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1983. Um monumento a uma pop mais sofisticada

Texto: NUNO GALOPIM

“Seven and The Ragged Tiger”, terceiro álbum dos Duran Duran, é exemplo de uma pop mais complexa e de produção sofisticada que marcou alguma da música daquele tempo. Estão aqui grandes clássicos e ideias que aprofundariam no futuro.

O sucesso conquistado globalmente pelo impacte de Rio teve várias consequências práticas na evolução musical dos Duran Duran e uma delas decorreu diretamente de uma necessidade em viver e trabalhar fora de Inglaterra durante um ano para assim tentar contornar a carga de impostos a que outro modo estariam sujeitos. Afinal, nada de novo na história da cultura pop/rock. Foi por isso que, em inícios de 1983, e já depois de Nick Rhodes se ter juntando em estúdio a Colun Thurston para produzir o álbum de estreia dos Kajagoogoo, deram por si a gravar novas maquetes numa vivenda perto de Cannes, sob a produção de Ian Little. Desta etapa há sobretudo memórias de más rotinas de trabalho e de mais tempo passado em festas que à volta da música. Entre as maquetes gravadas surgia uma revelando a canção Seven and The Ragged Tiger. Como as demais canções nascidas nessas sessões não chegaria ao novo álbum, mas dela evoluiriam elementos que se materializariam depois em The Seventh Stranger. O tema daria mesmo assim, mais tarde, título ao novo disco. Com alma do que poderia ser o título de um filme de ação, junta a ideia de uma equipa de sete (ou seja, os cinco elementos do grupo mais os dois managers, os irmãos Berrow, donos do Rum Runner, em Birmingham, onde a aventura havia começado cinco anos antes), representando o “tigre esfarrapado” uma ideia do sucesso.

O trabalho no disco foi interrompido por compromissos em Londres – entre eles eventos contando com a presença dos príncipes de Gales – e retomado pouco depois nos Air Studios em Monserrat, nas Caraíbas, onde ao grupo e a Ian Litte se juntou o produtor Alex Sadkin. O ritmo de trabalho ficou uma vez mais aquém do desejado, obrigando a novas sessões não apenas nesses mesmos estúdios mas, mais tarde em Sidney (Austrália), onde o moroso processo de mistura chegou a gerar um conflito entre Sadkin e o baixista John Taylor, sendo esse episódio apontado como a génese do que mais tarde seria o projeto Power Station.

É na Austrália, onde semanas depois iria começar a Sing Blue Silver Tour, que tiram a fotografia que surgiria depois na capa do álbum e gravam (perto de Sydney) o teledisco para Union of The Snake, que seria apresentado como single de apresentação em outubro de 1983.

O longo processo de escrita, gravação e mistura teve contudo resultados evidentes num álbum que não repetiu a pop mais luminosa e dançável de Rio, procurando antes novas demandas cenicamente mais complexas, não perdendo contudo as canções o seu sentido pop e, sobretudo, a capacidade em talhar refrões memoráveis que desde sempre se afirmou como uma das marcas de identidade dos Duran Duran. As letras eram contudo mais abstratas que nunca, promovendo o trabalho muito elaborado de teclas e uma produção atenta ao detalhe a construção de um monumento que só o contexto da época e a popularidade global de que então o grupo gozava podia transformar num caso de sucesso de semelhante dimensão.

Seven and The Ragged Tiger daria ao grupo o seu único álbum a chegar ao número um no Reino Unido, somando depois uma dupla platina nos EUA e uma tripla platina no Canadá. Ao sucesso dos singles Union of The Snake e New Moon on Monday juntar-se-ia, já em 1984, o impacte global de uma remistura de Nile Rodgers para The Reflex, que então lhes deu o seu maior êxito até então, traduzindo sobretudo nos EUA o efeito da digressão que andou por grandes salas de todo o território até finais de abril desse ano.
Sovado pela crítica da época, talvez mais como eco do estatuto “famoso” alcançado pelos membros da banda, o álbum traduz um dos paradigmas de uma pop de arquitetura e arte final complexa que espelha efeitos das conquistas tecnológicas mais recentes no plano instrumental e na diversidade de possibilidades do trabalho em estúdio, se o orçamento fosse de feição (e era).

Contendo em The Reflex e New Moon on Monday dois dos melhores singles da banda, aos quais se juntaria Shadows on Your Side caso não tivesse sido preterida a sua edição em 45 RPM em favor de The Wild Boys, mostrando ainda em I Take The Dice ou (I’m Looking For) Cracks In The Pavement outros exemplos da nova linguagem pop mais sofisticada aqui fixada, o álbum foi também fonte direta para algumas etapas posteriores da vida destes músicos. O carácter textural, centrado no trabalho das teclas, em Tiger Tiger e The Seventh Stranger, seria a porta evidente para os Arcadia, tal como o fulgor mais rock de Of Crime and Passion não estava longe de alguns caminhos a aprofundar pelos Power Station. Já alma de travo white funk de Union of The Snake lançaria uma ponte que, três anos depois, seria retomada e levada a mais consequentes destinos em Notorious. E tudo isto em apenas nove faixas. Era a conta certa, de facto.

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