Últimas notícias

Como uma voz se apagou

Texto: NUNO GALOPIM

O interessante documentário de Asif Kapadia sobre Amy Winehouse olha com tamanho protagonismo o seu percurso trágico que quase desvaloriza alguns aspetos da obra musical que podiam estar mais bem contados.

Houve três documentários de vulto dedicados a grandes figuras da música a passar este ano pelos maiores festivais de cinema. De um deles os ecrãs não viram depois mais rasto já que, produzido pela HBO, o filme que evocava a figura (musical, política e pessoal) de Nina Simone, acabou apontado a uma vida fora das salas de cinema. Mas tanto Cobain: Montage of Heck, de Brett Morgen, como Amy, de Asif Kapadia, não só chegaram a fazer percursos em sala como, no Reino Unido, o filme sobre Amy Winehouse se revelaria mesmo como o documentário a conseguir os melhores números de bilheteira de sempre.

Ambos partiam da possibilidade de explorar arquivos pessoais, contando por isso com o aval das famílias e o consequente acesso a material inédito. Cada um dos realizadores juntou depois, por si, novas entrevistas e elementos, Morgen optando por adicionar animações para dar vida a memórias ou às páginas dos “journals” de Kurt Cobain e usar as novas entrevistas no mais clássico modelo de “talking heads”. Por seu lado Kapadia optava por juntar as vozes recentemente captadas sobretudo num plano em off, tentando manter sobretudo as imagens num patamar de colagem de registos de arquivo, essencialmente colhidas entre sequências captadas para televisão e gravações de vídeo caseiras. Mas depois cada um seguiu um caminho diferente. Morgen sendo veículo de uma voz aparentemente oficial e nada incómoda para os que mais perto estavam de Cobain (e vale a pena notar uma vez mais a estranha ausência de Dave Grohl ou a reduzida atenção dada aos dias finais do protagonista). Kapadia, pelo contrário, e apesar de ter contado com a colaboração da família – pelo menos durante parte da produção – não deixa de mostrar a sucessão de dramas em que a vida da cantora viveu mergulhada, mostrando mesmo como, numa etapa já crítica, o pai a visitou em tempo de férias com uma equipa de filmagem aos ombros, que então fazia um documentário sobre ele mesmo… É sabido que a família não gostou do filme. Basta ver Amy para entender porquê. Mas atenção que as suas críticas têm alguma razão de ser quando aponta que há coisas que ficaram ali por contar (podia era não ser esse o filme que o realizador queria fazer).

Asif Kapadia – que antes assinara já um belíssimo documentário sobre Ayrton Senna – fez de Amy um filme sobre uma mulher instável e frágil, com sinais de desequilíbrio psíquico desde muito cedo e que foi incapaz de lidar depois com as consequências do salto para um patamar de fama global, vincando também o caráter tóxico não apenas das drogas e álcool mas do próprio romance com o ex-marido. E no meio de tudo isto quase esquece a cantora e compositora. Secundarizando os momentos de criação e vivência musical. Reduzindo o labor com Mark Ronson a um diálogo em tempo de gravações. Celebrando os prémios e episódios de maior aclamação, mas escutando mais a tragédia, os paparazzi, as assombrações e, não tanto quanto a figura o justificava, o talento que justifica como uma cantora de jazz, num ápice, se transforma numa estrela de dimensão pop.

Amy, onde não faltam breves imagens daquela dramática passagem pelo Rock in Rio – Lisboa, é um filme que incomoda. Porque nos coloca frente a alguém que, já de si de difícil capacidade em lidar com o peso das emoções, acaba terraplanada pela tempestade de voracidade que a fama lança sobre si. Todos querem um pedaço de si. Seja a voz, a fotografia, a história para acrescentar mais um episódio a uma tragédia para contar nas páginas de um jornal. Se ficam coisas por contar melhor na história musical de Amy Winehouse, do explicar do que fez desta rapariga uma estrela planetária, ao que nela escutou quem a ouviu antes de tudo acontecer, de como se pensou a projeção daquelas canções à criação daquela imagem, Amy por outro lado foca ao detalhe mais incómodo que representa o padecer de bulimia e também o peso insustentável da sede da cultura tabloide sobre uma figura frágil que, no fim, não resistiu. Se esse era o filme que Kapadia queria fazer, assim sendo conseguiu-o. O filão não fica contudo esgotado. E só entre a história musical e de mercado da música, há aqui ainda muito terreno a explorar. Haja quem, agora, queria fazer esses outros filmes.

“Amy”, de Asif Kapadia, está editado em DVD pela NOS

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: