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1985. Tirar férias para continuar a trabalhar

Texto: NUNO GALOPIM

Passam hoje 30 anos sobre a edição do álbum “So Red The Rose” do projeto Arcadia, ao qual três elementos dos Duran Duran chamaram colaboradores como Grace Jones, David Gilmour ou Sting.

O final da digressão mundial que se seguiu à edição do álbum Seven and the Ragged Tiger exibia entre os elementos dos Duran Duran alguns sinais de tensão que só umas férias podiam resolver. John e Andy Taylor começaram então uma série de sessões de gravações para as quais chamaram alguns outros músicos, desse corpo de trabalho emergindo uma nova banda – os Power Station – e um álbum de maior fôlego rock e animado por um interesse rítmico por heranças do funk que seria lançado logo no início de 1985. Por seu lado os três outros elementos dos Duran Duran – Simon Le Bon, Nick Rhodes e Roger Taylor (que colaborou no disco dos Power Station) – reuniam-se no estúdio La Grande Armée, em Paris e, entre abril e junho desse mesmo ano, e ao mesmo tempo que ultimavam a edição de A View to a Kill, criaram um conjunto bem distinto de canções. E, delas surgiria também uma banda – a que chamaram Arcadia – e um álbum que, com o título So Red the Rose, foi lançado a 18 de novembro de 1985.

O ano de sabática dos Duran Duran (na verdade interrompido para o single para o filme de James Bond e uma atuação pouco feliz no Live Aid) tinha afinal produzido dois álbuns. Um mais distante dos caminhos seguidos pela banda, mas cujas experiências teriam alguma repercussão mais tarde. O outro mais próximo da ideia de uma pop sofisticada e elegante que os Duran Duran tinham abordado no disco de 1983 e que teria maior consequência em alguns momentos futuros na discografia da banda. Na verdade So Red The Rose só não é oficialmente um álbum dos Duran Duran porque ali faltam elementos da banda (que na verdade estiveram depois ausentes em outros discos do grupo) e porque o nome que assina o disco é outro.

So Red The Rose teve em Election Day um cartão de visita que desde logo sugeriu um trabalho meticuloso em estúdio numa canção de cenografia cuidada e nada minimalista e que, mesmo explorando novas ideias, não se afasta tanto quanto o fizeram os Power Station dos caminhos recentes da obra dos Duran Duran. O trabalho protagonista das teclas, espalhado por várias camadas de acontecimentos e a presença vocal de Simon Le Bon garantem essa assinatura genética comum aos Duran Duran. A voz convidada de Grace Jones, uma utilização diferente das guitarras (onde colaborava Masami Tsuchiya, que acompanhara os Japan na sua etapa final) e toda uma construção visual que vincou sinais de uma admiração pela obra de Jean Cocteau, marcavam, num outro sentido, elementos distintivos. O single foi o único hit nascido deste disco, tendo surgido em alinhamentos de concertos dos Duran Duran em diversas ocasiões desde então.

O álbum aprofundaria o sentido das demandas estéticas lançadas pelo single de apresentação num alinhamento que a essa exploração mais intensa dos teclados e do detalhe cénico na produção acrescentou ainda frequentes marcas da cultura latina (bem evidentes em El Diablo), aproximando-se de caminhos comuns aos da música dos Duran Duran em vários momentos, não deixando contudo nunca de ensaiar novas possibilidades, como se escuta por exemplo nas atmosferas que desenham o instrumental Rose Arcana, Missing (ver vídeo em baixo) ou o tom épico com que Lady Ice encerra o alinhamento. Temas como Goodbye is Forever, The Flame (ambos editados em single) e Keep Me In The Dark refletem também essas afinidades naturais com os caminhos da pop dos Duran Duran em meados dos anos 80, tendo esta última conhecido natural herdeiro em American Science do álbum Notorious gravado no ano seguinte.

The Promise, pérola de labor na composição e produção que chamou a estúdio colaborações como as de David Gilmour (Pink Floyd) ou Sting, é outro dos momentos maiores do disco. Editado como segundo single na Europa (já que para os EUA e Japão foi escolhido Goodbye is Forever), The Promise ficou consideravelmente aquém da visibilidade de Election Day, sugerindo, tal como sucedera ao terceiro single dos Power Station, que os projetos em paralelo tinham valorizado experimentalmente os músicos mas em nada traduziam o sucesso que a banda vivera nos dois anos anteriores (aqueles em que conheceu, de facto, maior impacte global).

Arrumado na indiferença da crítica da altura, o álbum conheceu novo foco de atenções por ocasião de um programa de reedições da obra dos Duran Duran gravada nos oitentas. Surgiu assim uma edição “integral” juntando aos nove temas do álbum os lados B dos singles e várias remisturas, assim como o single Playing For Keeps, que Le Bon e Rhodes gravaram, ainda como Arcadia, para a banda sonora de um teen movie norte-americano da altura. Esta edição “integral” acrescenta aos dois CD um DVD com os cinco telediscos criados para as canções dos Arcadia, os seus making of e entrevistas, reproduzindo os conteúdos de uma edição em VHS de 1987.

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