004), com Andy Taylor a afastar-se novamente finda a digressão que acompanhou o lançamento do disco.

Depois de assinados pela EMI, a editora indicou-lhes como produtor Colin Thurston, que tinha sido engenheiro de som em discos recentes de David Bowie e Iggy Pop e que havia produzido já os Magazine e Human League. O trabalho para o álbum de estreia começa no verão de 1980 com sessões de gravação de maquetes em Londres. Numa primeira ocasião, em maio, registavam uma série de temas numa altura em que, no mesmo corredor, num outro estídio, os Japan gravavam Gentleman Take Polaroids. Haveria nova passagem por estúdios em dezembro. No dia da morte de Lennon, muito abalados mas com uma agenda a cumprir, registaram, entre outras, maquetes de Faster Than Light, Planet Earth ou Girls on Film.

O single de estreia, lançado em fevereiro de 1981, e aliado a duas novas ferramentas a que o grupo aderiu logo desde o início – o teledisco e o máxi-single com versão alternativa para a pista de dança – revelou-os como parte do movimento new romantic que, com berço em Londres, estava então a conquistar atenções na Europa continental. Entre nós a novidade foi acolhida com entusiasmo e Portugal, juntamente com a Finlândia e Austrália deram então os primeiros “número um” aos Duran Duran, suplantando o nº 12 atingido no Reino Unido.

Um segundo single chegaria poucos meses depois, revelando em Careless Memories uma maior intensidade rock, porém com resultados menores (nº 37 no Reino Unido). Escolhido pela editora, o relativo fracasso da canção – que com o tempo se transformaria num clássico de palco – abriu a seleção do seguinte aos elementos da banda. E ao apostar em Girls on Film não só seriam mais fiéis à essência do álbum que chegara entretanto às lojas, como da canção fariam um dos hinos desse verão, catapultando-os a eles e ao disco para um patamar de atenção que lhes permitiu ir para além do nicho new romantic inicial e, de certa maneira, lançar as bases de uma carreira ainda hoje ativa.

Mas mesmo antes de Girls on Film, ou seja, com apenas dois singles editados, mas uma já expressiva mediatização e uma intensa agenda de concertos (sobretudo no Reino Unido), os Duran Duran eram sobretudo um dos casos de maior sucesso do movimento new romantic quando, em Junho de 1981, anunciaram o lançamento do seu primeiro álbum. Chamaram-lhe, simplesmente Duran Duran e, produzido pelo mesmo Colin Thurston que os acompanhara nos singles, mostrava uma banda mais próxima do som pop de Planet Earth que da intensidade rock’n’roll de Careless Memories.

Duran Duran é um perfeito exemplo de síntese dos interesses e visões que caracterizaram uma geração pop educada ao som de Bowie e Roxy Music, entusiasmada pela revolução punk e, mais tarde, interessada pelo sentido rítmico entretanto revelado pelo disco (com particular entusiasmo pelos Chic). Estes ingredientes moram entre canções que, em conjunto fazem deste um dos melhores álbum dos Duran Duran. Canções como Planet Earth, Girls On Film (que seria o último single extraído do alinhamento do disco), Anyone Out There, Sound Of Thunder ou Friends Of Mine são fruto claro do cruzamento dessas mesmas referências. O labor mais textural em Nightboat, To The Shore e no instrumental Tel Avive mostrava já sinais de um outro plano de acontecimentos, cenicamente mais elaborado, que ganharia desenvolvimentos vários em discos seguintes e culminaria com a aventura em paralelo que em 1985 três dos elementos do grupo editaram sob nome Arcadia.

Na sua edição original nos EUA o álbum incluía a Night Version de Planet Earth em vez da versão apresentada no resto do mundo, obrigando a maior extensão desta faixa à surpressão de To The Shore. Em 1983, apesar do retomar da versão original de Planet Earth, a junção do (novo) Is There Something I Should Know? a essa reedição americana do álbum de estreia voltaria a deixar de parte uma canção que, do outro lado do Atlântico, só entrou no disco com a chegada do CD, as mais recentes reedições tendo todavia retomado o alinhamento britânico de origem.

O seu impacte na época (sob aclamação de jornalistas de publicações como a The Face ou Melody Maker) ganhou adeptos e expressão entre contemporâneos. O sucesso que o disco deu ao grupo e a consciência de que havia caminhos a explorar para além do movimento ao qual se haviam associado na hora do nascimento levá-los ia pouco depois mais longe e a novas experiências. Mesmo assim, e apesar da carga primordial que é inevitável encontrar nos Visage e no impacte da estreia dos Spandau Ballet, o primeiro álbum dos Duran Duran revelou-se a voz mais marcante do movimento new romantic.

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