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1990. Um momento de desorientação

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em agosto de 1990 o álbum “LIberty” traduz um tempo de desorientação maior para os Duran Duran. Mesmo assim foi berço para duas canções de referência na obra do grupo: “Serious” e “My Antartica”.

Com resultados aquém do que outrora haviam conhecido, Big Thing (1988) representou o último álbum que os Duran Duran gravariam nos anos 80 e o segundo criado em trio, após os afastamentos de Roger Taylor e Andy Taylor. Em 1989, para encerrar oficialmente a década que os revelara discograficamente e a cuja história ficaram associados como uma das suas referências maiores, editaram um primeiro best of ao qual chamaram Decade e do qual o mais interessante é mesmo a capa magistralmente concebida por Stephen Sprouse. Burging The Ground, um inesperado e curioso single, criado a partir de colagans de elementos de canções editadas entre 1981 e 1988, surgiu para assinalar o momento, mas ficou estranhamente fora do alinhamento do álbum (que deixava também de fora os singles Careless Memories, My Own Way, New Moon on Monday, Meet El Presidente e Do You Believe in Shame?). O facto de não juntar o “novo” Burning the Ground a Decade é apenas um dos sinais de desorientação daquela que, até ao renascimento no Wedding Album, de 1993, seria a etapa menos entusiasmante de toda a carreira do grupo.

Depois de terminada a digressão (que vinha já do ano anterior), em maio de 1989 o grupo reuniu-se num celeiro na região de Sussex para ensaiar e compor novas canções. A grande novidade era a integração como membros da banda de dois músicos norte-americanos que haviam colaborado na criação dos dois últimos álbuns. O guitarrista Warren Cuccurullo colaborava já com os Duran Duran desde Notorious e tinha já andado na estrada desde a Strange Behaviour Tour que se seguiu ao lançamento do álbum, tomava o lugar outrora de Andy Taylor. O baterista Sterling Campbell, que participara nas sessões de Big Thing e estivera em palco na Big Live Thing Tour e na imediatamente seguinte Electric Theatre Tour, sentava-se oficialmente no banco que antes fora de Roger (e temporariamente ocupado por Steve Ferrone nos tempos de Notorious, mas apenas como músico convidado).

Reunidos em estúdio algumas semanas depois, chamaram para o lugar de produtor o experiente Chris Kimsey, figura mais ligada ao rock e com trabalho mais notável assinado junto dos Rolling Stones… Algo estava a mudar… E quem estranhara a guitarra mais intensa de Warren Cuccurullo em Lake Shore Drive, no final de Big Thing, encontraria depois, neste álbum a que chamaram Liberty, e que editaram em agosto de 1990, os ecos diretos desses caminhos.

As guitarras, mais intensas que nunca, emergem como uma marca de identidade em temas como First Impressions ou Read My Lips, mantendo-se contudo nesta última, assim como em Hothead, um relacionamento entre a alta tensão elétrica e um trabalho rítmico herdado de matrizes R&B que de certa forma representam heranças do que tinha emergido nos Power Station cinco anos antes. Esta face mais próxima de encantamentos que recuam a uma velha admiração por rumos R&B (de que Union of The Snake, Notorious ou Skin Trade haviam sido grandes manifestações), manifesta-se visivelmente no tema-título, todavia num patamar de inspiração claramente menor.

Há depois equívocos como os que escutamos em Can You Deal With It? ou Venice Drowning, casos de composição desinspirada e de alguma cedência a valores nada próximos da identidade do grupo. Sob um outro regime de auto-crítica estas são inclusivamente canções que nunca teriam chegado sequer ao estúdio de gravação. Já All Along The Water ou Downtown são exemplos de um trabalho de reflexão deixado a meio, podendo ambas ter beneficiado com mais prolongada depuração dos excedentes (leia-se, uma vez mais, um trabalho de guitarras que transcende a linha de elegância e equilíbrio mais característica na música dos Duran Duran).

O single de avanço Violence of Summer (Love’s Taking Over) é das peças mais incaracterísticas da obra dos Duran Duran e, talvez, um dos piores de toda a sua obra. Nesta canção, como em outros momentos do disco, a presença do piano como força protagonista nas teclas procura caminhos mais próximos de heranças rock (e ao mesmo tempo eventuais flirts com o contemporâneo apelo dançavel da italo house), desvalorizando também aí outra das marcas fundamentais da essência dos Duran Duran: as texturas para sintetizadores de Nick Rhodes.

No meio de tantos tiros ao lado, há em Liberty espaço para dois momentos dignos de figurarem numa evocação do melhor da obra do grupo. Um deles é Serious, bem escolhido como segundo single (embora vitimado pela má receção crítrica e popular que o álbum entretanto gerara) e, de certa forma, a ponte possível que três anos depois os levaria a um novo disco de recorte pop mais clássico. O outro é My Antartica, uma canção na linha herdeira das experiências dos Arcadia e da face melancólica de Big Thing, representando o instante em que o álbum sai do torpor de enganos e, numa segunda fresta (a primeira sendo naturalmente Serious), lembra aos músicos que não são mais nem menos que os Duran Duran e não uma banda a entrar por caminhos de eletricidade a jorros que decididamente não era o seu.

Vale a pena mesmo assim mergulhar nos temas dos singles e máxis editados na época para compreender como uma opção de produtor diferente e um ponto de vista distinto poderia ter aberto outros horizontes a estas canções. As versões de dança de Violence of Summer apontam azimutes à house, uma delas integrando no corpo da mistura samples da percussão de Wild Boys e da banda sonora de Barbarella. Yo Bad Azizi, uma reflexão nova sobre um verso da letra de Is There Something I Should Know revelava uma curiosidade por caminhos mais experimentais que, adiante, o grupo levaria a bom porto na segunda metade dos noventas. Igual pulsão experimental emerge em Throb, um lado B que apresenta uma visão distinta para as ideias e linhas de My Antartica.

Liberty foi um valente tiro ao lado e só o eco ainda vivo das memórias dos discos anteriores e uma base de fãs fiel (que ainda hoje subsiste) lhe garantiu a pouca visibilidade que conheceu. O álbum não gerou uma digressão. Numa das entrevistas da época chegaram mesmo a sugerir que precisavam de um segundo novo álbum para ter um outro repertório para os concertos e que passariam a tocar os velhos temas apenas nos encores. A tempo deram pelo equívoco que o disco foi e o caminho que estavam a tomar. E quando regressaram em 1993, mesmo com novos valores, voltavam a retomar uma noção “estilo” herdada dos Roxy Music. Mas aqui, em Liberty, viveram um valente tropeção. A ressaca da etapa de sucesso global atingia o seu ponto mais crítico. Mas souberam depois recuperar.

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